Fãs da série O Conto da Aia comparam Damares Alves à personagem Tia Lydia
Na série baseada no livro de Margaret Atwood, Tia Lydia é uma mulher fanática e brutal, chefe das Tias que são as mulheres mais velhas responsáveis pelo treinamento, disciplina e punição das aias, no regime autoritário teocrático de Gilead. As Aias são mulheres férteis que têm suas identidades esmagadas a ponto de terem que ser chamadas pelo nome do comandante a quem são entregues, esquecendo-se de seu próprio nome. Elas são obrigadas a suportar estupros ritualizados religiosos, torturas e maus tratos. Antes da revolução teocrática, Tia Lydia era professora de escola religiosa.
O governo de Gilead é formado por um grupo ultraconservador e religioso deu um golpe de Estado nos Estados Unidos e assumiu o poder, impondo uma forma de viver extremamente rígida.
Em um momento da história, Offred, (De Fred, seu proprietário comandante), analisa: “Agora eu estou acordada para o mundo. Eu estava dormindo antes. Foi assim que deixamos acontecer. Quando aniquilaram o Congresso, não acordamos. Quando culparam terroristas e suspenderam a Constituição, também não acordamos. Disseram que seria temporário, mas nada muda instantaneamente.”
Um dos internautas, Bogmandias, disse: “Eu não assisti a série ainda, mas já li aos dois livros e também vejo muitas semelhanças com o Brasil, especialmente no papel exercido pelas “tias” e pela Damares. Contudo, eu acho que os nossos fundamentalistas religiosos foram muito mais espertos, pois se infiltraram na política aos poucos e hoje já dominam o poder legislativo e executivo e logo dominarão também o poder judiciário através de ministros terrivelmente evangélicos. A forma como eles restringem as liberdades individuais e silenciam as minorias também é mais engenhosa, pois é lenta e gradual. Nesse momento, por exemplo, eles estão atacando indígenas e quilombolas que são as pessoas mais vulneráveis, porém quando eles forem destruídos eles avançarão enquanto a população permanece inerte e a mídia ataca moinhos entre uma falsa equivalência e outra.
Denúncias contra Damares
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF), ex-ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos do governo Jair Bolsonaro (PL), está no centro de uma série de denúncias envolvendo uso político e religioso do programa federal Abrace o Marajó, implementado entre 2020 e 2022. Segundo investigação publicada o projeto, que tinha como justificativa oficial o combate à exploração sexual infantil no arquipélago paraense, acabou servindo como plataforma para grilagem de terras e favorecimento de igrejas evangélicas, especialmente da Assembleia de Deus.
Com apoio do Pulitzer Center Rainforest Reporting Grant, os repórteres Juliana Sayuri, Talyta Vespa e Fabrício Venâncio percorreram municípios como Bagre e Oeiras do Pará — os mais impactados pelas emissões de Termos de Autorização de Uso Sustentável (TAUS) durante o programa — e identificaram irregularidades graves na destinação de terras públicas. Templos religiosos foram erguidos em áreas que deveriam estar destinadas ao uso comunitário de populações ribeirinhas.
Durante a gestão de Damares, o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos passou a incluir a regularização fundiária entre suas atribuições, algo inédito na história da pasta. Nesse período, foram emitidos mais de 400 TAUS, autorizando o uso de mais de 50 milhões de m² de terras federais — em muitos casos, sem que houvesse qualquer ação oficial de regularização, segundo o Ministério da Gestão.
“Onde o poder público não chega, a igreja chega”, disse ao UOL Edno Dias, pastor da Assembleia de Deus e atual secretário de Agricultura de Bagre, que participou diretamente do cadastramento de ribeirinhos para obtenção dos TAUS.
Em alguns casos, parte das terras foi “doada” informalmente para construção de igrejas.
Outro ponto que levanta suspeitas é a atuação da empresa Biotec Amazônia, parceira do programa e que tem no conselho Paulo Bengtson, primo de Damares e pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular. A senadora afirmou, por meio de sua assessoria, não ter tido participação na escolha da empresa nem ingerência nas emissões dos TAUS.
“A emissão excessiva levou órgãos do sistema de Justiça a monitorar a situação, em razão de indicativo de fraude”, declarou o Ministério de Direitos Humanos em março de 2024.
A coordenadora-geral da Amazônia Legal na SPU entre 2009 e 2013, a advogada Patrícia Menezes, criticou o uso do programa para interesses religiosos e eleitorais:
“Utilizar TAUS para implantar igrejas evangélicas no Marajó é absolutamente irregular, e deve ser apurado considerando os riscos de improbidade administrativa na gestão do patrimônio público federal e sua combinação com crimes eleitorais de desvio de finalidade na utilização de instrumento de destinação do patrimônio da União”, afirmou.
Senadora está sendo processada pelo Ministério Público Federal por disseminação de fake news
Damares Alves também está sendo processada pelo Ministério Público Federal por disseminação de fake news. Quando ministra, ela chegou a afirmar publicamente que meninas marajoaras seriam exploradas sexualmente por não usarem calcinhas e que teriam os dentes arrancados “para não morderem na hora do sexo oral”. O MPF pede indenização de R$ 5 milhões por danos coletivos.
A senadora deve retornar ao arquipélago em 22 de maio, acompanhada de uma comitiva parlamentar. A assessoria afirma que o objetivo da visita é “constatar, com os próprios olhos, todas as situações denunciadas pelos moradores”, e que ministérios do governo Lula foram convidados, mas não responderam ao convite.
O Ministério da Gestão informou que iniciará apuração detalhada sobre os TAUS emitidos no período. A SPU deve reavaliar caso a caso a legalidade das autorizações. Com informações do Brasil 247.
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