Courchevel se transformou no destino dos maiores magnatas do planeta. O ICL Notícias visitou o local e conta como funciona a estação de esqui que acolheu o senador e o banqueiro
Num dos hotéis mais luxuosos de Courchevel, os funcionários acostumados com clientes de luxo e algumas das maiores fortunas do mundo levaram um susto na última temporada de inverno. Um dos clientes queria agradar sua esposa e ordenou que o estabelecimento decorasse a suite onde ficariam com 1001 rosas vermelhas.
Em pleno inverno e no topo dos Alpes, o desafio não era apenas encontrar as flores. Mas transportá-las para uma estação de esqui. A operação exigiu uma organização impecável e 16 mil euros. No dia seguinte, o casal deixou o local, de volta para seu país de origem.
O caso, porém, é apenas mais uma anedota de uma estação de esqui que coleciona relatos extravagantes de algumas das maiores fortunas do mundo.
Próximo de 2 mil metros de altitude, o vilarejo de 2,5 mil habitantes passou a ser um dos principais destinos de milionários em busca de neve, cenários impressionantes, alguns dos melhores chefs do mundo e, acima de tudo, privacidade.
Entre eles, em janeiro de 2025, dois personagens chamaram a atenção da Polícia Federal; Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro. De acordo com o inquérito realizado no país, Courchevel, na França, recebeu os brasileiros em uma viagem que teria custado R$ 1,8 milhão.
O ICL Notícias, nesta semana, visitou a estação de esqui que, em pleno verão europeu, está passando por uma reforma completa. Mas os sinais de luxo e extravagância estão por todas as partes.
Acostumada a receber os donos do dinheiro do mundo, a cidade de Courchevel decidiu ter seu próprio aeroporto, nem que para isso a pista seja inclinada, como a de um esquiador. São poucos os pilotos que se atrevem a pousar numa das pistas mais curtas do mundo, no topo de uma montanha e em desnível. O resultado é um preço elevado para que um magnata chegue até ali com um jato privado. Ainda assim, os funcionários locais garantem que há “engarrafamento” de aviões no auge da temporada de inverno.
Escolher onde ficar é o próximo aspecto crucial da estação de esqui. Uma noite no prestigioso hotel Cheval Blanc pode custar 70 mil euros (R$ 430 mil). Em apenas 2,5 mil quilometro quadrados, são 33 hotéis com cinco estrelas e 5 palácios.
Aluguel de 100 mil euros por semana
Para quem prefira alugar um chalé inteiro, as opções são variadas. Numa das agências imobiliárias da cidade, o ICL Notícias foi informado de que os alugueis dessas casas podem custar 100 mil euros por semana, mais de meio milhão de reais. Isso sem contar os serviços.
Comprar um imóvel no vilarejo é para poucos. Para a reportagem, a imobiliária apresentou um dos chalés por 33,5 milhões de euros (quase R$ 200 milhões). Se alguns deles contam com elevadores internos, outros oferecem ainda motorista e até uma cabelereira à disposição da família que ocupar o local, em tempo integral.
No ano passado, uma dessas casas bateu um recorde. O milionário Stéphane Courbit pagou 135 milhões de euros (R$ 800 milhões) para ficar com o chalé para a família Ojjeh. Outro destaque é o chalé de Zinedine Zidane, também avaliado em alguns milhões de euros.
A experiência de esquiar é diferente na rede de 600 quilômetros de pistas. As tradicionais cenas de turistas carregando seus equipamentos são evitadas. Os esquis e botas são levados por funcionários dos hotéis até a borda da pista. Os monitores que guiam os estrangeiros pelas pistas ainda são verdadeiros mordomos, organizando almoços e tudo o que for solicitado.
Mas é depois que as pistas fecham que as festas realmente começam. Restaurantes e bares competem entre si para trazer o chef mais renomado daquele ano, enquanto adegas de dar inveja aos maiores colecionadores de vinho são construídas com garrafas raras e preços exorbitantes.
Vorcaro e Ciro sabem disso. No exclusivo La Soucoupe, no alto de uma das montanhas, o cartão de crédito do banqueiro indicava uma conta de R$ 63,6 mil no restaurante.
Sashimi por R$ 6 mil e dromedários vivos
No Le Tremplin, na rua das lojas de luxo da cidade, foram mais R$ 58,5 mil. No cardápio, o caviar sai por 1,1 mil euros e a pizza de trufa por 92 euros, mais de R$ 500. Há ainda a opção por sashimi de lagosta por 1,3 mil euros.
No cardápio de bebidas, a champagne pode sair por 45 mil euros (R$ 270 mil), enquanto as garrafas de vinho variam entre 9 mil, 15 mil ou mais de 30 mil euros cada. .
Para as festas de Ano Novo, alguns desses locais chegam a trazer animais vivos como dromedários para decorar os salões e alguns hotéis chegam a oferecer organizar até mesmo o aniversário dos animais de estimação dos hóspedes. Num deles, a festinha custa cerca de mil euros, com direito a Champagne. Claro, para os donos do cão ou do gato de estimação. Um valor extra é cobrado se a família optar por contratar um fotógrafo para a ocasião.
No centro nevrálgico da cidade, as lojas de marcas de luxo competem por quem ocupa o local mais estratégico. Rolex, Hermés, Dior, Moncler e tantas outras disputam a atenção dos turistas. Nas lojas, colares de até 2 milhões de euros são exibidos sem cerimônia.
Nos últimos anos, o local reuniu os mais diversos grupos de pessoas. A lista inclui Ivanka Trump, filha do presidente americano, o presidente do Azerbaijão, Ilham Aliev, além de Daniel Ek (Spotify) e Pavel Durov (Telegram), a família dona do aço mundial Mittal, donos do petróleo, os príncipes de Dubai, Arábia Saudita e Marrocos, empresários ucranianos, chineses e muitos outros.
Por anos, Courchevel foi ainda o destino preferido do rei Juan Carlos da Espanha, do então príncipe Charles, do Xá do Irã.
Suspeitas de lavagem de dinheiro pairam sobre as montanhas
O volume de dinheiro no local desperta ainda suspeitas. Ao longo dos últimos anos, diferentes ações da Justiça passaram a olhar para o que ocorre sob o manto da neve do local.
Em 2023, por exemplo, a procuradoria de Paris anunciou que estava abrindo um inquérito contra o bilionário francês Bernard Arnault e o oligarca russo Nikolai Sarkisov por suposta lavagem de dinheiro em um resort de luxo nos Alpes.
A investigação parisiense apurava transações envolvendo a compra de 14 propriedades em Courchevel durante um período de algumas semanas no outono de 2018, de acordo com o jornal Le Monde. As propriedades estariam localizadas em Jardin Alpin, um bairro particularmente exclusivo do resort de esqui, caracterizado por restaurantes caros com vista para as pistas.
Outro caso é o de uma fraude fiscal de US$ 230 milhões envolvendo autoridades russas e que tem sido alvo da Justiça francesa.
Dmitry Klyuev, um empresário russo, é acusado de lavagem de dinheiro agravada e de promover uma vasta conspiração que desviou centenas de milhões de dólares do Tesouro russo. O caso foi descoberto pelo advogado tributarista russo Sergei Magnitsky, que morreu em uma prisão de Moscou em 2009, após expor a corrupção. Foi justamente sua morte levou os EUA a aprovarem a Lei Magnitsky, a lei que permite o governo americano impor proibições de visto e congelamento de bens a violadores de direitos humanos e funcionários corruptos em todo o mundo.
Parte dessa lavagem de dinheiro, segundo o inquérito, teria ocorrido em uma joalheria de luxo em Courchevel e em um pacote turístico.
1 bilhão de euros por temporada
No teleférico que leva os turistas ao topo da montanha, um cartaz parece simbólico. A estação é apresentada como a capital mundial do esqui. E do amor, óbvio.
A cada dia, 10 milhões de euros mudam de mãos no auge do inverno em Courchevel. Numa temporada, a estação movimenta 1 bilhão de euros. Haja amor.
Por Jamil Chade
Veja as imagens do local no vídeo abaixo
(Edição de imagens: Cesinha Degani)
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