O messianismo jurídico de André Mendonça e o Supremo Tribunal Evangélico

O messianismo jurídico de André Mendonça e o Supremo Tribunal Evangélico

O eminente ministro age como um apóstolo do clã político da família Bolsonaro

O projeto de poder neopentecostal acaba de fazer mais um movimento importante rumo à sua consolidação dentro das instituições brasileiras. O afastamento de Andrei Rodrigues, diretor da Polícia Federal, por decisão de André Mendonça, o ministro “terrivelmente evangélico” indicado por Jair Bolsonaro para o STF, confirma o que eu já venho dizendo há tempos — e escrevi no meu livro “Domínio Teocrático: O Brasil sob o fascismo evangélico” —: que a próxima tentativa de golpe não seria militar. Seria evangélica.

O que Mendonça acaba de fazer é provocar uma crise institucional sem precedentes jurídicos no país, cujas intenções são: desestabilizar o Planalto e atingir a campanha presidencial de Lula; forçar uma reação do governo por meio da AGU; manipular a opinião pública a favor de sua jurisprudência moral e religiosa; e favorecer a campanha de Flávio Bolsonaro.

Como podemos ver, a última tentativa de golpe, que quase esfacelou a democracia brasileira em 08/01, não se deu por vencida com o resultado das urnas e com o processo que culminou na prisão do líder da quadrilha. Desta vez, para não ter que engolir mais um revés eleitoral, que também pode resultar em uma futura prisão para o seu candidato — tendo em vista o seu envolvimento com Vorcaro, dono do Banco Master —, a extrema-direita se antecipa e muda o seu projeto de poder de trincheira.

Hoje, o principal front dessa guerra silenciosa contra o Estado de Direito não está nas motociatas ou nos acampamentos golpistas, mas aninhado no coração da mais alta Corte do país. A atuação do ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal é a materialização perfeita de um plano de ocupação institucional que subverte a Constituição em nome de um messianismo político e religioso profundamente perigoso.

Quando Jair Bolsonaro anunciou que indicaria um ministro “terrivelmente evangélico” ao STF, o recado era claro: não se buscava um guardião da Carta Magna, mas um  despachante de luxo para os interesses de um clã político e de uma agenda teocrática. Mendonça, que, enquanto ministro da Justiça e advogado-geral da União, agiu como um escudo jurídico da família presidencial, não mudou de pele ao vestir a toga. Apenas refinou o método.

Seu comportamento no STF reflete um alinhamento ideológico e uma gratidão que atropelam a necessária impessoalidade da magistratura. Cada voto, cada pedido de vista conveniente e cada manifestação pública parecem desenhados sob medida para blindar o bolsonarismo e, mais especificamente, pavimentar os caminhos da sobrevivência política da primeira família da extrema-direita brasileira. Tudo à luz do fundamentalismo religioso e da instrumentalização política e jurídica da fé.

E os demônios que desceram do Norte pousaram ontem na Avenida Paulista, durante mais um 7 de setembro bolsonarista, com direito a um boneco inflável de Donald Trump carregando a cabeça do presidente Lula e muitas orações pela vida do “ungido do Senhor”, que hoje integra a Corte máxima de Justiça do país.

Malafaia invocou um despertar espiritual para que o povo brasileiro acreditasse que a mudança que precisa ser feita passa pelas mãos da Igreja Evangélica neopentecostal. Um golpe urdido sob a autoridade da palavra de Deus e das bem-aventuranças do Evangelho de Jesus Cristo.

Coordenadamente, diversos pastores e líderes do segmento pedem aos fiéis de suas empresas da fé que orem por Mendonça e já o apresentam como o enviado de Deus para libertar o Brasil do mal que a esquerda representa. E a palavra de Deus, usada como arma de destruição, pode ser mais letal do que os tanques de guerra do Exército.

É nesse cenário que as engrenagens se movem para o tabuleiro eleitoral. A movimentação subterrânea que visa impulsionar a candidatura de Flávio Bolsonaro ao posto mais alto da política nacional não é um fato isolado; é o objetivo final de uma rede de salvaguardas.

O “01”, que carrega nas costas o peso das suspeitas históricas das rachadinhas, das ligações com as milícias e do envolvimento com o banqueiro Daniel Vorcaro, precisa de um ambiente judicial pacificado e, se possível, cúmplice. Foi o que ele mesmo pregou no palanque montado na Paulista: “Não queremos guerra com o STF. Só queremos justiça.”

E nada mais mobilizador e convincente do que uma justiça vinda de Deus. Digo: de André Mendonça. O mesmo que foi exibido horas antes do evento na Paulista, no telão da Igreja Mundial do Poder de Deus, tendo sobre o altar da instituição Tarcísio de Freitas, Eduardo Cunha e Flávio Bolsonaro.

Como se não bastasse o Rio de Janeiro, laboratório histórico das piores experiências de milicianização e clientelismo evangélico do país, corremos o risco de ver essa aliança consolidada nacionalmente sob as bênçãos do eleitorado evangélico, de entusiastas do fascismo e de alienados políticos.

A leniência ou as decisões sob encomenda que partem de setores alinhados a Mendonça funcionam como um combustível vital para que Flávio Bolsonaro continue posando de líder político viável, em vez de responder com o devido rigor aos seus fantasmas jurídicos. Depois do diretor da PF, Moraes é o próximo alvo a ser abatido. Justamente a pedra angular que impede o projeto de poder dos aliados de Mendonça de se estabelecer na sociedade brasileira.

O messianismo jurídico de André Mendonça — misturado a um fundamentalismo que confunde a Bíblia com o Código Penal quando lhe convém e ignora ambos quando o réu é um aliado — é o fiador desse desastroso retrocesso que se anuncia.

Denunciar esse arranjo é um dever de sobrevivência democrática. O Brasil não pode aceitar que o STF seja transformado em um comitê eleitoral disfarçado, nem que as aspirações de Flávio Bolsonaro sejam blindadas pelo silêncio obsequioso de quem jurou defender a República.  A democracia brasileira exige juízes, não apóstolos de um clã político.

Por Ricardo Nêggo Tom

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