Em Conselho da Paz, Trump dita até conteúdo de discursos de presidentes estrangeiros

Em Conselho da Paz, Trump dita até conteúdo de discursos de presidentes estrangeiros

“Guia” obtido pelo ICL Notícias revela que a Casa Branca determina até o que delegações de todo o mundo podem ou não dizer durante reunião

O Conselho da Paz de Donald Trump se reúne nesta quinta-feira pela primeira vez e, orgulhosamente, a Casa Branca insiste que o evento em Washington contará com 45 países, ainda que muitos estejam participando apenas como observadores.

Mas documentos obtidos pelo ICL Notícias revelam que a presidência americana é quem toma todas as decisões no novo órgão internacional, estipulando até mesmo o que cada país deve falar em seus discursos.

A cúpula deve anunciar um investimentos inicial de US$ 5 bilhões em Gaza e o estabelecimento de uma força internacional para garantir a “paz” na região. Presidentes aliados dos EUA, como Javier Milei, viajarão até a capital americana e Trump quer usar o evento para mostrar ao mundo que tem a chancela internacional para seus projetos.

Mas num dos documentos do evento e que serve de guia logístico para as delegações estrangeiras, fica explícito que cada um dos participantes não tem a liberdade de falar o que bem entender.

Num dos trechos, o guia instrui os participantes sobre o que devem dizer ao receber a palavra para discursar diante de Trump.

A reunião incluirá:

  • Discurso de abertura do Presidente;
  • Apresentações de alto nível sobre a implementação das medidas, apresentadas por líderes responsáveis ​​por ajuda humanitária, desmilitarização, supervisão fiscal, forças de estabilização e reconstrução;
  • Adoção formal das resoluções fundamentais.
  • Mas é no trecho referente à participação do resto do mundo que o texto gerou um profundo mal-estar entre os diplomatas.
  • O documento afirma que cada presidente presente terá apenas dois minutos para fazer sua intervenção, enquanto não existe qualquer limitação para Trump.O conteúdo também é dirigido:

    Os membros do Conselho devem estar preparados para fazer uma breve intervenção (estritamente limitada a dois minutos).

    Encorajamos declarações que:

    Reafirmem o compromisso do seu governo com o Conselho de Paz;

    Descrevam quaisquer contribuições financeiras, operacionais ou setoriais específicas;

    Declarem apoio à reconstrução, à arquitetura de segurança e à prosperidade a longo prazo de Gaza.

    As declarações seguirão uma ordem predefinida. Um cronometrista controlará o tempo para garantir a integridade do cronograma.

    Diplomatas consultados pelo ICL Notícias destacaram que tais “instruções” são inexistentes em fóruns, como a ONU. Cada governo tem a liberdade para falar o que bem entender, inclusive criticar o caminho que está sendo adotado.

    Os mais irônicos, porém, destacam que a estrutura da reunião já é um avanço em comparação ao ato de fundação do Conselho, em janeiro em Davos. Naquele encontro, apenas os representantes de Trump tiveram o direito de falar, enquanto cerca de 20 presidentes permaneceram em silêncio ao seu lado.

    O “guia”, ainda assim, reforça a constatação de que não há qualquer papel designado aos países que fazem parte do Conselho da Paz e que ele é absolutamente controlado por Trump. Em suas regras, o americano é o único com vaga garantida e tem o poder exclusivo de nomear quem entra na instituição.

    Ele também é o único que pode vetar resoluções, definir cargos dentro da nova administração de Gaza e expulsar membros, como fez com o Canadá.

    Até o local do evento é revelador do controle que Trump quer exercer. A reunião ocorrerá no Donald Trump US Institute of Peace, uma entidade tradicional de Washington e que, recentemente, teve sua marca modificada para incluir o nome do próprio presidente dos EUA.

    Os americanos ainda negociam com o banco JP Morgan para que a instituição preste os serviços financeiros para o novo organismo internacional.

    Por Jamil Chade

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