Ao meio-dia de uma quinta-feira, a plataforma 74 do movimentado Terminal Rodoviário Novo Rio é ocupada por um ônibus da viação acreana, Trans Acreana. Entre tantos veículos que passam pelo local, diariamente, este se diferencia dos demais pelo trajeto que realiza a cada 15 dias. O destino é Lima, na costa do Oceano Pacífico. Da cidade do Rio de Janeiro (RJ) até a capital peruana são mais de 6.200 quilômetros, o que faz esta rota ser reconhecida como a linha de ônibus mais longa do mundo.
O ônibus atravessa seis estados brasileiros: Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rondônia e Acre, além dos departamentos peruanos de Madre de Dios, Cusco, Apurímac, Ayacucho, Ica e Lima.
Maior linha de ônibus do mundo conta com o apoio do governo do Acre
“A presença de uma empresa acreana na operação da maior linha terrestre do mundo é de grande relevância para o nosso estado. Esta rota coloca o Acre em posição estratégica, nessa ligação do Brasil com o Peru, traz benefícios para a nossa região, como a oferta de transporte para a população, e contribui com a geração de emprego e renda”, completa o secretário de Turismo do Acre, Marcelo Messias
A longa jornada de seis dias
Em território peruano, a rodovia ganha novos contornos a partir da Serra Santa Rosa, 370 quilômetros após a fronteira. As grandes linhas retas das estradas do Brasil dão lugar às curvas extremamente fechadas e sinuosas. O horizonte é tomado por altos morros.
A selva peruana mostra toda a sua exuberância ao longo do caminho. Rios com forte correnteza margeiam a estrada, assim como é possível observar várias cachoeiras. A zona de transição entre a zona de floresta e a vegetação característica do altiplano chama a atenção. O cenário, semelhante a um deserto e com muitas rochas.
É preciso um motor potente e atenção redobrada dos motoristas para subir a Cordilheira dos Andes, a maior cadeia de montanhas do mundo. Na região do pico Abra Pirhuaiany, ponto mais alto da rodovia Interoceânica Sul, a altitude de 4.725 metros sobre o nível do mar é um desafio constante.
Em grandes altitudes, o oxigênio disponível na atmosfera é menor, como consequência o ar rarefeito causa uma série de desconfortos ao organismo humano. Dor de cabeça, sensação de desmaio, perda de apetite, náusea, vômito e sonolência estão entre os principais sintomas do soroche, o mal da montanha.

Outra mudança significativa é a alimentação. As opções de comida no território peruano são bem diferentes em relação ao Brasil. No café da manhã, por exemplo, é bastante comum o consumo de caldo de galinha. O chá de coca e café bem concentrado são outras novidades, assim como o queijo frito acompanhado de batatas cozidas, tomate e pepino no desjejum.
Após quatro dias de viagem e mais de 5 mil quilômetros percorridos, o ônibus chega a Cusco. A cidade, mundialmente conhecida pela cultura e ancestralidade do povo Inca, está entre as mais visitadas da América do Sul. O local é o principal destino dos passageiros, que são atraídos pelo desejo de conhecer as ruínas de Machu Picchu, o Vale Sagrado e a Praça de Armas, entre outros pontos turísticos, além de apreciar a famosa culinária peruana.
No caminho até Lima, o veículo faz uma rápida parada nas enigmáticas Linhas de Nazca. A partir de um mirante de 12 metros de altura, localizado bem às margens da rodovia, é possível observar algumas figuras, entre elas, as que representam um lagarto, uma mão e uma árvore. Desenhadas no meio de um deserto, há mais de dois mil anos, as gravuras ainda são um grande mistério para a humanidade. Existem várias teorias sobre o assunto, como a utilização para rituais religiosos, calendário agrícola e até mesmo a possibilidade de que seres extraterrestres foram os responsáveis pela autoria dos geoglifos peruanos.

Nos últimos 450 quilômetros do percurso, a estrada cheia de curvas, por conta das cordilheiras, dá espaço a longas retas em meio ao deserto e a costa do Pacífico.
Roteiro
Dia 1
Saída do Terminal Rodoviário Novo Rio, no Rio de Janeiro (RJ), às 13h. Ônibus segue em direção à capital paulista pela rodovia Presidente Dutra.
Dia 2
Da capital paulista, o ônibus percorre cerca de 600 quilômetros durante a madrugada e início da manhã até Presidente Venceslau (SP).
Dia 3
No início da madrugada, o ônibus chega ao Mato Grosso.
Dia 4
O ônibus chega em Porto Velho (RO). Após percorrer seis estados brasileiros e cerca de 4.400 quilômetros, os passageiros chegam a Assis Brasil (AC), na fronteira com o Peru.
Dia 5
O ônibus chega em Cusco durante a tarde.
Dia 6
No último dia, o ônibus passa pelo trecho mais perigoso de toda a viagem. A “estrada da morte”, entre Cusco e Nazca, é conhecida por suas curvas extremamente fechadas, subidas e descidas em grandes altitudes, que beiram muitos precipícios. Às 15h30, após percorrer mais de 6.200 quilômetros, o ônibus chega ao Grande Terminal Atocongo, em Lima, capital do Peru.

Custo e informações para fazer a viagem
A passagem de ida do Rio de Janeiro a Lima (ou vice-versa) custa R$ 1.300. As viagens são realizadas a cada quinze dias e as saídas são sempre às quintas-feiras. O ônibus faz ainda paradas para embarques e desembarques nas rodoviárias de São Paulo (SP), Campo Grande (MS), Cuiabá (MT), Porto Velho (RO), Rio Branco (AC) e nas cidades peruanas de Porto Maldonado, Cusco e Abancay.
Para ingressar no Peru, cidadãos brasileiros precisam apresentar passaporte ou documento de identidade (RG), que deve estar em boas condições e com menos de dez anos de emissão. Turistas podem permanecer no país vizinho por até 90 dias, sem a necessidade de um visto. Todos os trâmites migratórios são realizados nas cidades fronteiriças de Assis Brasil e Iñapari, oportunidade em que os viajantes que optam levar dinheiro em espécie podem fazer a troca do real brasileiro pelo novo sol peruano.
Wesley Moraes
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