Levantamento aponta aumento de cerca de 70% na frequência de mortes em intervenções policiais em relação a 2022, último ano da gestão anterior
A letalidade policial em São Paulo aumentou significativamente durante o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos). Entre janeiro de 2023 e agosto de 2026, as polícias Civil e Militar do estado provocaram, em média, uma morte a cada 12 horas e 13 minutos. O ritmo representa um crescimento de aproximadamente 70% na frequência das mortes em comparação com 2022, quando o intervalo médio entre os óbitos era de 20 horas e 48 minutos.
Os dados fazem parte de um levantamento publicado pela Folha de São Paulo que analisou registros oficiais de mortes decorrentes de intervenções policiais, incluindo ocorrências envolvendo agentes em serviço e de folga. O aumento coincide com mudanças na política de segurança pública paulista, especialmente em relação às medidas de controle do uso da força adotadas nas administrações anteriores.
A escalada da violência policial também aparece na evolução anual dos indicadores. Em 2023, primeiro ano do governo Tarcísio, uma pessoa morreu em decorrência de ação policial a cada 17 horas e 23 minutos. Em 2024, esse intervalo caiu para 10 horas e 48 minutos. No ano seguinte, chegou a 10 horas e 30 minutos, o menor intervalo anual registrado durante a atual administração.
Entre janeiro e agosto de 2026, já sob o comando do secretário estadual de Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, a frequência foi de uma morte a cada 12 horas e 9 minutos.
Entre janeiro e agosto de 2026, já sob o comando do secretário estadual de Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, a frequência foi de uma morte a cada 12 horas e 9 minutos.
Especialistas apontam abandono de políticas de controle da violência policial
Para o professor e especialista em segurança pública da PUC Minas Luís Flávio Sapori, os números evidenciam uma mudança na orientação das políticas de segurança pública do estado.
“A política de contenção da violência policial do governo Doria foi claramente abandonada no governo do Tarcísio”, afirmou à Folha.
Segundo Sapori, a administração anterior havia desenvolvido mecanismos destinados a reduzir abusos policiais sem comprometer o enfrentamento à criminalidade. A atual gestão, por outro lado, teria retomado uma estratégia baseada no confronto direto e na intensificação do uso da força.
O especialista também questiona a eficácia desse modelo no combate às organizações criminosas. Embora reconheça que políticas de enfrentamento ostensivo podem encontrar respaldo em parte da população, ele argumenta que a ampliação da violência policial não significa necessariamente uma redução do poder das facções.
“Esse modelo retroalimenta o crime organizado no Brasil”, declarou.
A avaliação é compartilhada por Carolina Ricardo, do Instituto Sou da Paz, que associa o crescimento da letalidade à perda de prioridade das medidas de gestão do uso da força implementadas entre 2020 e 2022, durante os governos João Doria e Rodrigo Garcia.
“Em nome de enfrentar o crime organizado, o uso da força passou a ser bastante tolerado”, afirmou.
A especialista destaca que a política anterior combinava câmeras corporais, equipamentos menos letais, acompanhamento psicológico dos policiais e mecanismos de responsabilização por abusos.
“Me parece que a Polícia Militar de São Paulo ainda não conseguiu recuperar esse programa de gestão de uso da força”, acrescentou.
Três mortes em outubro expõem atuação da Polícia Militar
Três episódios registrados na capital paulista em outubro de 2026 ilustram as preocupações com o uso da força pelas equipes policiais. As ocorrências, ainda sob investigação, não integram as estatísticas analisadas no levantamento, encerradas em agosto.
O primeiro caso ocorreu em 3 de outubro, na Vila Dionísia, zona norte de São Paulo. Antonio Nunes Batista, de 40 anos, morreu depois de uma abordagem policial. Um familiar informou que ele tinha esquizofrenia.
Segundo o boletim de ocorrência, Batista segurava uma faca e um garfo de churrasco e teria ameaçado pedestres. Os agentes utilizaram inicialmente uma arma de eletrochoque, mas posteriormente recorreram a armas de fogo.
Imagens registradas por testemunhas mostram policiais diante do homem e disparos que continuam mesmo depois de ele cair no asfalto. Três agentes efetuaram 24 tiros. Batista chegou a receber socorro, mas não resistiu.
Uma semana depois, na madrugada de 10 de outubro, Gustavo Munis de Santana, de 20 anos, foi morto durante uma intervenção policial em Moema, na zona sul.
A equipe havia sido acionada após uma denúncia de que uma pessoa em estado de alteração emocional ameaçava atirar contra si própria. Os policiais afirmaram na delegacia que confundiram o celular do jovem com uma arma.
Dos oito agentes envolvidos na ocorrência, quatro dispararam. Ao todo, foram efetuados 45 tiros, e o exame pericial identificou 27 ferimentos provocados por disparos no corpo de Gustavo, incluindo cabeça, rosto e tórax.
Familiares relataram que o jovem fazia uso de medicamentos para depressão. Imagens divulgadas posteriormente foram consideradas compatíveis com a versão apresentada pelos policiais sobre a confusão entre o aparelho celular e uma arma.
O terceiro episódio ocorreu em 15 de outubro, no Parque São Domingos, também na capital. Camila Pereira da Silva morreu após ser atingida por um tiro disparado por um policial militar.
Imagens de uma câmera de segurança mostram a mulher caminhando pela rua, aparentemente segurando uma faca, enquanto três agentes a acompanham e determinam que solte o objeto.
Um dos policiais efetua o disparo, e a morte é constatada no local. As gravações não mostram tentativa de utilização de arma de eletrochoque ou de outro instrumento menos letal antes do tiro.
Para Carolina Ricardo, situações envolvendo pessoas em sofrimento ou crise psiquiátrica exigem atenção especial aos protocolos de abordagem e à disponibilidade de equipamentos capazes de reduzir o risco de mortes.
Governo Tarcísio registrou aumento da letalidade sob comando de Derrite
A mudança na política de segurança pública paulista começou com a chegada de Tarcísio de Freitas ao Palácio dos Bandeirantes, em janeiro de 2023.
Crítico das câmeras corporais utilizadas por policiais militares, o governador escolheu para comandar a Secretaria da Segurança Pública o então deputado federal e ex-integrante da Rota Guilherme Derrite.
O oficial reformado da PM já havia relatado publicamente seu afastamento da Rota em razão do elevado número de mortes em confrontos atribuídas à sua atuação.
Derrite permaneceu à frente da secretaria entre janeiro de 2023 e o início de dezembro de 2025, período em que os indicadores de letalidade apresentaram forte crescimento.
Durante sua gestão, a frequência de mortes passou de uma a cada 17 horas e 23 minutos, em 2023, para uma a cada 10 horas e 48 minutos, em 2024. Considerando todo o ano de 2025, o intervalo médio caiu para 10 horas e 30 minutos.
Os números contrastam com os resultados obtidos em 2022, quando o governo paulista havia intensificado medidas de acompanhamento e controle das intervenções policiais.
Câmeras corporais contribuíram para redução das mortes em 2022
Uma das principais iniciativas da política anterior foi a expansão do programa Olho Vivo, em junho de 2021, que ampliou o uso de câmeras instaladas nos uniformes dos policiais militares.
Os equipamentos utilizados naquele período registravam continuamente o turno de trabalho dos agentes, sem depender de acionamento individual.
No mês em que a ampliação foi implementada, os 18 batalhões participantes, incluindo a Rota, não contabilizaram mortes em confrontos.
O programa integrava um conjunto de medidas adotadas a partir de 2020, que também incluía aquisição de armas menos letais, acompanhamento psicológico dos profissionais e análise das ocorrências com resultado morte.
Em setembro de 2022, a Polícia Militar paulista registrou 15 mortes, o menor número para aquele mês desde 1994.
Segundo os especialistas ouvidos pela Folha, a redução da prioridade dessas iniciativas ajuda a explicar a trajetória de crescimento da letalidade observada nos anos seguintes.
O levantamento também identificou que não foram encontrados registros de novas licitações para aquisição de armas de eletrochoque durante o período em que Derrite comandou a Segurança Pública.
A última licitação localizada havia sido iniciada em 2022, na administração anterior, e concluída em 2023.
Secretaria confirma números, mas não explica aumento das mortes
Procurada pela Folha de S.Paulo, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo confirmou os dados de letalidade apresentados no levantamento.
A pasta, entretanto, não apresentou uma explicação específica para o crescimento das mortes decorrentes de intervenções policiais durante o governo Tarcísio.
Em sua manifestação, a secretaria argumentou que a avaliação da política de segurança deve considerar também outros indicadores, como índices de criminalidade, produtividade das forças policiais e circunstâncias particulares de cada ocorrência.
Segundo o governo paulista, entre janeiro e agosto de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025, houve crescimento de 4,36% no número de prisões, de 7,86% nos flagrantes registrados e de 12,83% nos inquéritos instaurados.
A secretaria afirmou ainda que a Polícia Militar mantém protocolos de atuação que priorizam a comunicação verbal, a redução de situações de tensão e o emprego proporcional da força, com utilização excepcional de armas de fogo.
De acordo com a pasta, as mortes decorrentes de ações policiais são submetidas à investigação pelas instituições competentes, com participação das corregedorias e comunicação ao Ministério Público. Eventuais crimes ou desvios de conduta, acrescentou, estão sujeitos à responsabilização.
O governo também informou que disponibiliza atendimento psicológico e assistência social aos policiais e que planeja adquirir outras 6 mil armas de eletrochoque.
Comparação internacional mostra diferença nos indicadores
Como referência internacional, o levantamento da Folha apresentou dados oficiais do Departamento de Polícia de Nova York, nos Estados Unidos.
Em 2023 e 2024, a corporação registrou 21 mortes provocadas por disparos intencionais de policiais em situações de confronto, o equivalente a uma morte a cada 34,8 dias.
A comparação, entretanto, apresenta limitações importantes. Os dados de Nova York abrangem apenas uma cidade e uma categoria específica de mortes por arma de fogo, enquanto as estatísticas paulistas consideram todo o estado e um conjunto mais amplo de intervenções policiais.
Além disso, existem diferenças populacionais, territoriais e metodológicas que impedem estabelecer uma equivalência direta entre os indicadores.
No caso paulista, os números oficiais mostram que, mesmo após a mudança no comando da Secretaria da Segurança Pública no fim de 2025, a frequência de mortes em intervenções policiais permaneceu substancialmente acima do patamar registrado antes da posse de Tarcísio de Freitas.
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