A manobra de Hugo Motta no PL Antifacção é digna de um plano do Cebolinha — e, ironicamente, o “coelhinho” dessa vez atende pelo nome de Tarcísio de Freitas. Ao entregar a relatoria de um projeto sensível a um extremista e cercar-se da direita radical, Motta acabou oferecendo à extrema direita a vitrine perfeita.
O plano de poder era claro: dar uma plataforma política a Tarcísio, o candidato “inevitável” da sucessão bolsonarista, e testar o terreno para uma nova narrativa de segurança pública sob o verniz de combate ao crime organizado.
Só que o enredo desandou. O presidente da Câmara, na ânsia de aparecer como articulador nacional, criou uma confusão monumental — daqueles roteiros que até o vilão perde o fio da meada e o público, atônito, já não sabe quem é o mocinho da história.
O resultado foi um recuo atabalhoado, remendado, típico de quem descobre tardiamente que, em política, o improviso cobra juros altos — e, no caso de Motta, juros compostos.
O gesto de entregar a relatoria à oposição não foi ousadia, foi descuido. Mesmo alertado por aliados de que o terreno era minado, preferiu seguir em frente. O texto virou um monstrengo jurídico, um frankenstein legislativo que confundiu até quem o escreveu. A Câmara, que deveria ser o espaço da racionalidade política, virou laboratório de egos.
E tudo comunica. Quando Motta apareceu ladeado pela extrema direita em coletiva, não foi só um erro de enquadramento: foi um recado. Um aceno àqueles que enxergam em Tarcísio de Freitas a figura “técnica”, moderna e palatável da mesma agenda autoritária.
Ao dar palco para o projeto, Motta ampliou a vitrine política do governador paulista e entregou, de bandeja, a narrativa que a extrema direita precisava para se reorganizar em torno de um novo líder.
O caos, portanto, não é acidente. É método. E reflete o esvaziamento político de um presidente da Câmara que trocou a liderança pela ambição de ser protagonista. Motta parece ter confundido o tabuleiro com o tablado — e no teatro de Brasília, quem exagera na encenação acaba vaiado. O resultado é uma Câmara paralisada, um governo em alerta e uma extrema direita fortalecida.
A esperteza, como sempre, tem prazo de validade. Motta acreditou que poderia agradar todos os lados — a direita radical, a bancada da bala e o Planalto, de quebra. No fim, ficou sem nenhum. E o projeto, que deveria combater facções, terminou servindo de trampolim político para o sucessor natural de Bolsonaro.
No fim das contas, o episódio do PL Antifacção é mais que um tropeço legislativo: é um retrato da ingenuidade política de quem não percebeu que o tabuleiro já mudou. Enquanto Motta tentava ser maestro, Tarcísio afinava os instrumentos. E quando o barulho cessar, é ele quem sobe ao palco — aplaudido por uma plateia que Hugo Motta, sem querer, ajudou a reunir.
Por Cleber Lourenço
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