O Brasil nunca esteve à beira do comunismo
O Brasil se notabiliza, tristemente, como uma das economias mais desiguais do planeta. Só em dois períodos históricos, durante os governos Vargas e Lula, criaram-se políticas que visavam diminuir esse pornográfico diagnóstico. A desigualdade marca a vida dos brasileiros e teria selado para sempre o futuro de muitos desde o nascimento, não fosse a criação de políticas públicas de mitigação da distância.
Isso ocorreu, primeiro, com a Consolidação das Leis do Trabalho, por Getúlio, que nasceu para regulamentar as relações trabalhistas e com o impulsionamento de programas de transferência de renda e de valorização do salário-mínimo implementados por Luiz Inácio desde seu primeiro mandato.
É fato notório o “Plano Cohen” da ameaça comunista, um documento forjado por militares brasileiros com a intenção de instaurar a ditadura do Estado Novo, em novembro de 1937.
Os golpes que aqui “gorjeiam”A fake news no Plano Cohen, de quando mentira ainda se chamava mentira, formulada pelo militar Olímpio Mourão Filho, logrou êxito e deu origem ao golpe do Estado Novo em 1937. Por sinal, o mesmo Mourão Filho foi o general que botou os tanques nas ruas dando ensejo ao golpe civil-militar de 1964. Sempre ele e seus pares esgrimindo a ameaça da comunização do país. Nada mais falso.
Em seu único período como partido de massas, o antigo PCB, liderado por Prestes, durante sua existência legal em 1946, atingiu 200 mil inscritos e obteve quase 10% dos votos nas eleições presidenciais.
Muito distante, portanto, da efetiva conquista do governo, vencido na época pelo marechal Dutra. Posto na ilegalidade em 1947, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) se radicalizou paulatinamente e acabou perdendo adeptos aceleradamente.
Por incrível que pareça, o governo do mineiro Juscelino Kubitschek sofreu três tentativas de golpe, sempre com o pretexto do apoio fantasma comunista. O apoio existia, mas era eleitoralmente pouco expressivo, graças à atomização do Partidão.
Hoje, percebe-se que a conversão de Cuba à órbita da antiga União Soviética e, após a crise dos mísseis entre Kruschev e Kennedy, a histeria comunista tomou conta de Washington. A fria recepção a João Goulart em visita aos Estados Unidos, em 1962, já dava o tom do que poderia vir pela frente: o golpe de 1964, com a colaboração decisiva dos EUA.
A elite entreguista e o medo das reformasNa lógica atual de aprofundamento do neoliberalismo e da plataformização do sistema capitalista, é preciso apartar o Estado da indução da economia. É a clarificação da lógica do mais forte. Uma espécie de retorno ao darwinismo social de triste memória.
O fortalecimento do Estado e seus instrumentos de inserção, bem como a exigência das mulheres, dos negros e da população LGBT+ pelo respeito e igualdade, são vistos pelos setores do capital e pelo extremismo direitista como comunismo, mesmo sendo pautas estas que ganharam notoriedade na terra paladina do capitalismo, os Estados Unidos, e outros eixos liberais do Norte.
Mas que comunismo é esse?No Brasil atual, as forças que se denominam comunistas, apesar de respeitáveis, não têm força política ou social para movimentar a sociedade.
Já as forças que se denominam socialistas democráticas, o PT entre elas, repudiam o partido único, são frontalmente contrárias à chamada ditadura do proletariado, defendem os sindicatos e todos os meios associativos, defendem o direito à alternância no poder por intermédio das eleições livres, periódicas e diretas, e a separação dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário.
O cerne de seu programa é a defesa dos menos favorecidos e o direito à livre expressão da cidadania.
Nutridas na lógica da “farinha pouca, meu pirão primeiro”, as elites dominantes e o seu subproduto, o extremismo direitista, denominam toda e qualquer reforma no “status quo” como perigo comunista. Uma falácia.
Defender um sistema único de saúde público, uma educação pública e universal e um Estado de bem-estar social são bandeiras democráticas com forte viés social. Defender a democratização da terra e a reforma urbana também.
Democracia sem direitos e deveres não é democracia. Não afeitas ao jogo democrático, as forças conservadoras brasileiras deliberadamente confundem o aprofundamento do ambiente democrático com ditadura.
Não é ato falho. É projeto.
O Brasil nunca esteve à beira do comunismo. Erigi-lo como retórica não é só uma mera mentira. É uma barbaridade demagógica. Até quando essa desonestidade intelectual perpetuará como arma?
Por Roberto Cantalice
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