MST trabalhos em mais de 180 mil hectares na região de Vergareña com equipamentos enviados pelo governo Maduro
A terra não foi doada pelo governo venezuelano, o movimento será responsável somente pela administração e apoio logístico ao programa Pátria Grande do Sul que tem como objetivo produzir uma ampla variedade de alimentos em quantidade suficiente para abastecer uma parte considerável do país.
Além de alimento saudável e garantir o acesso da população a produtos de qualidade, uma das intenções do governo Maduro é aumentar a oferta para abaixar os preços para os venezuelanos. A ajuda do MST foi solicitada pelo presidente Nicolás Maduro.
Depois de uma análise minuciosa do território feita pelo Ministério da Agricultura, o MST identificou onde ficarão os lotes para a produção de cada alimento, definiu os espaços em que as famílias vão morar e já começou a preparar a a instalação das pessoas.
“Aqui temos uma coisa que no Brasil levaríamos 30, 40 anos para ter. A gente já tem a terra. A gente já conquistou o território e temos todas as ferramentas necessárias para se criar o acampamento disponibilizado pelo próprio governo. E no Brasil não. No Brasil a gente ainda teria que entender o território, estudar e mesmo assim ainda teríamos conflitos com os próprios latifundiários e ia levar um processo muito longo de luta”, afirmou ao Brasil de Fato.
A ideia é ter 300 famílias no acampamento para trabalhar na produção. Para a chegada dessas pessoas, é preciso montar uma estrutura que tenha banheiro, cozinha, quartos e espaços de lazer, como campo de futebol. Além disso, um dos pilares do MST é a formação. Por isso, também será montada uma escola de formação política e de agroecologia. Essa unidade também terá como foco a formação de camponeses que saibam produzir sementes para o plantio.
300 famílias estarão trabalhando na Vergareña quando o projeto estiver funcionando. Todo esse contingente de pessoas será mobilizado principalmente pela União Comunera e ficará no acampamento montado pelo MST em conjunto com o Ministério da Agricultura.
Agrofloresta na base
Os principais conceitos usados pelo MST para a produção são os da agroecologia, forma de produção baseada na preservação o solo e o bioma para garantir alimentos saudáveis suficientes para a subsistência das comunidades locais e para o abastecimento do mercado, sem o uso de agrotóxicos.
Para a coordenadora da brigada do MST na Venezuela, Rosana Fernandes, essa forma de produzir alimentos também muda as próprias relações sociais. Além de uma questão técnica, ela destaca que o uso da agroecologia também representa um posicionamento político.
“Esse modelo enfrenta o capital, as crises climáticas e contribui para soberania alimentar do país. E o MST vendo a agroecologia e a agrofloresta como uma saída para as crises que a gente enfrenta se desafia também a construir junto com o povo venezuelano, partindo também da solidariedade entre os povos e das lutas de classe, da soberania popular. Não só pela produção de alimentos saudáveis, mas também das relações humanas saudáveis. Na construção da emancipação humana partindo desse contexto”, afirmou.
Um dos pontos fundamentais para o MST dentro da mudança da perspectiva de produção que existe no território é mudar a forma de limpar o terreno. Hoje, as comunidades locais usam o fogo entre as safras para poder recomeçar um novo plantio. De acordo com os agrofloresteiros do MST, apesar de aumentar a produtividade em um primeiro momento, a repetição dessa prática prejudica o solo e reduz a capacidade do plantio a cada nova colheita.
Para Altamir Bastos, há também o componente das condições que estão colocadas para a população. Segundo ele, uma mudança na forma de produção exige equipamentos que otimizem o trabalho dos trabalhadores, algo caro e de difícil acesso para quem está no interior.
“O que a gente observa é que se utiliza o fogo por falta de condições de acesso a equipamentos adequados para produzir. Como não têm condições econômicas de comprar, mesmo de forma coletiva um trator, ou pagar as horas para alguém vir preparar terra, as pessoas utilizam do fogo para poder plantar. É uma uma limpeza do território para poder semear e ainda tem muito o uso do veneno também”, disse.
O governo venezuelano comprou máquinas agrícolas chinesas para auxiliar nessa produção. Roçadeiras elétricas, tratores, motocultivadores e adubadoras já estão sendo comprados e levados à Vergareña.
Organização e produção
A divisão de tarefas do projeto foi definida em grupos de trabalho. Cada um deles será responsável por um setor diferente de acordo com as necessidades do acampamento: saúde, segurança, transporte e limpeza são alguns deles.
Outro ponto fundamental para a organização é a definição dos espaços para a produção de cada alimento. Uma equipe é responsável por escolher algumas áreas chamadas de “vitrines”, para começar um teste da produção em uma escala menor antes de ampliar. O objetivo é testar o solo e a forma como a comunidade lida com essa produção, além de começar a colocar os produtos no mercado, para servir de demonstração.
Tudo isso será coordenado por um núcleo de base que será composto por representantes do MST, da União Comunera e do governo. Haverá uma coordenação executiva, com integrantes desses 3 grupos, e uma coordenação geral, com apenas o coletivo político e técnico do MST
Os principais alimentos produzidos na região são inhame, mamão, mandioca, banana, abóbora e cana de açúcar. Desses, o produto que tem maior escala de produção é a banana, com 1.125 toneladas por ano. Eles também têm uma produção animal, com 42 toneladas por ano de queijo e 42 de carne. A meta é ampliar essa produção não só em quantidade, mas também em variedade.
Para o ciclo de inverno de 2025, a meta é passar para 30 mil toneladas de milho, 1.500 toneladas de feijão e 1.000 de frango. Tudo isso a partir de uma produção agroflorestal.
Além de uma produção suficiente, governo e MST definiram outros objetivos para a o projeto. A contribuição para a implementação de um plano produtivo para a safra de 2025, ampliar o acampamento de forma gradual com novas famílias e contribuir com a definição de formas de organização de comercialização coletiva, a partir de políticas públicas.
Entre as linhas de ação, também estão a criação de uma linha de crédito e um fundo de contratação pública para os produtos, além da construção de agroindústrias locais com processos de cooperação, tendo como perspectiva a organização coletiva do trabalho e a autogestão das famílias. A realização de um censo agrícola também está no horizonte do projeto Pátria Grande do Sul.
O governo espera ter como impacto direto o desenvolvimento econômico da região, uma sustentabilidade ambiental, a melhora na qualidade de vida das pessoas e o fortalecimento da identidade regional. Tudo isso envolvendo também uma educação técnica e formação política que serão levadas a cabo pela escola que será montada pelo MST na região.
Parceria União Comunera
Apesar de encabeçar o projeto, o MST vai passar sua administração será transferida longo do tempo para a União Comunera. O movimento brasileiro parte do pressuposto que domina a técnica e o conhecimento da agroecologia, mas que a União Comunera tem a capacidade de organizar as famílias venezuelanas e sistematizar a produção.
“Não queremos ser protagonistas dessa história. O protagonismo dessa história cabe à União Comunera, porque a União Comunera é quem deve estar à frente, organizando as bases, as comunas. E, claro, fortalecendo ainda mais o movimento. Criando, cativando e construindo em conjunto”, afirmou Gessica Lima.
História da Vergareña
O Hato da Vergareña foi fundado em 1953 pelo então governador do estado Bolívar, Horacio Cabrera. O local tinha como foco a produção de gado e foi vendido depois ao empresário estadunidense Daniel Keith Ludwig. A ideia dele era tornar a Vergareña um importante ponto de produção no estado. Para isso, levou 18 mil cabeças de gado para a região.
O ex-presidente Hugo Chávez mudou a configuração da Vergareña em 2005, quando passou a discutir reforma agrária e falar sobre as terras ociosas e propriedades que não tinham documentos legais. Esse movimento foi parte de uma mudança na postura do governo com a produção mineira, que passou a tentar recuperar para o Estado os territórios utilizados pela mineração ilegal.
Chávez comprou o território da Vergareña em 2006, com 187 mil hectares. A partir daí, o governo venezuelano desenvolve uma série de projetos florestais e agrícolas, usando o sistema de cooperação agrícola Fundos Zamorano. A AgroFANB também foi um projeto militar que passou a ser desenvolvido na área da Vergareña com alianças comerciais e uma revitalização agricola na região.
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