Todo vilão verdadeiramente poderoso vive acima das misérias cotidianas. Nunca veremos o Coringa, por exemplo, tentando cancelar uma assinatura de aplicativo.
Mas o Big Brother, apesar desses privilégios, tinha que vigiar tudo. O cidadão espirrava e já aparecia um funcionário do Ministério da Verdade com uma advertência ideológica. Imagine o Big Brother moderando grupo de condomínio no WhatsApp: “Boa noite, camaradas. O morador do 702 continua colocando o lixo fora do horário. As medidas corretivas começarão às seis.” Orwell não escreveu ficção científica. Apenas antecipou a administração predial.
Já o Capitão Ahab passou um romance inteiro perseguindo uma baleia. Uma baleia. Hoje seria comentarista de rede social. Ahab não queria pescar Moby Dick. Queria cancelar Moby Dick.
E o Capitão Gancho? Um homem traumatizado por um jacaré que engoliu um relógio. Convenhamos: qualquer sujeito perseguido por um réptil entalado tem motivos para desenvolver problemas emocionais. Peter Pan voava, não envelhecia e ainda fazia bullying com sotaque britânico. Gancho era, na verdade, a vítima.
Grendel, o monstro de Beowulf, aterrorizava aldeias porque não suportava barulho de festa. Ou seja: o primeiro vizinho do mundo. Se existisse hoje, chamaria a polícia às oito da noite porque alguém resolveu ouvir pagode.
Iago é o colega de trabalho definitivo. O homem que pergunta “tudo bem?” já preparando a sua demissão. Shakespeare inventou Iago muitos séculos antes do RH moderno.
Satanás, claro, é o campeão do marketing pessoal. Conseguiu transformar uma expulsão traumática numa franquia multimilenar.
Mas existe uma categoria de vilão muito mais assustadora do que o gênio do mal: o burro do mal.
O inteligente ainda calcula consequências. Faz planos. Esconde pistas. A cavalgadura perigosa não. Ela avança contra a lógica como um rinoceronte.
É aí que entra o personagem vivido por Jim Caviezel em Dark Horse.
Perto dele, Hannibal Lecter parece um professor de ioga. Darth Vader um servidor concursado. Iago ao menos elaborava intrigas sofisticadas. O vilão de Caviezel tem outra metodologia: a ausência completa de metodologia. E justamente por isso assusta.
Há algo aterrorizante num homem que toma decisões erradas com absoluta confiança. O personagem de Caviezel transmite exatamente isso: a energia de alguém que entraria armado numa discussão sobre troco de estacionamento e sairia convencido de que estava salvando a civilização ocidental.
No fundo, os grandes vilões queriam dominar o mundo. O Jair Bolsonaro, de Caviezel, parece incapaz até de localizar o mundo no mapa. E talvez seja exatamente esse o problema.
Por Carlos Castelo
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