Como Trump moldou a ascensão de Abelardo de la Espriella, presidente eleito da Colômbia

Como Trump moldou a ascensão de Abelardo de la Espriella, presidente eleito da Colômbia

A vitória de Abelardo de la Espriella na eleição presidencial colombiana não representa apenas uma mudança de governo. Ela marca a chegada ao poder de um político cuja vida, fortuna, negócios e relações políticas foram construídos em grande parte nos Estados Unidos.

Advogado conhecido por defender figuras controversas da política e do empresariado colombiano, empresário, cantor e agora presidente eleito, De la Espriella cultivou durante décadas uma estreita ligação com os EUA. Viveu no país por anos, teve seus quatro filhos em território americano, obteve a cidadania dos Estados Unidos em 2023, investiu milhões de dólares na Flórida e se tornou um aliado declarado do presidente americano Donald Trump e do Partido Republicano.

Sua trajetória ajuda a explicar por que sua eleição está sendo vista como um possível ponto de inflexão na relação entre Bogotá e Washington.

Campanha em Miami e apoio do círculo de Trump

Um dos episódios mais simbólicos da campanha ocorreu em 7 de março de 2026, um dia antes das eleições legislativas colombianas.

Enquanto candidatos permaneciam submetidos às restrições da legislação eleitoral colombiana, De la Espriella apareceu em Miami participando de um evento político-religioso organizado pela MCI Church, uma igreja cristã fundada por colombianos e presente em diversos países.

Diante de centenas de apoiadores, foi recebido como uma celebridade.

“Miami, aqui está o seu tigre que ruge e que morde”, declarou, usando o apelido que adotou durante a campanha.

A presença nos Estados Unidos tinha uma vantagem estratégica: permitia que ele continuasse mobilizando apoiadores sem infringir as regras que limitam atos eleitorais na semana anterior às votações na Colômbia.

Na mesma noite, publicou uma foto ao lado da deputada republicana Maria Elvira Salazar e do subsecretário de Estado americano Christopher Landau.

Embora a amizade com Salazar fosse conhecida, a presença de Landau foi interpretada como um sinal de simpatia do governo Trump por sua candidatura.

Meses depois, a impressão foi confirmada quando Trump divulgou uma mensagem pública de apoio classificando De la Espriella como um líder “forte, inteligente e firme”.

O presidente americano afirmou que a eleição colombiana seria decisiva para o futuro da relação entre os dois países e atacou diretamente o rival do advogado, o senador de esquerda Iván Cepeda, chamado por Trump de “marxista radical”.

De vendedor de esmeraldas a milionário internacional

A ligação de De la Espriella com os Estados Unidos começou muito antes da política.

Segundo relatos publicados em sua biografia, quando ainda era estudante universitário ele realizava frequentes viagens a Miami e Nova York para vender esmeraldas colombianas.

Em entrevista ao estrategista político Ángel Beccassino, contou que lucrava entre US$ 2 mil e US$ 3 mil por viagem, valor elevado para um jovem de 19 anos na época.

O então estudante descreveu uma rotina de luxo em Manhattan, hospedando-se no famoso hotel Waldorf Astoria e frequentando restaurantes sofisticados.

Mais tarde, consolidou sua carreira como advogado na Colômbia, representando empresários, celebridades e políticos envolvidos em escândalos nacionais.

Mas os laços com os EUA nunca foram rompidos.

Investigações da imprensa colombiana mostram que ele e sua esposa, Ana Lucía Pineda, adquiriram uma mansão avaliada em aproximadamente US$ 5,1 milhões em Miami.

Além disso, entre 2013 e 2023, seu nome apareceu em documentos de pelo menos 14 empresas registradas na Flórida.

Os negócios incluíam:

  • Uma filial americana de seu escritório de advocacia;
  • Empresas imobiliárias;
  • Companhias de investimentos;
  • Negócios de entretenimento;
  • Um restaurante em Coral Gables;
  • Empreendimentos voltados ao setor gastronômico.

Documentos divulgados por veículos de investigação também apontam que ele foi proprietário de um apartamento na luxuosa região de Brickell, um dos endereços mais valorizados de Miami.

O advogado virou cantor nos Estados Unidos

A vida americana de De la Espriella não se limitou aos negócios.

Em 2023, ele decidiu investir em uma carreira artística.

Naquele ano inaugurou um restaurante em Coral Gables ao lado do cantor porto-riquenho Gilberto Santa Rosa e do astro colombiano Silvestre Dangond.

Pouco depois lançou o álbum “Navegante”.

O disco reúne clássicos internacionais interpretados por ele, incluindo canções associadas a Frank Sinatra e Édith Piaf.

Para promover o projeto, realizou um show em Doral, cidade da região metropolitana de Miami conhecida pela forte presença de imigrantes latino-americanos.

Nas redes sociais, também compartilhava fotos celebrando o Dia de Ação de Graças, assistindo a jogos do Miami Heat e recebendo em sua casa visitantes ilustres, entre eles o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe.

Cidadão dos EUA e presidente da Colômbia

Uma das maiores polêmicas da campanha surgiu quando veio à tona sua naturalização americana.

Em fevereiro de 2023, De la Espriella publicou uma fotografia segurando a bandeira dos Estados Unidos e seu certificado de cidadania.

Na legenda, elogiou os EUA como “a terra das oportunidades” e afirmou que o país oferecia a tranquilidade que ele não encontrava na Colômbia devido às ameaças de segurança que dizia sofrer.

O tema rapidamente se transformou em munição política.

O então presidente colombiano Gustavo Petro questionou publicamente se alguém que jurou fidelidade aos Estados Unidos poderia governar a Colômbia sem conflitos de interesse.

A discussão ganhou força quando um grupo de 20 juristas, professores de Direito e ex-magistrados divulgou um documento argumentando que a cidadania americana poderia ser incompatível com a Presidência da República.

O principal argumento está no juramento exigido durante a naturalização, pelo qual o novo cidadão se compromete a renunciar à lealdade a outros Estados e a defender os interesses americanos.

Segundo os juristas, isso poderia criar conflitos em situações envolvendo política externa, defesa nacional ou disputas diplomáticas.

A campanha respondeu classificando a tese como uma manobra política ligada ao governo Petro.

De la Espriella insistiu que sua única lealdade é à Colômbia e aos colombianos.

Mesmo assim, especialistas avaliam que sua posse ainda pode gerar questionamentos jurídicos e processos judiciais.

O colombiano mais próximo de Trump

Como Trump moldou a ascensão de Abelardo de la Espriella, presidente eleito da Colômbia
Trump parabeniza Abelardo de la Espriella após vitória. Foto: Reprodução

Se existe uma figura política que inspira De la Espriella, essa figura é Donald Trump.

O agora presidente eleito já afirmou diversas vezes que votou em Trump e que mantém boas relações com o Partido Republicano.

Registros oficiais dos Estados Unidos mostram que ele fez doações financeiras para campanhas republicanas e para campanhas presidenciais de Trump em diferentes eleições.

Sua relação com a deputada republicana Maria Elvira Salazar é especialmente próxima.

Durante a campanha colombiana, ela declarou publicamente apoio ao amigo, descrevendo-o como um aliado dos Estados Unidos.

Outra figura central é o secretário de Estado Marco Rubio.

De la Espriella esteve presente em sua posse e costuma descrevê-lo como um grande amigo da Colômbia.

As afinidades não são apenas pessoais.

Seu programa de governo incorpora diversas bandeiras semelhantes às defendidas por Trump, especialmente nas áreas de imigração, segurança e combate ao narcotráfico.

Uma das propostas mais emblemáticas é a criação de um “Plano Colômbia 2.0”, financiado pelos Estados Unidos e por Israel.

O projeto busca retomar políticas de erradicação forçada de plantações de coca abandonadas durante o governo Petro.

Acusações, suspeitas e controvérsias

A proximidade com Washington também trouxe problemas.

Poucos dias antes do segundo turno, 11 parlamentares democratas americanos enviaram uma carta às autoridades dos EUA pedindo investigações sobre supostos vínculos de De la Espriella com grupos paramilitares e com o empresário colombiano Álex Saab.

Saab, acusado de lavagem de dinheiro e apontado como operador financeiro do governo de Nicolás Maduro, foi cliente do advogado durante anos.

Os parlamentares também questionaram transações imobiliárias e empresariais realizadas na Flórida.

Além disso, reportagens do jornalista colombiano Daniel Coronell revelaram documentos indicando que empresas associadas a Saab teriam transferido centenas de milhares de dólares para estruturas ligadas ao atual presidente eleito.

De la Espriella rejeita todas as acusações.

Afirma que atuou apenas como advogado e que nunca participou de qualquer atividade ilegal.

Até hoje, nenhuma das suspeitas foi comprovada judicialmente nos Estados Unidos ou na Colômbia.

O voto dos colombianos nos EUA foi decisivo

A influência americana sobre a eleição não se limitou ao candidato.

Os colombianos residentes nos Estados Unidos deram a De la Espriella uma vantagem esmagadora.

No primeiro turno, ele recebeu cerca de 72% dos votos registrados nos consulados colombianos em território americano.

No segundo turno, esse índice chegou a impressionantes 80%.

Durante a campanha, simpatizantes organizaram manifestações em frente aos consulados usando camisetas, bandeiras e fantasias de tigre, símbolo do candidato.

O próprio Petro chegou a afirmar que a votação dos colombianos no exterior, especialmente nos Estados Unidos, foi determinante para o resultado eleitoral.

Caso a vitória seja confirmada definitivamente pelo escrutínio oficial, a Colômbia passará a ser governada por um presidente que construiu boa parte de sua vida pessoal, patrimônio, negócios e alianças políticas nos Estados Unidos. A partir de agosto, a grande questão será até que ponto essa relação privilegiada com Washington e com Donald Trump influenciará os rumos do novo governo colombiano. As informações são do DCM

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