Quem vencer em 2026 indicará três novos ministros ao STF. Se Flávio for eleito, a sequência é óbvia, seguindo o modelo de Orbán na Hungria
Peça 1 — A hipótese: um Brasil governado por Flávio Bolsonaro
Imagine o Brasil a partir de 2027, sob um governo Flávio Bolsonaro, apoiado por maioria no Congresso e por uma nova composição no Supremo Tribunal Federal. E sob o controle da mesma família que assegurou que, para parar o Supremo, bastaria um cabo e um soldado.
(1) O mercado e o crime organizado
A flexibilização regulatória iniciada por Roberto Campos Neto (2019-2024) não será revertida — mas aprofundada. As fintechs que a Operação Carbono Oculto e as operações da Polícia Federal (Quasar, Tank, Fluxo Oculto) mostraram serem dutos de lavagem de dinheiro do PCC continuam operando sob supervisão frouxa. Sem reforço de capital mínimo e de fiscalização, o mesmo modelo que produziu o rombo do Banco Master e a infiltração de R$ 52 bilhões do crime organizado na Faria Lima seguirá de pé — e sem correção, tenderá a se repetir em escala maior.
(2) A perda de soberania
O veto à TerraBras, a aquisição da Serra Verde pela americana USA Rare Earth e o vácuo de controle sobre o capital estrangeiro no setor mineral (temas do PL 2780/2024) deixam de ser exceção para virar política de Estado. Um governo alinhado a Washington, no contexto de pressão coercitiva americana já em curso na região, tende a acelerar a entrega de reservas estratégicas de minerais críticos — moeda de troca disponível diante da escalada que já levou à intervenção na Venezuela. Petróleo na foz do Amazonas, reservas conhecidas e não conhecidas de terras raras, tudo ficará nas mãos de grupos norte-americanos ou grupos financeiros associados ao capital internacional. Acaba o sonho de Brasil nação. Flávio já prometeu a Marco Rubio a participação dos EUA nos planos de governo, o que significa acesso a todas as informações estratégicas nacionais.
(3) O fim da preservação ambiental
Sem meta climática no programa de governo (o plano registrado no TSE não menciona Acordo de Paris, desmatamento ou transição energética) e com o próprio candidato relativizando a existência do aquecimento global em sabatina pública, a política ambiental federal se resumirá à liberação já em curso no Congresso: redução de unidades de conservação (caso Flona do Jamanxim, -37%), Marco Temporal aprovado, mineração liberada em terra indígena.
E os grandes desastres climáticos irão se repetir por todo o país. Globalmente, será a falência do Acordo de Paris, trazendo riscos crescentes à vida no planeta.
(4) O desmonte das grandes estatais
Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal entram formalmente na mesa de negociação. Flávio já declarou que dará “continuidade ao que o Paulo Guedes começou”; aliados mais à direita do espectro bolsonarista (caso Sergio Moro) já defenderam abertamente privatizar Petrobras e todos os bancos públicos, sem a ressalva que o próprio Jair Bolsonaro mantinha para BB e Caixa.
(5) A mudança de regime democrático
Com ao menos 3 indicações ao STF garantidas por aposentadoria natural até 2030 (Fux, Cármen Lúcia, Gilmar Mendes), somadas aos 2 ministros já indicados por Jair Bolsonaro, mais a possibilidade — com precedente formal na PEC Collor de 2013 — de ampliar o número de cadeiras da Corte para fechar maioria antes disso, o desenho institucional que sustenta o Estado de Direito passará a operar sob o controle de um único campo político. Como mostra a literatura sobre “autocratic legalism” (Hungria, Turquia), não haverá necessidade de um golpe tradicional: a mudança passará por PEC aprovada, indicação constitucional e decisão fundamentada, capturando, com o STF, também o TSE, que tem 3 de seus 7 assentos ocupados por ministros do Supremo.
Peça 2 — Explicando os grupos que apoiam Flávio

(1), (2) e (4) A Faria Lima: pela volta da flexibilização total — e pela escalada de pressão americana
A gestão de Campos Neto (2019-2024) abriu o sistema financeiro por meio da expansão das categorias de instituições de pagamento e fintechs (arcabouço da Lei 12.865/2013), com relaxamento de exigências de capital para entrantes menores. Foi nesse ambiente que o Banco Master, sob Daniel Vorcaro — que visitou o BC ao menos 24 vezes durante o período, segundo a Revista Fórum —, encontrou espaço para expansão meteórica com CDBs a até 150% do CDI.
A Operação Carbono Oculto (MPSP, ago/2025) revelou R$ 52 bilhões movimentados pelo PCC via 42 empresas da Faria Lima, com R$ 30 bilhões aplicados em 40 fundos. Simultaneamente, a Polícia Federal — em operações distintas e específicas, a Quasar e a Tank — cumpriu mandados na própria Avenida Faria Lima; a decisão judicial que autorizou a Quasar aponta a Reag Investimentos (R$ 299 bilhões sob gestão, maior gestora de patrimônio do país) como “principal responsável pela ocultação de valores sem origem”.
Dos 14 mandados de prisão expedidos, só 6 foram cumpridos — a PF abriu apuração interna sobre possível vazamento. Uma nova fase, a Fluxo Oculto (mai/2026), mostrou que o esquema seguiu ativo com seis novas fintechs e R$ 26 bilhões movimentados. Entre os nomes: Maurício Quadrado, ex-Bradesco e ex-sócio do Banco Master, sócio das administradoras Trustee e Banvox, ambas alvo da Quasar — o mesmo operador circulando entre o caso Master e o caso Faria Lima/PCC.
A grande questão é que essa flexibilização abre espaço para o crime organizado, mas também aumenta os lucros do mercado.
XP, BTG e Nubank foram as três maiores distribuidoras de CDBs do Master na liquidação (XP ≈ R$ 26 bi, BTG ≈ R$ 6,7 bi, Nubank ≈ R$ 2,9 bi, de um total de R$ 41 bi garantidos pelo FGC). O ganho documentado aqui é receita de distribuição — comissão sobre volume vendido a varejo —, não lucro direto com a fraude, que não está demonstrado.
No caso Americanas, bancos (Itaú, Bradesco, Santander, Safra, BTG) financiaram via risco sacado uma operação que mascarava R$ 25,3 bilhões de dívida; a CVM acusou formalmente 8 ex-executivos por venda de mais de R$ 200 milhões em ações antes da revelação da fraude (out/2024). Ganharam comissões emprestando às Americanas e, depois, vendendo ações da empresa, em cima de balanços falsificados.
No plano da soberania, os EUA invadiram a Venezuela e capturaram Maduro (jan/2026); o Departamento de Estado classificou PCC e CV como ameaças regionais (mar/2026); essas facções podem ser designadas organizações terroristas — o que abriria caminho para sanções financeiras extraterritoriais sobre instituições que operem com elas, ainda que involuntariamente, via fintechs contaminadas.
É esse parte do interesse real e verificável da Faria Lima em relação ao cenário americano.
De um lado, sabe que um mercado financeiro que pode ser alvo de sanções americanas por sua própria exposição ao PCC tem interesse direto em um governo alinhado a Washington, capaz de negociar politicamente essa exposição em vez de enfrentá-la como adversário. Por outro lado, as grandes tacadas norte-americanas sobre os ativos brasileiros sempre terão na ponta fundos de investimento associados a fundos nacionais.
Finalmente, o desmonte das estatais abre enormes possibilidades de negócios.
(3) Agro e mineração: pelo fim das restrições ambientais
Em agenda no Pará, Flávio defendeu pessoalmente a flexibilização do licenciamento ambiental para agronegócio e mineração, no mesmo momento em que estava no centro do escândalo do Master.
A Câmara aprovou, na “Semana do Agro”, o PL 2.486/2026 (reduz ~37% a Flona do Jamanxim) e outros textos que liberam desmatamento em vegetação nativa e dificultam a fiscalização — tramitação discreta, no mesmo período em que a atenção pública estava no Master.
O PL 490/07 (Marco Temporal) e o PL 191/2020 (mineração em terras indígenas) seguem como prioridade da bancada ruralista; aliados avaliam que a aprovação do Marco Temporal pode reduzir a rejeição eleitoral do campo bolsonarista.
Em 2022, coube ao próprio Flávio — “Zero Um” — articular a arrecadação de doadores do agronegócio para a campanha do pai: mais de R$ 9 milhões entre empresários do setor, dos quais R$ 10,7 milhões vieram de fazendeiros e executivos respondendo a acusações de crimes socioambientais (grilagem, desmatamento, sobreposição em terra indígena, trabalho escravo).
(1), (2) e (4) Grupos de mídia: pela subordinação ao mercado financeiro
Peça 3 — Como terminaria a democracia no Brasil
Quem vencer em 2026 indicará ao menos 3 novos ministros ao STF por aposentadoria natural: Fux (abr/2028), Cármen Lúcia (abr/2029), Gilmar Mendes (dez/2030) — somados aos 2 já indicados por Bolsonaro (Mendonça, Nunes Marques), chegando a 5 de 11 ao final do mandato, ainda sem maioria absoluta e só a partir de 2028.
Se Flávio for eleito, a sequência é absurdamente óbvia, seguindo o modelo de Orbán na Hungria..
Como a democracia terminou (ou quase) com Orbán e outros autocratas — passo a passo
Passo 1 — a maioria qualificada que a lei eleitoral amplificou. Em 2010, o Fidesz venceu as eleições com maioria simples de votos, mas a lei eleitoral então em vigor transformou isso em maioria de dois terços no Parlamento — o suficiente para alterar a Constituição sozinho, sem precisar de nenhum outro partido. Esse é o ponto de partida técnico de tudo o que veio depois: sem os 2/3, nada do resto seria possível pela via legal.
Passo 2 — velocidade e volume como estratégia. Nos cinco anos seguintes, o partido aprovou mais de mil leis, a maioria “depois de apenas algumas horas de debate” — a ponto de deputados do próprio Fidesz não saberem o que estavam votando. A velocidade tem uma função: satura a capacidade de reação da oposição, da imprensa e da sociedade civil.
Passo 3 — nova Constituição (2011-2012). Com os 2/3 garantidos, o Fidesz substituiu a Constituição por uma nova (o “Alaptörvény”), criticada pela UE e pela sociedade civil húngara — um eurodeputado a chamou de “cavalo de Troia” de um sistema autoritário.
Passo 4 — captura do Tribunal Constitucional. O tribunal foi colocado sob controle do partido: ampliação do número de juízes, todos indicados pela maioria parlamentar, e redução formal dos poderes da própria Corte.
Passo 5 — reforma eleitoral recorrente. A lei eleitoral e os distritos foram redesenhados várias vezes, sempre a favor do partido no poder — mudança de quocientes, remapeamento de distritos. O resultado: eleições continuaram sendo livres, mas deixaram de ser equitativas.
Passo 6 — captura da mídia. Concentração de veículos privados sob propriedade de aliados (via uma fundação, a KESMA, que reuniu centenas de outlets em 2018), asfixia de mídia independente por falta de publicidade estatal e pressão regulatória. No caso brasileiro, não haveria resistência da parte da mídia corporativa
Passo 7 — captura da autoridade eleitoral. O órgão que administra as eleições passou para controle de indicados do partido.
Passo 8 — perseguição a universidades e sociedade civil. Caso mais visível: a Universidade Centro-Europeia (fundada por George Soros) foi expulsa do país por lei específica; ONGs financiadas do exterior foram alvo de legislação restritiva.
Passo 9 — clientelismo institucionalizado. Entre € 3,2 e € 5,5 bilhões em fundos europeus foram direcionados a uma rede de empresas ligadas ao círculo de Orbán (destaque para o oligarca Lőrinc Mészáros) — a corrupção deixou de coexistir com o Estado de Direito degradado e passou a ser o próprio uso do Estado.
Passo 10 — o nome dado ao próprio regime. Em 2014, Orbán chamou publicamente seu projeto de “democracia iliberal” — um raro caso de autocrata descrevendo o próprio método sem eufemismo, antes de trocar o termo por “democracia cristã”.
Resultado, segundo a Freedom House: a Hungria virou o primeiro país da União Europeia classificado como apenas “parcialmente livre”.
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