A doutrina da força total expõe a verdadeira face do imperialismo estadunidense
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a escancarar o caráter autoritário de sua visão de mundo ao declarar que o exercício de seu poder só poderia ser contido por sua própria “moralidade”. A “moralidade” do imoral.
A afirmação, carregada de arrogância e desprezo por qualquer limite institucional ou jurídico, traduz a pretensão de um governante que se coloca acima das leis, das nações e da própria ordem internacional, como se fosse o árbitro supremo do destino dos povos.
A escalada de Trump está longe de ser episódica ou retórica. Ela expressa uma orientação estratégica que tende a se aprofundar, impondo às forças progressistas do mundo a necessidade de abandonar qualquer ilusão alimentada pela demagogia eleitoral e enfrentar a política externa efetivamente em curso. É dessa análise concreta que devem emergir as estratégias e táticas capazes de responder às grandes batalhas políticas e sociais que se anunciam.
A marca central da atuação internacional de Trump é a agressividade permanente. O Direito Internacional é tratado como obstáculo descartável; a soberania nacional, como inconveniente a ser violado; e as relações entre Estados são reduzidas à lógica da pressão máxima e da ameaça constante. O uso da força passa a ser apresentado como método regular de política externa.
Embora essa postura possa produzir ganhos imediatos e ocupações momentâneas de espaço geopolítico, ela carrega em si contradições profundas. O isolamento crescente dos Estados Unidos, a ampliação da oposição, ainda que em diferentes intensidades, por parte da maioria dos países e o acirramento de divisões internas são consequências inevitáveis. Essas fissuras atravessam tanto a sociedade civil democrática quanto os próprios setores da ultradireita que compõem o movimento MAGA, revelando a instabilidade do projeto trumpista.
Ao afirmar que seu poder encontra limite apenas em sua própria “moralidade”, Trump reafirma uma concepção autoritária de governança nacional e global, ignorando deliberadamente os freios e contrapesos do sistema político. Não por acaso, no mesmo dia dessa declaração, sofreu uma derrota no Senado, que aprovou resolução restringindo novas ações militares contra a Venezuela. O voluntarismo autocrático esbarra, ainda que parcialmente, em resistências institucionais.
Esse poder total, desprovido de qualquer fundamento ético e apartado da realidade, é resultado de um processo prolongado de erosão da governança internacional construída no pós-guerra. Desde a era Bush, com a proclamação de uma “novíssima ordem mundial”, passando pelos governos democratas e seu chamado “multilateralismo assertivo”, o que se viu foi a instrumentalização das instituições internacionais para legitimar guerras, sanções e violações contra povos soberanos.
Agora, sob Trump, essa trajetória atinge um novo patamar. O multilateralismo é abandonado sem subterfúgios, enquanto se combinam sanções econômicas, coerção diplomática e uso seletivo da força, mesmo que isso não implique ocupações militares prolongadas. Princípios elementares como igualdade entre Estados, soberania e não intervenção tornam-se letra morta. O resultado previsível é um período prolongado de instabilidade, marcado por conflitos e choques de grandes proporções.
Diante desse cenário, o contraponto à política de força total de Trump não reside nas ilusões de adaptação à política do imperialismo, sob a falsa concepção de que é possível a moderação deste. A saída para a encruzilhada histórica e o transe em que se encontra a humanidade está na intensificação da luta anti-imperialista em cada país, respeitando suas próprias peculiaridades históricas e sociais, articulada aos esforços pela construção de uma nova governança global baseada na multipolaridade, na soberania dos povos e na cooperação entre as nações.
Por José Reinaldo Carvalho
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