Alemanha: centenas de milhares voltam às ruas contra a extrema direita

Alemanha: centenas de milhares voltam às ruas contra a extrema direita

Eram esperadas 20 mil pessoas, compareceram 250 mil para protestar em Berlim, contra o AFD, partido de inspirações neonazistas

Os alemães voltaram a  fazer  manifestações gigantescas contra a ascensão do nazi-fascismo no país, uma  semana após atos massivos. Milhares de pessoas retornaram às ruas neste domingo (2) para protestar contra a quebra do “Brandmauer”, o “muro de fogo” ou “cordão sanitário”, acordo que perdura desde o fim da Segunda Guerra Mundial que impedia qualquer articulação entre partidos tradicionais com legendas de extrema direita.

O ato foi motivado pelo recente alinhamento do partido conservador CDU, favorito nas pesquisas para as eleições gerais de 23 de fevereiro, com a legenda ultranacionalista AfD,  que possui ligações comprovadas com grupos neonazistas.  As manifestações ocorreram também em diversas outras cidades da Alemanha.

Sob o lema “Aufstand der Anständigen – Wir sind die Brandmauer!” (“Levante dos Decentes – Nós somos o muro de fogo!”), os manifestantes percorreram as ruas do centro de Berlim, indo do Reichstag, sede do Parlamento alemão, até a sede nacional do CDU, na Konrad-Adenauer-Haus.

São cinco minutos para 1933

O protesto se intensificou ao chegar à sede do CDU. Manifestantes iluminaram a região com lanternas de celulares enquanto vaiavam Friedrich Merz, líder do partido e candidato conservador ao cargo de chanceler. Gritos de “Wir sind die Brandmauer!” se espalharam pela multidão, reforçando a pressão para que Merz rejeite qualquer cooperação com a AfD. Placas exibiam mensagens como “São cinco minutos para 1933”, alertando para o risco de retrocesso histórico em relação à ascensão do nazismo.

A indignação popular tem como estopim a decisão recente de Merz e do CDU de votarem no Bundestag, ao lado do AfD em uma proposta para endurecer as regras de imigração. A decisão representa a quebra do chamado Brandmauer – o “cordão sanitário” que impedia alianças entre partidos democráticos e a legenda extremista. O episódio acendeu o alarme entre lideranças políticas e organizações da sociedade civil, que veem no movimento um sinal perigoso para uma futura coalizão de governo com o AfD.

A moção, que não tem força de lei, mas serve como diretriz para futuras decisões governamentais, propõe a rejeição sistemática de imigrantes sem documentos nas fronteiras alemãs e reforça políticas de deportação. O projeto foi apresentado pelo bloco conservador CDU/CSU e obteve 348 votos a favor, 345 contra e 10 abstenções, sendo que o apoio do AfD foi decisivo.

O jornalista Michel Friedman, que renunciou à sua filiação ao CDU em protesto, criticou duramente a legenda, chamando a AfD de “partido do ódio” e afirmando que a parceria foi um “erro imperdoável”. O líder religioso Heinrich Bedford-Strohm também condenou o gesto, dizendo que “nunca mais deve haver colaboração com aqueles que pisoteiam a dignidade humana”.

A manifestação em Berlim foi organizada por um amplo leque de grupos, incluindo o movimento ambiental Fridays for Future, grupos ativistas como o “Campact” e o “Pais contra a direita”, sindicatos, partidos de esquerda e organizações de direitos humanos.

Outras cidades alemãs também registraram grandes protestos. Em Hamburgo, Cottbus, Bremen e Jena, dezenas de milhares de pessoas tomaram as ruas no sábado (1). Em Potsdam, cerca de 2.500 manifestantes participaram de um ato no centro da cidade. No total, foram centenas de milhares de pessoas mobilizadas em todo o país contra o crescimento da extrema direita e a potencial normalização do AfD na política alemã.

A presença massiva de manifestantes pelo segundo fim de semana consecutivo é vista como um recado claro da população alemã: não há espaço para conivência com a extrema direita. Com a aproximação das eleições, a pressão sobre o CDU e seu líder Friedrich Merz tende a aumentar, enquanto os protestos devem continuar em todo o país. As informações são da Revista Fórum.

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