Lobby trilionário da mineração avança sobre terras indígenas e transforma Amazônia em ‘zona de sacrifício’

Lobby trilionário da mineração avança sobre terras indígenas e transforma Amazônia em ‘zona de sacrifício’

Sob o argumento da ‘transição energética’, empresas mineradoras ameaçam comunidades indígenas para explorar minerais críticos

Oaumento da busca pelos chamados minerais críticos ou estratégicos tem elevado também as ameaças ao meio ambiente, sobretudo à Amazônia. Enquanto o debate sobre transição energética vem acompanhado de discursos sobre sustentabilidade, na prática, muitas empresas têm utilizado desse argumento para investir em mais projetos de mineração em terras indígenas, transformando a Amazônia em “zona de sacrifício”.

Isso é o que aponta o novo relatório da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), “Desmascarando o Lobby Mineral em Terras Indígenas no Brasil”, lançado nesta quarta-feira (8) durante o Acampamento Terra Livre (ATL), que reúne centenas de indígenas em Brasília para pressionar o governo a ampliar e proteger direitos dos povos tradicionais.

O documento aponta que a nova conjuntura global cria um novo e perigoso desafio que consiste na ocupação do debate climático por empresas mineradoras, grandes corporações de tecnologia, grupos políticos e instituições financeiras que utilizam do “discurso verde” para expandir projetos de mineração sobre TIs e áreas de alta biodiversidade.

De acordo com o relatório, mais de .1300 pedidos de licença para exploração na Amazônia estão sob terras indígenas. Desse total, 390 têm sobreposição integral sobre esses territórios. Os demais estão a uma distância de até 10 km. “Isso representa um alerta direto sobre uma disputa de poder em andamento com graves impactos para os direitos indígenas”, afirma a entidade.

O levantamento da Apib desmascara a virada discursiva das elites políticas, que antes apontavam a mineração como um problema e hoje apresentam o setor como a grande solução indispensável para a descarbonização global. A partir de um “sofisticado aparato de captura institucional”, de acordo com a entidade, esses grupos constroem um lobby mineral que busca reposicionar o Brasil como uma plataforma de exportação de commodities “verdes” às custas de territórios ancestrais.

Lobby trilionário ameaças terras indígenas

A denúncia toma como base uma série de estudos, dentre eles o relatório Mining e Money, da Coalizão Florestas & Finanças, que revela que, entre 2016 e 2024, quase meio trilhão de dólares (US$493 bilhões, cerca de R$2.49 trilhões) foram injetados em créditos para empresas de mineração focadas em minerais de transição por grandes bancos globais.

O mesmo relatório ainda aponta que quase 70% das minas de minerais de transição ao redor do mundo se sobrepõem a terras indígenas ou comunidades tradicionais, e 71% estão em regiões de alta biodiversidade.

Nesse cenário, o Brasil se posiciona como um  alvo prioritário. O estado do Pará, por exemplo, foi identificado como a região de mineração mais vulnerável climaticamente, seguido por Minas Gerais.

“A corrida mundial por uma transição energética supostamente limpa está replicando padrões coloniais de exploração e sendo financiada por grandes cadeias de investimento. O que se vende como “futuro verde” é, na prática, uma nova rodada de acumulação de capital baseada na espoliação de territórios indígenas e zonas de alta biodiversidade”, afirma a Apib.

Amazônia como “zona de sacrifício”

Essa expansão pela busca de minérios estratégicos transformam regiões com alta biodiversidade e presença de minérios em “zonas de sacrifício”, como é o caso da Amazônia.

As zonas de sacrifício são locais extremamente poluídos ou degradados devido a atividades como mineração ou de indústrias termoelétricas e petroquímicas.

Empresas que lucram com a destruição ambiental

O relatório ainda mostra quais as principais empresas beneficiadas com a mineração. São elas:  Glencore, BHP e Vale S.A. A Apib aponta que apesar do histórico de  crimes ambientais e violações de direitos, essas empresas continuam lucrando com atividades que degradam o meio ambiente.

No Brasil, de acordo com o relatório Mining & Money,  a Vale assegurou US$27 bilhões em financiamento devido ao seu papel estratégico nas cadeias de ferro, níquel, cobre e cobalto, mesmo após os crimes ambientais de  Mariana e Brumadinho.

O estudo aponta que entre 2016 e 2024, 14 bancos forneceram, cada um, mais de meio bilhão de dólares em crédito para as operações da Vale no Brasil. Investidores como BlackRock, Capital Group e Vanguard detêm, juntos, bilhões de dólares em papéis da empresa. 27

“Essas corporações ganham duas vezes: lucram com a commodity valorizada pela crise climática e lucram com a especulação financeira de seus ativos, enquanto externalizam os custos sociais e ambientais para nós, povos indígenas e comunidades locais”, afirma a Apib.

O relatório da Apib na íntegra pode ser acessado por este link.

Por Júlia Motta

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