First and foremost, esse texto foi escrito durante a partida entre Brasil e Escócia.
Durante semanas, a Copa do Mundo foi vendida como o palco da redenção de Neymar. A expectativa pela volta do camisa 10 dominou entrevistas, programas esportivos, debates e, principalmente, redes sociais. Parecia que a Seleção Brasileira só voltaria a existir plenamente quando o menino Ney estivesse novamente em campo.
Enquanto toda a atenção estava voltada para o atleta de home office, foi Vinicius Júnior quem entrou em campo para assumir, definitivamente, o papel principal.
Contra a Escócia, ele marcou dois gols, mas sua atuação foi muito maior que isso. Vini participou das jogadas, desequilibrou pelos lados, criou espaços, acelerou o ataque e mostrou, mais uma vez, que hoje é o cara que faz o Brasil acontecer.
Ele é o primeiro jogador do Brasil desde 2002 a marcar nos três jogos da primeira fase.
Existe uma cobrança antiga sobre Vinicius Júnior. Durante anos, ouviu-se que o futebol exuberante apresentado no Real Madrid desaparecia quando ele colocava a camisa amarela. Era uma crítica recorrente e fazia certo sentido, mesmo depois de conquistar praticamente tudo na Europa e ser eleito o melhor jogador do mundo.
Mas veja o que aconteceu na Copa: contra o Marrocos, salvou a equipe da derrota com um gol decisivo. Diante do Haiti, marcou, deu assistência para Matheus Cunha e ainda iniciou a jogada do outro gol. Agora, contra a Escócia, voltou a ser o principal nome da equipe.
Quando se olha o retrospecto mais amplo, incluindo a Copa de 2022, o impacto é maior. Com Vinicius em campo, o Brasil marcou 13 gols em Copas do Mundo. Nove deles tiveram participação direta do atacante, seja marcando, dando assistência, iniciando a jogada ou provocando rebotes que terminaram em gol.
Não é coincidência. É protagonismo.
Os números já colocam Vinicius ao lado de gigantes da história da Seleção. Em participações em gols em Copas do Mundo, ele igualou Romário e Ronaldinho Gaúcho. A diferença é que, aos 26 anos, ainda tem muito pela frente e, toc-toc-toc, outras Copas para disputar.
Enquanto isso, Neymar volta a ocupar um espaço que talvez já não seja mais seu. Protagonismo não é hereditário. Ele pertence a quem entrega. Neymar é vendedor de si mesmo.
Talvez o maior desafio de Carlo Ancelotti nem seja encaixar Neymar novamente entre os titulares. O verdadeiro desafio será resistir à tentação de reorganizar uma equipe em torno de um marqueteiro que não gosta de futebol.
Vinicius não precisa que o time jogue para ele. O time cresce porque ele joga e Neymar não. Essa talvez seja a melhor notícia da Seleção Brasileira nesta Copa.
Por Kiko Nogueira
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