Vereador bolsonarista afastado por desvio de milhões de verba da “Corrida Bom Jesus”, se diz católico fervoroso

Vereador bolsonarista afastado por desvio de milhões de verba da “Corrida Bom Jesus”, se diz católico fervoroso

O vereador bolsonarista Francisco Carlos Silveira, conhecido como Chico 2000, foi afastado do mandato após se tornar alvo da Operação Gorjeta, que investiga o desvio de cerca de R$ 3,5 milhões em recursos públicos em Cuiabá (MT). Entre os valores sob apuração estão emendas parlamentares destinadas à 36ª edição da Corrida do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, realizada em abril de 2025, conforme informações do colunista Paulo Cappelli, do Metrópoles.

De acordo com o site oficial da Câmara Municipal, Chico 2000 é filiado ao Partido Liberal (PL), de Jair Bolsonaro. O diretório estadual da sigla, no entanto, afirma que o parlamentar deixou o partido no ano passado, após o surgimento de suspeitas de ilegalidades.

Segundo a decisão judicial, a Corrida do Senhor Bom Jesus teria sido usada como instrumento para a prática de irregularidades por meio de uma emenda parlamentar de R$ 600 mil apresentada pelo vereador. Oficialmente, os recursos foram destinados ao Instituto Brasil Central (Ibrace), responsável pela execução do evento.

As investigações indicam, porém, que o instituto atuou apenas como intermediário. Fundado em 2021, o Ibrace é uma associação privada sem fins lucrativos, presidida por Alex Jony Silva, que declara atuar na “promoção da cidadania, da inclusão social e do fortalecimento comunitário, com foco em ações sociais, esportivas, culturais e educacionais”.

Chico 2000 se apresenta publicamente como católico apostólico romano. A Corrida do Senhor Bom Jesus é um evento religioso tradicional em Cuiabá, integra o calendário oficial da cidade e reúne milhares de participantes todos os anos.

Em 2024, ainda filiado ao PL, o vereador entregou a Medalha da Ordem do Mérito Legislativo ao ex-presidente Jair Bolsonaro, em homenagem concedida pela Câmara Municipal de Cuiabá.

Repasses e mensagens investigadas

A Polícia Civil apurou que, pouco após o recebimento da emenda, cerca de R$ 580 mil foram transferidos pelo Ibrace à empresa Sem Limite Esporte e Eventos, controlada por João Nery Chiroli. Para os investigadores, a empresa era a verdadeira responsável pela organização das corridas.

Mensagens de WhatsApp obtidas pela perícia mostram proximidade entre o empresário e Chico 2000. Nas conversas, trocadas meses antes da formalização dos contratos, ambos discutiam a realização das provas esportivas. O inquérito aponta que Chiroli atuava informalmente como representante do instituto.

Saques em dinheiro e falhas formais

Relatórios financeiros analisados pela investigação revelam saques fracionados em dinheiro e transferências para dirigentes do instituto. Uma das movimentações, no valor de R$ 20 mil via Pix, teria relação com despesas pessoais do vereador. Outro ponto levantado é que o repasse ocorreu no dia seguinte ao recebimento dos recursos pela empresa contratada.

A decisão judicial também aponta irregularidades formais, como a abertura de inscrições para a corrida antes do fechamento dos contratos, o uso de atestados de capacidade técnica considerados irregulares e a assinatura de documentos pelo próprio vereador, prática vedada pelas normas administrativas.

Outros eventos e medidas judiciais

Segundo a Polícia Civil, os recursos repassados ao Ibrace foram usados majoritariamente na organização de corridas de rua por meio de Termos de Fomento firmados com a Secretaria Municipal de Esportes. Além da Corrida do Senhor Bom Jesus, a investigação cita a Corrida do Legislativo Cuiabano e outros eventos esportivos.

A Justiça autorizou o cumprimento de 75 ordens judiciais, incluindo 12 mandados de busca e apreensão e 12 autorizações para acesso a dados armazenados em celulares e outros dispositivos eletrônicos. Também foram alvos da operação servidores públicos, empresários, assessores parlamentares e o presidente do instituto.

O juiz responsável negou os pedidos de prisão preventiva contra Chico 2000 e outros investigados. Em substituição, determinou o afastamento cautelar do mandato e o bloqueio de bens, enquanto as diligências seguem em andamento.

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