Da fila do osso ao Banco Master: o Brasil que a extrema direita quer que a gente esqueça

Da fila do osso ao Banco Master: o Brasil que a extrema direita quer que a gente esqueça

Há imagens que permanecem na memória de um país, a fila do osso é uma delas. Em 2021, durante o governo Bolsonaro,o país viu milhares de famílias brasileiras em filas para receber ossos com pequenos pedaços de carne, restos de peixe e alimentos que, em qualquer outro momento, seriam destinados ao descarte. Pessoas procurando o que comer nos restos, mães tentando alimentar seus filhos. Trabalhadoras e trabalhadores sem dinheiro para colocar comida na mesa.

Não podemos tratar o fato como uma lembrança distante nem como consequência inevitável da pandemia. A crise sanitária foi mundial, mas as escolhas feitas por cada governo tiveram consequências. No Brasil, o desemprego, a perda de renda, a inflação dos alimentos e o desmonte ou enfraquecimento de políticas de proteção social fizeram a fome voltar a crescer em uma velocidade assustadora.  Voltamos ao mapa da fome. Entre o fim de 2020 e o início de 2022, o número de brasileiros em situação de fome chegou a 33,1 milhões. Mais de 125 milhões conviviam com algum grau de insegurança alimentar. A fila do osso virou símbolo de um país em que uma parcela enorme da população estava sendo empurrada para a sobrevivência.

É importante falar disso agora, em período de eleição, para relembrar o que vivemos na “Era Bolsonaro”. Quando alguém pede o voto da classe trabalhadora, é razoável perguntar que país ela viveu durante o período em que o agora presidiário, por tentativa de golpe de Estado, esteve no poder. Quem tinha emprego? Quem conseguia comprar comida? Como estava o salário? Como estavam as políticas públicas? E, principalmente, quem pagou a conta quando o país entrou em crise?

A extrema direita esquece, convenientemente, da fila do osso, do desemprego, da inflação dos alimentos e da fome enquanto esteve no poder. E insiste em manter o ataque às instituições e a tentativa de ruptura democrática, com a candidatura do membro de uma família que continua no centro de investigações e denúncias, que precisam ser esclarecidas.

É aí que chegamos ao Banco Master.

O caso envolvendo o banco, o empresário Daniel Vorcaro e as relações com integrantes do núcleo político do bolsonarismo ainda está sendo investigado. Flávio Bolsonaro aparece como investigado em um inquérito relacionado ao financiamento do filme Dark Horse, sobre seu pai, Jair Bolsonaro. Segundo informações da Polícia Federal divulgadas no processo, Flávio teria atuado como interlocutor de Vorcaro na negociação de recursos para a produção, enquanto Eduardo Bolsonaro aparece relacionado à gestão desses recursos.

O problema é que, justamente quando essas relações começam a aparecer, surge uma outra questão que não pode ser ignorada: o sigilo das investigações.

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), manteve sob sigilo o inquérito relacionado ao Dark Horse, enquanto informações de outros procedimentos ligados ao caso Master foram sendo divulgadas. A condução dos sigilos provocou questionamentos dentro do próprio Supremo. Mas se estamos falando de uma investigação que envolve dinheiro, um empresário poderoso, políticos e relações que podem atingir diretamente integrantes de uma família que ocupou a Presidência da República, a sociedade tem o direito de saber por que determinadas informações ficam escondidas e outras são liberadas.

Não estou afirmando que André Mendonça comprovadamente esteja ocultando provas para proteger Flávio Bolsonaro e seus aliados, mas é impossível não questionar a impressão deixada pela condução do processo. Aparentemente, existe uma proteção de informações justamente onde elas podem atingir pessoas do núcleo político do bolsonarismo. E, quando isso acontece, a transparência deixa de ser uma questão burocrática e passa a ser uma questão democrática.

Em 2020, durante uma reunião ministerial, Jair Bolsonaro afirmou que iria, sim, interferir na Polícia Federal para proteger sua família. O episódio está na origem das discussões e investigações sobre uma possível interferência política na PF.

Em 2026, já durante o processo eleitoral, Mendonça, indicado ao STF por Bolsonaro, está no centro de uma nova crise envolvendo as investigações relacionadas ao Banco Master. Quando a Procuradoria-Geral da República começa a divulgar informações da investigação, inclusive aquelas relacionadas ao filme Dark Horse, inicia-se uma disputa sem precedentes dentro do Supremo.

A crise não ficou restrita a Mendonça e Alexandre de Moraes. Flávio Dino também questionou a condução dos procedimentos, enquanto Luiz Fux e Kassio Nunes Marques também foram citados nos desdobramentos da crise. Dino defendeu uma análise conjunta dos casos envolvendo ministros, enquanto Fux sustentou posição diferente. Kassio Nunes Marques declarou-se impedido de participar de uma das sessões relacionadas ao caso.

É importante, neste ponto, deixar uma coisa clara: Alexandre de Moraes não é nem nunca foi de esquerda. Foi indicado ao STF por Michel Temer, em 2017, depois do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff. O próprio PT se posicionou contra a indicação na época. Isso, no entanto, não apaga a importância que Moraes teve posteriormente na defesa das instituições democráticas diante dos ataques à democracia e da tentativa de ruptura institucional. Uma coisa não elimina a outra.

O mesmo princípio deveria valer para todos os ministros do Supremo. Ministro do STF deve lealdade à lei e às instituições da República. E é justamente por isso que a crise atual merece atenção. Não podemos transformar ministros em representantes de campos políticos. Mas devemos observar como a Corte está conduzindo investigações que envolvem empresários, políticos e, agora, ao que tudo indica, alguns integrantes do Supremo.

A crise se aprofundou quando Mendonça, unilateralmente, determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do responsável pelo setor de Inteligência da PF. Andrei Rodrigues estava à frente da Polícia Federal quando Daniel Vorcaro foi preso, enquanto o setor de Inteligência da instituição participou de investigações de grande relevância, entre elas o caso Marielle e investigações contra o garimpo na Amazônia. Coincidência?

Se Flávio Bolsonaro não cometeu nenhuma irregularidade, que as investigações esclareçam. Se cometeu, que responda por isso. Se Vorcaro praticou crimes, que seja responsabilizado. Se houver qualquer autoridade envolvida em irregularidades, que seja investigada. Não existe democracia séria quando a lei é dura para o trabalhador e “cuidadosa demais” com quem tem dinheiro ou poder.

É justamente por isso que o caso do Banco Master não pode ser analisado separado da discussão sobre o Brasil que queremos. O candidato à presidência da República que hoje aparece em segundo lugar nas pesquisas, representa a herança política do governo que deixou famílias nas filas de ossos e restos de peixe, que protegeu banqueiro condenado por crimes, empresários e políticos envolvidos em investigações. Mais do que isso, representa a ruptura democrática e defende, abertamente, a submissão do Brasil aos interesses norte-americanos.

Para a classe trabalhadora, democracia vai muito além do discurso: significa ter direito ao voto, organizar sindicatos, reivindicar melhores salários e, quando necessário, fazer greve sem medo de represálias. Significa também ter políticas públicas que garantam comida na mesa, emprego e renda, além de um Estado capaz de proteger e desenvolver seus recursos estratégicos. Uma Petrobrás forte, por exemplo, deve estar a serviço do desenvolvimento do país e da sociedade, não apenas da distribuição de dividendos aos acionistas. Afinal, o dinheiro público e as riquezas do Brasil precisam cumprir uma função social.

Cada cidadã e cidadão brasileiro precisa entender que o preço do supermercado é consequência do seu voto. O preço do combustível, a oportunidade de emprego, o salário, a aposentadoria, a democracia. Tudo é consequência do seu voto.

O Brasil de hoje é diferente daquele de 2021, em vários aspectos. Voltamos a sair do Mapa da Fome da ONU, em 2025, depois da redução da insegurança alimentar e da pobreza. Esse resultado não significa que todos os problemas tenham desaparecido, mas mostra que políticas públicas podem mudar concretamente a vida das pessoas.

É essa comparação que interessa à classe trabalhadora: saber quem estava governando, quais decisões foram tomadas e o que aconteceu com a vida de quem trabalha no governo Bolsonaro e no governo Lula. Por este motivo, não podemos permitir que a fila do osso caia no esquecimento. Aquela imagem diz muito sobre um projeto de país. Assim como as investigações do Banco Master dizem muito sobre a necessidade de ter um governo que preza pela transparência, que não interfira nas investigações da Polícia Federal. Vale lembrar que Vorcaro virou banqueiro no governo Bolsonaro e prisioneiro no governo Lula.

O Brasil já viu o que acontece quando a democracia é atacada e quando a política econômica coloca a conta da crise nas costas de quem vive de salário. Não precisamos repetir a experiência para saber onde ela pode nos levar. A classe trabalhadora tem memória. É olhando para o que aconteceu que podemos discutir, com alguma honestidade, que país queremos construir daqui para frente.

Por  Raony Salvador

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