Psicanalista discute como popularidade de presidente estadunidense vem de fatores indiretos, como indústria cultural dos EUA
O que a psicanálise diria sobre o momento que vive o mundo atualmente? O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, atacando outras nações; imigrantes sendo perseguidos em território estadunidense; a ordem capitalista e as instituições em crise — tudo isso em meio a uma sociedade cada vez mais digitalizada — são alguns dos dilemas que merecem ser analisados à luz dessa teoria.
Christian Dunker, psicanalista e professor de psicanálise e psicopatologia do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), discute, em entrevista ao Conversa Bem Viver, como as transformações políticas, geopolíticas e econômicas ocorridas no último período trazem efeitos morais e psíquicos.
Ele analisa a postura do presidente estadunidense e a popularidade dele em alguns setores da sociedade, inclusive brasileira, como um produto desse contexto de “dissolução”, associado à busca por heróis.
“Some-se a isso o fato de que consumimos lixo industrial narrativo há pelo menos 15 anos. No cinema, só vemos histórias de heróis: Vingadores, Liga da Justiça, Wolverine, etc. Fomos criados sob a narrativa de que uma pessoa muito poderosa vai operar a grande transformação. Depois da narrativa, você cria o personagem e surgem os piores: aqueles que respondem a esse imaginário distraído. A nossa fé no herói salvador, do ponto de vista psicanalítico, é banal”, explica.
Confira a entrevista completa
Brasil de Fato: Donald Trump se acha o “dono do mundo” por questões pessoais dele ou isso vem de um espírito mais coletivo dos Estados Unidos?
Christian Dunker: Proponho uma resposta baseada na ideia de que temos transformações políticas, geopolíticas e econômicas importantes, mas pegando os efeitos, reflexos e condicionantes psíquicos ou morais dessas transformações. É uma espécie de suplemento a outras análises mais apuradas. Esse processo começa de maneira mais explícita em 2008. Em 2008, temos uma convergência de vários entroncamentos discursivos, ideológicos e institucionais. Havia a sensação de que o projeto de globalização, de produção deslocalizada, de consumo flexível, e o multiculturalismo pós-moderno eram a grande esperança que atravessou a geração dos millennials: a ideia de que iríamos digitalizar, produzir mais empregos, reduzir as diferenças sociais e que havia um progresso incluso com uma promessa.
2008 é um marco porque a crise das subprimes americanas revelou como o neoliberalismo tinha produzido uma massa de capital que se autorreproduzia do ponto de vista meramente financeiro. A promessa neoliberal de não interferência e de uma vida estruturada como uma grande empresa era falsa. Na hora H, a “mão invisível” do Fed americano foi lá e salvou os bancos; interferiu e não deixou quebrar.
O sistema não foi para o brejo, mas aquilo foi uma corrupção do que Boltanski e Chiapello chamam de “espírito do capitalismo”. O capitalismo não vive sem espírito, e esse espírito prometia não interferência, um mundo globalizado onde todos falariam com todos, mas sem o “grande juiz”.
Ali isso se combina com a digitalização do mundo, que, entre 2008 e 2013, se torna um processo avançado. A digitalização muda a linguagem, a linguagem muda a subjetividade e isso concorre com uma transformação da institucionalidade que devia acompanhar essas mudanças. Ou seja, ONU, Bretton Woods, FMI — os chamados aparatos internacionais — começaram a se fragilizar muito desde então, simbólica e materialmente.
Esses entroncamentos geraram progressivamente um sentimento global, visível a partir de 2010 e 2016, de que nossos pactos e alianças eram falsos. A ideia de um projeto colaborativo passou a ser vista como mentira. Decidiram mudar as regras do jogo. Isso tem a ver com a emergência da China e com a Rússia tomando outro posicionamento.
Tudo isso convergiu para o “empreitamento” do conflito e do antagonismo, de tal forma a capitalizar o descontentamento crescente e o incremento do sofrimento psíquico. As questões de saúde mental assumiram um protagonismo. De onde veio isso? Provavelmente as pessoas sofriam mais em outros momentos, mas por que agora estamos tão orientados para isso?
Os diagnósticos crescem, as reformas nos sistemas (DSM, CID) acontecem. Isso ocorre porque as pessoas sentem que precisam de uma mudança rápida na velocidade digital, mas não sabem o que aconteceu nem quem é o culpado. Quando olhamos para o mundo com essa pergunta, surgem as respostas: “Prendam os suspeitos de sempre”. Atacam-se as minorias, os imigrantes, os negros, as mulheres — todos os culpados históricos. Creio que 2008 é a epigênese dessa transformação.
Nos EUA, existe a construção do imigrante como aquele que prejudica a estabilidade do país e o direito de todos usufruírem do Estado?
Há uma noção que trabalhamos no Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise que é a “narrativa de sofrimento”. Como criamos uma história ou interpretação sobre a causalidade social, política e psíquica para lidar com transformações? Temos duas teorias de sofrimento em concorrência.
Uma diz: “Estamos sofrendo porque um pacto não foi cumprido”. Foi uma promessa que falhou, alguém está roubando no pacto. Sofremos procurando o traidor, o inimigo oculto, interno ou externo.
A hipótese concorrente é mais complexa: “Não é que os pactos não estão dando certo; é que a ideia de pacto está errada”. Sofremos porque há uma dissolução do mundo. A ordem, a cosmologia, ou aquilo que produzia a promessa de um mundo globalizado está se dissolvendo. De tempos em tempos, a unidade do “todos juntos” se dissolve e não sabemos o que virá depois.
A ONU, por exemplo, dissolveu-se. Depois de Gaza, ficou claro que ela não está cumprindo o combinado do pós-guerra. A ideia de “crescer o bolo para depois distribuir” também não funcionou. O que vem no lugar? Não sei. Vem o “clubinho Trump” para administrar Gaza? É a Riviera? A imaginação política e a capacidade de sobreviver em um universo de insegurança ontológica dói.
Quem é você quando o mundo está se dissolvendo? Aí vem uma temática realista confirmando: essa dissolução tem materialização concreta na crise ecológica, demográfica e na possibilidade de o antropoceno ser um projeto suicida.
Mesmo diante disso, vemos certa “idolatria” ao Donald Trump. No Brasil, por exemplo, ele é tido por uma parcela da população como referência. De onde vem esse sentimento? Isso se explica pela psicanálise?
É uma combinação entre psicanálise, teorias críticas e uma leitura da nossa dificuldade. Há uma interpretação brasileira de uma falência institucional. O Estado não funciona, não entregou o prometido. Isso inclui tanto a ala crítica quanto o moralismo que propaga o pessimismo e a escatologia para vender o apocalipse e a salvação (seja ideológica ou religiosa).
Essa sobreposição leva à ideia de recorrer a um herói salvador. Há um desejo de herói quando você chega vivo em casa e não foi assaltado, ou quando percebe iniquidades e indiferença. Esse sentimento é ruim e esquerda e direita acabaram compactuando no diagnóstico de que “está tudo péssimo”. Daí vem alguém e diz: “Vamos acabar com o Estado”.
Some-se a isso o fato de que consumimos lixo industrial narrativo há pelo menos 15 anos. No cinema, só vemos histórias de heróis: Vingadores, Liga da Justiça, Wolverine, etc. Fomos criados sob a narrativa de que uma pessoa muito poderosa vai operar a grande transformação. Depois da narrativa, você cria o personagem e surgem os piores: aqueles que respondem a esse imaginário distraído.
A nossa fé no herói salvador, do ponto de vista psicanalítico, é banal. Começa nos pais, nos cuidadores que impediram nossa morte quando pequenos e exerceram autoridade. Você nasce e alguém diz: “Tira o dedo da tomada”. Você aceita essa autoridade familiar. Mais tarde, alguém diz: “Eu sou o sucessor daquele”. Você vê barbáries públicas com traços privados: “Fui atleta, entendo de tudo, quem está comigo é minha família (Ivana, os filhos, Elon Musk)”. É uma estrutura familiar que se aproveita da ideia de que esse “saber comum” é superior ao saber dos especialistas e da ciência. É a “força espontânea”. Aí dá errado.
O discurso de que “estamos em família” dialoga com o espírito da nossa criação?
Perfeitamente. Isso não é uma invenção contemporânea; está na política moderna. O Príncipe de Maquiavel é um pai fervoroso. O pai cruel que Freud descreve na figura do Supereu identifica a lei da família com a lei pública.
Esse processo não é inteiramente falso, descreve como nos socializamos. O que é falso é a identificação sem mediações. Você passa direto do privado para o público sem passar pelas instituições, pela ciência ou pela crítica da razão. Por que as pessoas aceitam isso? Porque as mediações tornam o poder opaco e a autoridade distante. Elas desejam “repessoalizar” o poder. Isso está na origem do autoritarismo e do fascismo.
Estamos condicionados a achar que apenas discursos oficiais valem, mas a manipulação subjetiva acontece de forma mais silenciosa? Precisamos de um olhar sensível sobre essas outras formas de influência?
Sim. Há um entroncamento com as transformações de linguagem da vida digital. Temos ilusões elementares. Antigamente, a propaganda era: “Acredite no Banco do Brasil, uma instituição sólida”. As pessoas acreditavam nessa gramática. Hoje temos algo diferente: “Recebi no WhatsApp, então é verdade”. Se tem 5 mil curtidas, a pessoa acha que é representativo do mundo. Todos sabem o que são bolhas e algoritmos, mas se enganam mesmo assim.
A manipulação dos afetos de indignação e medo é potente: “O vilão está vindo, estou com medo”. Depois, entrega-se o Capitão América ou o Batman. Isso foi potencializado pela alienação das transições culturais. Quando o livro se tornou acessível, surgiu o romance romântico. Feministas criticam o amor romântico porque ele replica desigualdades, mas ele era uma tecnologia de subjetividade da época.
Hoje, as tecnologias são as religiões do sucesso, do empreendedorismo e do resultado fácil. Demora um tempo para entendermos que uma gramática de sofrimento se dissolveu e outra está em formação.
Enquanto isso, as pessoas entram no negacionismo. Estamos desprotegidos de marcos legais e boas práticas. Talvez não seja legal expor crianças ou usar transtornos como autismo para alavancar a política. Daqui a 10 anos olharemos e veremos quanta gente caiu em “pirâmides” ideológicas. A psicanálise tem algo importante a dizer porque parte de uma subjetividade que não é baseada em modelos ou essências positivas, mas na negatividade e na crítica.
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