Foi reaberto nesta terça-feira (02) em Budapeste na Hungria o Roma Rights Summer School. Dentre os objetivos do centro está manter viva a memória do holocausto cigano levado a cabo pelo regime nazista alemão. Um holocausto forçado ao esquecimento histórico.
Sob o comando de Hitler, mais de 1,5 milhão de judeus foram mortos. A triste memória do regime nazista foca no holocausto judeu e a história contribui para o esquecimento do sofrimento do povo cigano. A própria foto icônica de uma jovem no campo de concentração que por décadas foi apresentada como sendo uma judia, na verdade era uma jovem cigana. Só recentemente foi descoberto que o rosto que ilustrou inúmeros artigos era de Anna Maria “Settela” Steinbach, uma jovem cigana, ou Romani como preferem ser designados.
Um pouco de história
Desde sua chegada à Europa, o povo romani (cigano) foi recebido com hostilidade. De proibição da cultura e deportação à caça e até escravidão, várias foram as formas de perseguição empregadas contra esse povo. O holocausto foi uma das mais brutais.
Em 1933, quando Hitler assumiu o cargo de chanceler da Alemanha e o partido nazista tomou a frente do país, a ideia de que os seres humanos estavam divididos em “raças” e algumas delas eram inerentemente superiores a outras já estava bem difundida entre cientistas europeus.
Alguns cientistas já haviam dito inclusive que ciganos eram uma “praga”, que haviam “introduzido sangue estrangeiro na Europa” e contra a qual a sociedade deveria se “defender”.
Em julho de 1933, o gabinete de Hitler aprovou uma lei contra a propagação de “Lebensunwertesleben” (vidas indignas de viverem), que incluía uma ordem de esterilização de alguns grupos de pessoas, incluindo ciganos.
A partir do ano seguinte, ciganos começaram a ser selecionados para serem enviados a campos para castração e esterilização e em 1935 se tornam alvos das “Leis de Nuremberg para a Proteção do Sangue e da Honra”, que proíbem relações inter-raciais entre pessoas arianas e não-arianas.
Apesar de planificada e metódica, a perseguição aos ciganos teve, contudo, diferentes características, dependendo da região onde eles residiam e da relação entre o governo local e a autoridade nazista. Em geral, a violência era mais direta nos territórios ocupados pelos nazistas. Nos países que contavam com um governo pró-nazifascista, as ações eram mais difusas, porém não menos hediondas.
Na Polônia, por exemplo, foram criadas milícias que caçavam os ciganos e os assassinavam diretamente no local, logo que os encontravam. Atualmente, o Museu Etnográfico de Tarnów/Polônia organiza viagens aos locais onde ciganos foram mortos. Leia Mais
As condições nos campos de concentração eram desumanas. Ao chegarem, ciganos eram tatuados com a letra Z (de Zigeuner) e um número, e recebiam um uniforme com um triângulo invertido marrom ou preto.
Durante todo o período do Holocausto, várias pessoas morreram devido às más condições nos campos e os sobreviventes se viam obrigados a comerem as roupas ou até os corpos dos mortos, para continuarem vivos.
Em 1937 é feita a primeira menção à “Solução Final para a Questão Cigana” (der Endlösung der Zigeunerfrage), que se refere a um plano de exterminar todos os ciganos da Europa. O único outro grupo também marcado por uma solução final foram os judeus (der Endlösung der Judenfrage).
A primeira ação de genocídio em massa do holocausto veio em 1940, quando 250 crianças ciganas de Brno foram usadas em experimentos no campo de concentração de Buchenwald para testar o gás Zyklon B, que mais tarde seria usado nos assassinatos em massa de Auschwitz-Birkenau.
No ano seguinte, começa a execução do plano de Solução Final e pessoas ciganas são assassinadas em massa pelos “Einsatzgruppen” (grupos operativos) da SS (a milícia nazista). Esses grupos tinham como tarefa principal matar ciganos, judeus e comissários políticos.
Em 1942, por um decreto de Himmler, é criado o “Zigeunerlager” (campo cigano), que é um espaço para ciganos dentro do campo de concentração e extermínio de Auschwitz-Birkenau II. No ano seguinte, milhares de ciganos são enviados para o Zigeunerlager.
Esse é provavelmente um dos piores campos de extermínio. Era lá que trabalhava Joseph Mengele, um médico nazista que conduziu diversos experimentos horríveis e tinha um fascínio especial por crianças ciganas.
Durante o Samudaripen (o Holocausto Cigano), ciganos foram mandados a vários campos de concentração e de extermínio, mas o pior de todos, provavelmente, foi Auschwitz-Birkenau, onde foi criado o Zigeunerlager (Campo Cigano).
Ao final de 1943, pelo menos 23 000 ciganos haviam sido presos no Zigeunerlager. Alguns destes foram mandados às câmaras de gás, alguns foram transferidos para outros campos, muitos faleceram no campo e muitas crianças foram usadas em experimentos nazistas.
Em maio de 1944, havia cerca de 6 mil ciganos no Zigeunerlager quando as autoridades nazistas decidiram assassinar todos que estavam ali, mas, felizmente, os ciganos descobriram sobre o plano.
Assim, no dia 16 de maio deste ano, eles montaram barricadas, fecharam os barracões e se armaram com as ferramentas que podiam para se defender. Quando os guardas chegaram, foram pegos de surpresa e não conseguiram levar os ciganos às câmaras. Por isso o dia 16 de maio, é conhecido como o Dia da Resistência Romaní (Cigana). Os nazistas tiveram que adiar seus planos e passaram a deportar os ciganos para outros campos. Infelizmente, em agosto do mesmo ano, os que ali restaram foram assassinados e, quando o campo de Auschwitz finalmente foi liberado, o Zigeunerlager já estava vazio.
Vale ressaltar que este não é o único ato de resistência romaní na história. Ciganos resistem e resistiram de todas as formas possíveis à escravidão, ao nazismo e a todas as outras formas de violência que passamos até os dias de hoje.
Com informações da ativista romani Avdzin Mel
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