Com tecnologia de Israel, ICE se lança em espionagem de massa nos EUA

Com tecnologia de Israel, ICE se lança em espionagem de massa nos EUA

Orçamento inédito coloca ICE como 14º exército mais bem financiado do mundo, equivalente às forças militares de Israel e Ucrânia

Com um orçamento bilionário e tecnologia de Israel, o ICE — a agência de imigração dos EUA — amplia sua atuação na espionagem de massa e intensifica o questionamento sobre qual seria sua verdadeira missão. O sistema, além de buscar e identificar imigrantes, também passou a ser usado contra manifestantes que tentam impedir o trabalho das forças de Donald Trump.

Para 2025, o orçamento do ICE foi de US$ 28 bilhões, três vezes maior que em 2024. Para os próximos três anos, serão mais US$ 56 bilhões. Sozinho, o orçamento colocaria o ICE como a 14º maior força militar do mundo em termos financeiros. O grupo rivalizaria com a Ucrânia e Israel.

Em apenas um ano, Trump catapultou a capacidade de a agência incrementar seu arsenal de vigilância. A rápida compra de equipamentos de espionagem doméstica inclui contratos com a empresa israelense Paragon e com a Palantir, assim como acordos com ferramentas forenses usada para analisar dados em celulares.

Acesso aos telefones

Sob Trump, o ICE fechou contratos com diversas empresas privadas para vigilância de localização, vigilância de mídias sociais, reconhecimento facial, spyware e vigilância telefônica.

Uma tática comum por parte dos agentes de imigração é obter acesso físico ao telefone de uma pessoa, seja enquanto ela está detida em uma passagem de fronteira ou enquanto está sob custódia. Para isso, o ICE pagou US$ 11 milhões para empresa Cellebrite, que desbloqueia telefones e, em seguida, obtém todos os dados presentes no aparelho, incluindo aplicativos, histórico de localização, fotos, registros de chamadas, mensagens de texto e mensagens do Signal e do WhatsApp.

O ICE também assinou um contrato de US$ 3 milhões com a Magnet Forensics, fabricante do dispositivo Graykey para desbloqueio de telefones.

Em apenas três meses, em 2025, mais de 14 mil telefones foram alvos de monitoramento por parte da Agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA.

Não ter acesso físico ao telefone não impede do ICE de atuar. A agência pagou US$ 2 milhões para a fabricante de spyware Paragon. O aplicativo israelense ganhou destaque depois de ter sido encontrado nos telefones de dezenas de membros da sociedade civil italiana, incluindo jornalistas e ativistas de entidades que trabalhavam com imigrantes. O sistema é capaz de coletar mensagens de diversos aplicativos de bate-papo criptografados, como Signal e WhatsApp, sem que o usuário perceba.

O escândalo na Itália levou a entidade Anistia Internacional a denunciar o uso da tecnologia. “Essa ferramenta intrusiva jamais poderá estar em conformidade com os direitos humanos e deve ser proibida”, defendeu em junho de 2025. Naquele mesmo mês, o governo italiano anunciou que estava encerrando o contrato com a empresa de Israel.

No começo de 205, a Meta afirmou que a empresa israelense teve como alvo 90 de seus usuários de WhatsApp pelo mundo, incluindo jornalistas e membros da sociedade civil.

Acesso às redes sociais

O ICE também gastou US$ 5 milhões para adquirir pelo menos duas ferramentas de vigilância de localização e mídias sociais: Webloc e Tangles, da empresa Pen Link. Eles coletam a localização de milhões de telefones, reunindo dados e vinculando-os a outras informações sobre os usuários.

Essas ferramentas são ainda capazes de criar um dossiê sobre qualquer pessoa que tenha uma conta pública em mídias sociais. Um deles consegue vincular o histórico de postagens aos locais por onde a pessoa passou, inclusive criando a rede de contatos mais frequentes da pessoa sob vigilância.

Na prática, o sistema permite que o ICE possa consultar o histórico das localizações de uma pessoa, sem precisar de um mandado judicial.

O ICE também firmou contratos com outras empresas de monitoramento de mídias sociais e análise de IA, como um contrato de US$ 4,2 milhões com a empresa Fivecast para a ferramenta de vigilância de mídias sociais e análise de IA.

Com tal arsenal em mãos, o ICE pretende investir até US$ 50 milhões na construção e operação de um escritório de monitoramento de mídias sociais 24 horas por dia, 7 dias por semana. O objetivo será o de vasculhar todos os principais sites de mídias sociais em busca de pistas que possam gerar operações de deportação.

Contrato com o agente central do ultraconservadorismo

Um dos aspectos ainda apontados por ativistas é a ligação do ICE com contratos com a Palantir, empresa que começou a trabalhar no combate ao terrorismo em 2005, após receber investimento da In-Q-Tel, o braço de capital de risco da CIA.

Um de seus fundadores é Peter Thiel, o milionário doador das campanhas de nomes ultraconservadores nos EUA e aliado de Trump.

Seu pensamento é vinculado ao movimento “Iluminismo Escuro”, uma tendência que questiona princípios democráticos. Ainda que Thiel não se declare oficialmente um seguidor dessa corrente, um trecho de um de seus livros, de 2009, sugere sua simpatia ao movimento e questiona a “compatibilidade” entre democracia e liberdade.

Thiel nasceu na Alemanha Oriental. Com cinco anos de idade, sua família migrou para os EUA. Hoje, sua tecnologia ajuda a deportar imigrantes.

Acesso aos prontuários médicos

O ICE também teve acesso a um vasto material de dados, informações digitais confidenciais sobre americanos e estrangeiros, incluindo histórico de geolocalização e endereços. Tecnologias de reconhecimento facial ainda foram usadas para conduzir operações do ICE em cidades dos EUA.

O governo Trump também deu permissão ao ICE para acessar grandes dados confidenciais armazenados de imigrantes e americanos na Receita Federal e na Previdência Social.

Mas um dos elementos mais polêmicos foi o contrato assinado com os serviços de saúde para garantir que a força militar tenha acesso a todos os dados de saúde dos imigrantes.

Diz o contrato entre o ICE e o Medicaid:

“O acesso a essas informações (médicas) permitirá que o ICE receba dados sobre a identidade e localização de estrangeiros nos Estados Unidos, como endereço, número de telefone, informações bancárias (número de roteamento, tipo de conta, número da conta), endereço de e-mail, endereços de protocolo de internet (IP) ou outras informações relevantes para identificar e localizar estrangeiros nos Estados Unidos”, diz o acordo.

Cidadãos dos EUA em estado de alerta

A espionagem em massa passou a ser questionada por ativistas de direitos humanos. Um dos impactos, por exemplo, pode ser a hesitação de imigrantes em buscar socorro médico, aprofundando os problemas para os estrangeiros que vivem nos EUA.

Para a KFF, uma entidade de pesquisas no setor de saúde pública, “o compartilhamento de dados de beneficiários do Medicaid com o ICE provavelmente tornará as famílias imigrantes, incluindo crianças cidadãs nessas famílias, mais relutantes em acessar planos de saúde, assistência médica e outros programas e serviços”.

“A política exacerba os temores já elevados entre as famílias imigrantes devido ao aumento das atividades de fiscalização da imigração em geral”, disse.

Mesmo antes da nova política de compartilhamento de dados, uma Pesquisa de Imigrantes de 2025 da KFF/New York Times constatou que cerca de metade (51%) dos imigrantes adultos estavam “muito preocupados” ou “um tanto preocupados” com a possibilidade de autoridades de saúde ou profissionais de saúde compartilharem suas informações com o ICE.

Entre as entidades de direitos humanos, outro alerta se refere aos poderes que a agência passou a ter de espionar cidadãos americanos, supostamente por estarem agindo contra a força de Trump.

Ainda em 2025, o diretor interino do ICE, Todd Lyons, disse em uma entrevista que sua agência “estava dedicada à missão de perseguir” a Antifa e clubes de tiro de esquerda.

Para a entidade Electronic Frontier Foundation (EFF), que luta por garantias constitucionais no uso de tecnologias, o risco de que um abuso nos poderes do ICE é real.

“Nossa preocupação com a compra deste software pelo ICE é a probabilidade de que ele seja usado contra pessoas sem documentos e imigrantes que estão aqui legalmente, bem como contra cidadãos americanos que se manifestaram contra o ICE ou que trabalham com comunidades imigrantes”, completou.

Por Jamil Chade

Veja também

Distraído: homem confunde cola instantânea com colírio e cola o olho

Distraído: homem confunde cola instantânea com colírio e cola o olho

Um homem precisou de atendimento no Hospital Municipal de Paracatu, no Noroeste de Minas, após …