Documentos do Digimais mostram que Prefeitura de São Paulo e Governo do Estado respondiam pela maior parte da carteira
A Prefeitura de São Paulo e o Governo do Estado concentravam, juntos, 85% da carteira de convênios do Banco Digimais, instituição financeira ligada ao bispo Edir Macedo. Documentos do próprio banco obtidos pela reportagem mostram que a capital paulista respondia sozinha por 60% da operação de consignados da instituição, enquanto outros 25% estavam vinculados ao funcionalismo estadual.
Os dados revelam que São Paulo se tornou o principal eixo da estratégia de expansão do Digimais justamente no período em que a instituição acumulava sinais de deterioração financeira, rebaixamentos de classificação de risco e questionamentos posteriores do Banco Central e da Polícia Federal.
O material institucional informa que o banco mantinha 69 convênios públicos e pretendia ultrapassar a marca de 100 acordos ainda em 2025. A própria apresentação afirma que o Digimais iniciou naquele ano a originação de produtos de crédito consignado voltados ao funcionalismo público e à iniciativa privada.
Na prática, os documentos indicam que a principal aposta do banco para o crescimento do consignado estava concentrada nos servidores paulistas.

São Paulo virou o centro da operação
De acordo com a apresentação, a maior parte dos acordos firmados pela instituição estava vinculada à Prefeitura de São Paulo, responsável por 60% dos convênios, seguida pelo Governo do Estado, com 25%. Os demais contratos somavam apenas 5% da carteira.
Esse perfil acompanha o avanço do banco em diferentes regiões do estado. A apuração identificou que a instituição obteve autorizações, credenciamentos ou firmou convênios em ao menos oito municípios paulistas.
- São Paulo: a prefeitura mantém convênio para operações de crédito consignado junto ao funcionalismo municipal. A administração é comandada por Ricardo Nunes (MDB), aliado político do governador Tarcísio de Freitas.
- São Sebastião: o instituto de previdência municipal assinou contrato com o Digimais em novembro de 2025. O município é governado por Reinaldinho Moreira (Republicanos), que recebeu apoio de Tarcísio durante a campanha eleitoral municipal. O governador participou de eventos da candidatura e classificou a eleição municipal como uma disputa estratégica para a região.
- Ubatuba: a prefeitura autorizou a atuação do banco nas operações de consignação em folha. A cidade é administrada por Flávia Pascoal (PL), aliada do governador e mantém proximidade política participando de agendas institucionais e eventos públicos ao lado de Tarcísio.
- Praia Grande: a habilitação ocorreu por meio de chamamento público destinado ao credenciamento de instituições financeiras. O prefeito Alberto Mourão (MDB) integra o campo político que hoje compõe a base de apoio do governo estadual.
- Pindamonhangaba: o município homologou o credenciamento do banco em 2025. O prefeito Ricardo Piorino é filiado ao PL, partido que se tornou a principal base política de Tarcísio no estado.
- Tupã: a cidade aprovou legislação autorizando convênio para empréstimos consignados, cartão consignado e cartão benefício. O prefeito Renan Pontelli é filiado ao PSDB e mantém relação próxima com o governo estadual tendo participado de agendas e eventos ao lado do governador.
- Tambaú: a prefeitura homologou a contratação da instituição para operações destinadas aos servidores. O município é administrado por Leonardo Spiga Real, do Republicanos, partido do governador.
- Guarulhos: o município mantém convênio para operações de crédito consignado junto ao funcionalismo. O prefeito Lucas Sanches é do PL e recebeu apoio público de Tarcísio durante a campanha.
O levantamento mostra que a expansão do Digimais ocorreu majoritariamente em administrações comandadas por prefeitos do PL, Republicanos, MDB ou partidos que integram a base política do governador paulista.
A reportagem não identificou documentos que indiquem participação direta do Palácio dos Bandeirantes nos credenciamentos municipais. As autorizações foram concedidas por cada administração local, por meio de seus próprios procedimentos administrativos.
Mudança de estratégia
A expansão do consignado coincidiu com uma profunda mudança no modelo de negócios do Digimais.
Nas demonstrações financeiras de 2025, a instituição afirma ter revisado seu planejamento estratégico para os cinco anos seguintes e passado a priorizar novas linhas de crédito, entre elas o consignado. O banco informava que buscava reduzir a dependência do financiamento de veículos e diversificar suas receitas.
A reportagem teve acesso a um relatório da Moody’s Local Brasil, agência de classificação de risco que avalia a capacidade de pagamento de empresas e instituições financeiras, que identificou essa transformação.
Em abril de 2026, a agência rebaixou os ratings do Digimais e atribuiu perspectiva negativa ao banco. Segundo o documento, o aumento do risco dos ativos e a elevada exposição a fundos de investimento alternativos elevaram a vulnerabilidade financeira da instituição.
A agência apontou que os investimentos em fundos alternativos alcançaram R$ 4,2 bilhões no fim de 2025, equivalentes a 42,6% dos ativos totais e a 5,4 vezes o patrimônio líquido do banco.
O relatório também registrou que o índice de Capital Nível I encerrou 2025 em 8%, abaixo do mínimo regulatório de 8,5%, além da necessidade de sucessivos aportes dos controladores para recompor os índices de capital exigidos pelo Banco Central.
Outro ponto de atenção foi a deterioração da qualidade dos ativos. Segundo a Moody’s, os chamados ativos problemáticos chegaram a 16,6% da carteira da instituição em dezembro de 2025. A agência também menciona ressalvas da auditoria externa sobre R$ 3,1 bilhões em fundos de investimento mantidos pelo banco devido à limitação de informações disponíveis para avaliação desses ativos.
O próprio relatório da agência destaca que o Digimais passou a ampliar sua atuação no crédito consignado por meio de convênios com o setor público, justamente no período em que esses riscos se tornavam mais evidentes.
Banco Central e PF
As preocupações do mercado foram posteriormente acompanhadas pelos órgãos de supervisão.
Representação apresentada pela Polícia Federal à Justiça Federal sustenta que o Banco Central identificou indícios de inserção de elementos falsos em demonstrativos contábeis e operações vedadas entre o banco e seus controladores.
A investigação menciona suspeitas de gestão fraudulenta ou temerária e questiona operações envolvendo fundos de investimento ligados à instituição.
Segundo a PF, ativos ligados ao Hermon FIDC-NP foram registrados em aproximadamente R$ 741 milhões, embora o custo de aquisição dos papéis fosse estimado em cerca de R$ 71 milhões.
O Banco Central determinou a correção dos registros, mas a investigação sustenta que operações posteriores com a controladora permitiram a manutenção dos valores nos demonstrativos do banco.
A Polícia Federal pediu o bloqueio de aproximadamente R$ 670 milhões, além de medidas de busca e apreensão e quebra de sigilos.
A questão que permanece
Os documentos do próprio Digimais indicam que a expansão do banco no crédito consignado dependia fortemente do funcionalismo paulista.
Ao mesmo tempo, relatórios de mercado apontavam fragilidades financeiras, a Moody’s rebaixava a instituição, o Banco Central questionava operações e a Polícia Federal passava a investigar suspeitas de irregularidades.
Nesse contexto, a principal questão passa a ser quais critérios de análise financeira e de risco foram adotados pela Prefeitura de São Paulo, pelo Governo do Estado e pelas administrações municipais paulistas antes de permitir que a instituição ampliasse sua atuação sobre as folhas de pagamento de milhares de servidores públicos.
A reportagem encaminhou questionamentos ao Governo do Estado de São Paulo e à Prefeitura de São Paulo sobre os critérios adotados para o credenciamento do Banco Digimais, o volume de operações vinculadas aos servidores e a manutenção dos convênios após os apontamentos do Banco Central e a investigação da Polícia Federal.
Também questionamos se as administrações tinham conhecimento de rebaixamentos de classificação de risco, alertas do mercado ou questionamentos regulatórios envolvendo a instituição. Até o momento não tivemos retorno, as respostas serão incluídas ao texto caso sejam enviadas.
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