Flávio Bolsonaro expõe o preço da submissão aos interesses de Trump
A diferença é que, na era digital, as sobretaxas não são anunciadas nos fóruns de Roma, mas no Salão Oval da Casa Branca e nas redes sociais. Ainda assim, a lógica permanece surpreendentemente semelhante. Na Antiguidade, muitos publicanos se enriqueciam cobrando além do devido, acumulando fortuna às custas da população submetida ao domínio romano. Entre o povo judeu, eles eram vistos como traidores por colaborar com o ocupante estrangeiro. Dois mil anos depois, a história parece reaparecer sob novas formas, novos personagens e os mesmos interesses de poder.
No caso brasileiro, o imperador estadunidense foi recentemente aconselhado por seus cobradores a impor não apenas uma tarifa adicional de 25% sobre diversos produtos brasileiros, mas também a enquadrar como organizações narcoterroristas os grupos criminosos conhecidos pelas siglas PCC e CV.
Sob o argumento do combate ao terrorismo, essa classificação amplia significativamente o arsenal de instrumentos de segurança nacional à disposição de Washington. Na prática, abre caminho para medidas que vão do cerco financeiro e de sanções econômicas a investigações conduzidas de forma autônoma por agências norte-americanas, como a CIA. Em cenários extremos, a doutrina de combate ao terrorismo adotada pelos Estados Unidos tem servido, historicamente, para justificar ações que ultrapassam fronteiras e colocam em xeque a soberania dos países envolvidos.
Em pleno ano eleitoral, Trump utiliza a doutrina de segurança nacional dos Estados Unidos para ampliar a pressão sobre o Brasil. Sob o rótulo do combate ao narcoterrorismo, abre-se espaço para uma escalada de medidas que podem ir de sanções econômicas e financeiras a operações de inteligência conduzidas unilateralmente por agências estadunidenses.
A experiência recente da Venezuela demonstra como esse tipo de classificação pode ser utilizado para legitimar ações cada vez mais agressivas contra governos democráticos considerados adversários de Washington. Acusações de narcoterrorismo, recompensas milionárias pela captura de chefes de Estado, apreensão de bens e operações extraterritoriais passaram a integrar o repertório da política externa dos EUA. O risco, para o Brasil, é que essa lógica seja transformada em instrumento de pressão política justamente em um momento decisivo para a democracia brasileira.
Na segunda-feira (1º), a repercussão das taxações e das investidas contra o PIX provocou uma reação imediata contra seus formuladores — Donald Trump, Marco Rubio e os representantes brasileiros alinhados a essa estratégia. Em Goiás, o presidente Lula atribuiu à família Bolsonaro a responsabilidade pela ofensiva e elevou o tom do debate ao afirmar:
“É isso que vocês têm que dizer em alto e bom som. São traidores. […]. O que merecem os traidores da pátria que vão pedir intervenção de um país no nosso povo?”.
Para desespero de Flávio Bolsonaro, alvo de críticas e escrachos nas redes sociais, o imperador dobrou a aposta. Nesta quarta-feira (3), Trump anunciou um novo tarifaço de 12,5% sobre produtos brasileiros, sob a alegação de combate ao trabalho forçado.
Temos ainda cinco meses até o primeiro turno das eleições. Até lá, a disputa não será apenas entre candidatos ou projetos de governo. Estará em jogo algo mais profundo: a capacidade dos brasileiros de defender sua soberania diante de pressões externas e de distinguir quem fala em nome dos interesses nacionais e quem prefere servir a poderes estrangeiros.
Na Roma antiga, os impérios contavam com exércitos para impor sua vontade e com publicanos para cobrar o preço da submissão. Dois mil anos depois, mudaram as ferramentas, os discursos e as tecnologias. O princípio, porém, continua o mesmo: nenhuma nação perde sua soberania sem que alguém, dentro de suas próprias fronteiras, esteja disposto a negociá-la.
Por Florestan Fernandes Jr
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