Economista afirma que o sequestro de Nicolás Maduro integra uma nova doutrina de força dos EUA para bloquear a China e pressionar o Brasil
O economista José Kobori afirmou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, atacou a Venezuela e promoveu o sequestro do presidente Nicolás Maduro como parte de uma estratégia geopolítica voltada a preservar a hegemonia do dólar e reorganizar o poder norte-americano no continente americano. Segundo ele, o episódio marca um divisor de águas e confirma que Washington abandona de vez a retórica do “soft power” para atuar com a lógica do “porrete”, em uma escalada que pode atingir México, Colômbia e, mais adiante, o Brasil.
As declarações foram feitas por Kobori em entrevista ao jornalista Leonardo Attuch, em conversa exibida na TV 247, centrada nas consequências do ataque à Venezuela, no papel da China e nas ameaças sistêmicas de uma crise financeira internacional.
“Isso é tudo balela, né? Que se você for aliado aos Estados Unidos, tudo isso aí se torna irrelevante.”
O economista sustentou que a própria fala de Trump teria exposto o interesse real: o controle do petróleo e a imposição do dólar cmoeda de referência em transações estratégicas. Em sua leitura, o foco não é garantir abastecimento energético — pois os EUA seriam autossuficientes — e sim cortar o acesso da China ao petróleo venezuelano, obrigando Pequim a pagar em dólar e, assim, reforçar a moeda norte-americana como eixo do sistema.
“Na realidade não é sobre ter acesso, é sobre cortar o acesso da China, principalmente ao petróleo.”
A “doutrina Donroe” e a volta do Big Stick
Kobori disse que o ataque à Venezuela foi o primeiro grande teste daquilo que chamou de nova doutrina de Trump, apelidada por ele de “Donroe”, uma fusão entre o nome Donald e a antiga Doutrina Monroe, que pregava a “América para os americanos”. Segundo o economista, trata-se de uma reedição do “Big Stick” — a política de imposição pela força — agora aplicada de maneira aberta, inclusive com ameaças a países aliados.
Ele avaliou que Trump tenta concentrar o esforço estratégico no hemisfério ocidental porque os EUA não teriam mais capacidade econômica de enfrentar simultaneamente todas as frentes que abriram no mundo. Por isso, buscariam controlar a América Latina como base para, no futuro, retomar confrontos com Rússia e China em melhores condições.
Groenlândia, Ártico e a nova disputa por rotas globais
Durante a entrevista, Attuch mencionou ameaças de Trump de usar poder militar para conquistar a Groenlândia. Kobori explicou que o interesse não é apenas territorial: a Groenlândia se conecta à disputa pelo Ártico, que ganha centralidade geopolítica com o aquecimento global e o surgimento de novas rotas marítimas.
Para ele, Trump tenta avançar sobre essa região porque deseja dominar a rota ártica — estratégica para o comércio internacional — e porque ali está uma das fronteiras diretas entre EUA e Rússia no globo. O economista observou que a Rússia, hoje, lidera a tecnologia de navios quebra-gelo e tende a se beneficiar dessa nova navegabilidade.
Venezuela como peça-chave na guerra monetária
Kobori insistiu que o núcleo do conflito está na fragilidade crescente do dólar. Na sua interpretação, Trump estaria “correndo contra o tempo” porque os EUA já vivem uma dívida impagável e dependem da condição do dólar como moeda global para sustentar emissão de dívida e financiar seu poder militar.
Ele explicou que a Venezuela, sob sanções severas, teria passado a vender petróleo à China e à Rússia fora da órbita do dólar, o que enfraquece o sistema de petrodólares. Assim, atacar a Venezuela seria também atacar um símbolo e um mecanismo de desdolarização.
“A grande fonte de poder dos Estados Unidos é a hegemonia do dólar.”
Kobori ainda especulou que Trump pode tentar usar o caso venezuelano como trunfo em eventual negociação direta com o presidente chinês, argumentando que aceitaria a continuidade das exportações desde que o pagamento fosse feito em dólar.
Irã, Ormuz, Malaca e Taiwan: o tabuleiro da energia e do bloqueio
Ao ser questionado sobre o temor de que o Irã seja o próximo alvo, Kobori respondeu que o risco faz sentido — e não apenas por pressões de Israel, mas por interesse direto dos EUA em controlar gargalos do petróleo e rotas estratégicas ligadas à China.
Ele citou o Estreito de Ormuz, por onde passa parte decisiva do petróleo do Oriente Médio, e afirmou que dominar o Irã ampliaria o controle norte-americano sobre o fluxo energético que abastece a China. Em seguida, conectou esse raciocínio ao Estreito de Malaca, peça essencial no comércio asiático e que também poderia ser bloqueada a partir do domínio de Taiwan.
A lógica descrita por Kobori é a de um encadeamento geopolítico: energia, rotas marítimas, estrangulamento comercial e pressão militar para reorganizar a ordem global.
Brasil na mira e a estratégia de desestabilização
Ao abordar a América do Sul, Kobori afirmou que, se os EUA consolidarem um eixo de controle regional, o Brasil tende a se tornar o alvo inevitável, por ser a maior potência do continente sem dissuasão nuclear. Mas ele esclareceu que o método provavelmente não seria uma invasão direta inicial, e sim desestabilização política e interferência eleitoral.
“O Brasil é o próximo passo… tentar mudar o nosso regime aqui via eleições.”
Ele estimou que Washington investirá fortemente para favorecer forças da direita e da extrema direita e tentou traçar uma perspectiva política ao dizer que considera improvável que o presidente Lula não seja reeleito, apontando o presidente como liderança de projeção mundial e capacidade política singular.
A bolha da inteligência artificial e o risco de colapso financeiro
A entrevista também avançou para um tema de grande impacto: a possibilidade de uma crise financeira global associada à financeirização extrema da economia norte-americana e ao crescimento de bolhas tecnológicas, especialmente em torno da inteligência artificial.
Kobori afirmou ver sinais claros de um colapso no modelo econômico dos EUA, sustentado por especulação, endividamento e ativos financeiros desvinculados da economia real. Ele descreveu o mercado americano como um “castelo de cartas”, alimentado por trilhões investidos em IA sem perspectiva realista de retorno, já que grande parte dos usuários utiliza ferramentas como o ChatGPT gratuitamente ou para fins não econômicos, além de haver concorrência crescente de alternativas gratuitas — inclusive chinesas.
“Os Estados Unidos tá em cima de um castelo de cartas… trilhões e trilhões de dólares estão sendo colocados num negócio que não vai dar o retorno.”
Nesse cenário, ele alertou que uma crise de liquidez pode destruir riqueza, afetar ativos e derrubar empresas inclusive da economia real — um choque com potencial de contaminar o mundo inteiro.
Recursos naturais, minerais críticos e a disputa pela América do Sul
Kobori também relacionou a ofensiva à Venezuela à corrida por minerais críticos e metais essenciais para a transição energética e para tecnologias digitais. Para ele, os EUA querem controlar recursos estratégicos não apenas para uso próprio, mas para impedir o avanço chinês, num movimento semelhante ao que citou sobre o “triângulo do lítio” na América do Sul.
Ele afirmou que o objetivo é impedir que a China mantenha acesso privilegiado a petróleo, prata, terras raras e minerais críticos — elementos fundamentais para baterias, carros elétricos e sistemas de IA.
Defesa, soberania e o erro nuclear brasileiro
Em outro momento da conversa, Kobori afirmou que foi um “erro crasso” o Brasil ter abandonado o projeto de dissuasão nuclear e descontinuado parte da indústria de defesa, relacionando isso à adesão ao Consenso de Washington e ao impacto do neoliberalismo sobre setores estratégicos.
“O Brasil tem mentes e capacidade tecnológica para já ter a sua bomba nuclear… mas nós abandonamos isso lá atrás.”
Ele lembrou que o país já teve capacidade de produzir tecnologia militar avançada, mas teria desmontado sua base industrial, abrindo espaço para maior vulnerabilidade estratégica.
Redes sociais, polarização e dominação por algoritmos
Na reta final, a entrevista abordou o papel das big techs e redes sociais na fragmentação social. Kobori afirmou que as plataformas cumprem papel central na polarização e no enfraquecimento da coesão nacional, criando bolhas, “soluções fáceis” e indivíduos que se sentem especialistas sem estudo. Ele destacou a decisão chinesa de barrar big techs ocidentais como parte de uma estratégia de proteção soberana.
“Essa comodidade é utilizada para nos dominar… pelos algoritmos, para nos colocar nessas bolhas.”
Um alerta geopolítico com impacto direto no Brasil
Ao conectar o ataque à Venezuela à hegemonia do dólar, às rotas do Ártico, à pressão sobre China e Rússia e à disputa por minerais críticos, José Kobori sustenta que os EUA, sob Donald Trump, teriam inaugurado uma fase mais explícita e agressiva de dominação regional. A América Latina surge, nesse quadro, não como periferia, mas como zona central do confronto geopolítico do século XXI.
Para Kobori, a Venezuela foi o teste inicial. O que virá depois — seja via pressão militar, econômica ou desestabilização política — tende a repercutir diretamente no Brasil, que se equilibra entre sua integração econômica com a Ásia e a vulnerabilidade estratégica de pertencer ao hemisfério ocidental sob a mira histórica de Washington.
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