Transformar o que consumimos (ou deixamos de consumir) em uma espécie de comprovante de votação não é exatamente novidade. A diferença, agora, está no gesto
Como professora, me pego pensando em como falar de políticas públicas complexas com pessoas que estão picotando chinelos novos, em vez de doá-los. Entendo que organizar as próprias angústias não é simples — e que é muito mais fácil parar de comprar uma marca do que explicar a origem de 450 mil reais em dinheiro vivo dentro de casa e outros 90 mil no porta-luvas de um carro.
Por outro lado, confesso que também fiquei intrigada com as filas nas lojas das Havaianas, shoppings lotados, gente comprando chinelos como quem faz um ato político.
A pergunta que me faço é inevitável: se fosse Zezé Di Camargo na propaganda, no lugar de Fernanda Torres, haveria o mesmo movimento? Talvez eu mesma deixasse de comprar. Admito. Mas, agora, a pergunta é outra; sendo Fernanda Torres (nossa diva faraônica e cristo-redentônica) quem não usava esses chinelos passaria a usar? Quem não precisava deles passou a comprá-los?
Já boicotamos marcas por motivos sólidos: exploração do trabalho, racismo, destruição ambiental, incoerência ética. Isso faz sentido. Mas há algo novo e inquietante quando o debate deixa de ser abdicar de privilégios e passa a ser incentivar o consumo como resposta à polarização.
Boicotar um restaurante caro ou uma loja de grife é abrir mão de um privilégio
Passar a consumir algo, como gesto político, é outra lógica. Politicamente, são movimentos muito diferentes.
A polarização nos exauriu emocionalmente dentro de um sistema que transforma consumo em identidade. O resultado foi previsível: uma enxurrada de opiniões, reações automáticas, pessoas se sentindo obrigadas a tomar posição sobre chinelos e inflar campanhas publicitárias em pleno fim de ano.
No fim das contas, quem lucrou com tudo isso?
Discutir marcas é legítimo. Necessário, até. Mas é fundamental não perder de vista as estruturas que operam por trás desses debates e como somos frequentemente usados como marionetes reagindo mais do que refletindo.
A pergunta final não é se você vai comprar ou boicotar um chinelo. É outra, bem mais desconfortável: quantas das nossas reações são, de fato, políticas e quantas são apenas tentativas desesperadas de não permanecer em silêncio?
Eles deixarem de comprar é uma coisa. Nós passarmos a consumir mais é outra.
Talvez o verdadeiro problema não seja começar o ano com o pé direito, com o esquerdo ou chutando a porta. Talvez seja trocar os pés pelas mãos nas massas.
Em disputas nas quais o capitalismo sempre sai agradecido, sigo com os dois pés atrás.
Por Elika Takimoto- Drª em Filosofia Msc em História
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