A convocação da Seleção Brasileira, nesta segunda-feira (18), escancara um assunto pouco debatido no futebol nacional: a influência dos empresários de jogadores sobre o mercado e os bastidores da CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Por trás dos nomes a serem chamados, um personagem aparece frequentemente sem sequer entrar em campo. Trata-se de Giuliano Bertolucci, considerado hoje o homem mais poderoso do futebol brasileiro.
Aos 53 anos, o bilionário empresário paulista lidera pelo 12º ano consecutivo o mercado de transferências no futebol. Somente na última janela internacional, os negócios envolvendo seus atletas ultrapassaram R$ 2 bilhões.
Levantamentos publicados nos últimos anos mostram que Bertolucci concentra uma parcela expressiva dos jogadores que vão para a Seleção. Em listas recentes, ele chegou a controlar a carreira de oito dos 26 convocados, algo próximo de 30%. Nenhum outro empresário se aproxima desse número.
O agente é o maior credor dos times brasileiros, acumulando mais de R$ 300 milhões em valores a receber de grandes clubes como Corinthians, São Paulo, Fluminense, Vasco e Atlético-MG, referentes a intermediações de transferências e empréstimos feitos nos últimos anos. Em 2016, ele já era apontado pela revista inglesa FourFourTwo como o sexto empresário mais influente do futebol mundial.
Entre os atletas ligados a Bertolucci que vêm aparecendo nas convocações estão Marquinhos, Gabriel Magalhães, Bruno Guimarães, Matheus Cunha, Vanderson, João Pedro, Guilherme Arana, Andreas Pereira, Andrey Santos, Pedro e Caio Henrique. Muitos torcedores não entendem a presença constante da maioria desses nomes, que atravessam diferentes ciclos de treinadores e gestões da CBF. É porque eles não conhecem o tamanho do prestígio de Bertolucci.
Discreto e avesso aos holofotes, o bilionário raramente concede entrevistas e quase nunca aparece publicamente. Mesmo assim, dirigentes, empresários e pessoas ligadas ao mercado o descrevem como uma figura central nas negociações envolvendo clubes brasileiros e europeus, especialmente da Inglaterra. “Com o Giuliano nem precisamos assinar, a palavra dele basta”, disse ao Globo Esporte um importante dirigente sob reserva.
Quem é Giuliano Bertolucci
Nascido em São Paulo, Giuliano Pacheco Bertolucci é herdeiro da família controladora da Lorenzetti, gigante do setor de chuveiros e equipamentos elétricos. Seu pai, Antonio Bertolucci, morreu em 2011, aos 68 anos, atropelado por um ônibus na capital paulista quando presidia o Conselho de Administração da empresa.
Sua entrada no futebol ocorreu nos anos 1990, quando passou a atuar ao lado do sogro, então proprietário da Euro Export, que detinha o controle das categorias de base do Juventus da Mooca.
Foi nesse ambiente que Bertolucci iniciou contatos internacionais e passou a trabalhar ao lado de André Cury, amigo de infância com quem treinava basquete nos clubes Pinheiros e Esperia, em São Paulo. Os dois participaram de diversas negociações envolvendo jovens brasileiros rumo ao futebol europeu e ajudaram a abrir mercado para atletas que depois ganharam projeção internacional, como Deco, Thiago Motta, Luisão e o zagueiro Alex, revelado pelo Santos.
“Eu vivo o futebol, vejo jogos quase todos os dias, tenho que viajar muito para poder estar no mercado na hora certa e principalmente saber as necessidades do time e oferecer o atleta certo para o clube, sabendo que existe um setor de rendimento que irá analisar tudo do jogador”, afirmou Bertolucci ao Globo Esporte em 2023.
A ascensão do bilionário coincidiu com mudanças estruturais no futebol internacional nos anos 1990. A criação da Premier League e da Liga dos Campeões em novos moldes comerciais, somada ao fim do passe após a Lei Bosman, ampliou o poder dos empresários nas negociações, com jogadores mais livres para definir seus destinos e um mercado cada vez mais globalizado.
Mais tarde, ele ampliou sua presença internacional em operações bilionárias, como a transferência de Philippe Coutinho ao Barcelona e a ida de Oscar para o futebol chinês. Também participou, ao lado de André Cury, da complexa negociação que levou Neymar ao Barcelona em 2013, uma das mais caras da história do esporte.
Muito além das convocações
A influência do agente ultrapassa a representação de atletas. Segundo relatos publicados por dirigentes e pessoas do mercado, Bertolucci costuma participar de negociações até mesmo de jogadores que não fazem parte oficialmente de sua carteira. Sua conexão com clubes da Premier League o transformou em uma espécie de ponte frequente entre o futebol brasileiro e o mercado inglês.
Em 2025, o empresário voltou a liderar o mercado nacional de transferências. Entre as principais operações estavam a ida de Matheus Cunha para o Manchester United e negociações envolvendo Palmeiras, Botafogo e Nottingham Forest.
Bertolucci também expandiu sua atuação para dentro dos clubes. Sua família controla a SAF (Sociedade Anônima do Futebol) da Ferroviária, tradicional clube de Araraquara (SP). O projeto inclui investimentos milionários em estrutura, categorias de base e centro de treinamento. A ideia é transformar o clube em uma plataforma de formação e valorização de jovens atletas.
Enquanto técnicos mudam, times se reformulam e a CBF atravessa crises constantes, Giuliano Bertolucci segue onde está desde os anos 1990: controlando os bastidores do futebol. Sem dar entrevistas frequentes e longe das câmeras, ele consolidou uma influência rara no esporte nacional. A convocação desta segunda-feira (18), mostra novamente que parte importante da Seleção Brasileira passa, direta ou indiretamente, pelas mãos do empresário mais poderoso do país.
Por Davi Nogueira
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