Enquanto a bola rola, o mundo arde

Enquanto a bola rola, o mundo arde

O esporte deixa de ser apenas competição e passa a ser instrumento de poder, muitas vezes utilizado para fins que tangenciam, ou mesmo violam, direitos humanos fundamentais

Começou a 23ª Copa do Mundo de Futebol. Começou, e não vai parar, mesmo com o mundo mergulhado em um estado permanente de beligerância. Quando se fala em Copa do Mundo, em esporte de alto rendimento e resultados, é preciso olhar além da superfície. Sem drones, mas com filtros críticos. Se você acredita que Neymar e sua trupe ganham muito, é porque, nos bastidores, há quem ganhe ainda mais: clubes, SAFs, conglomerados midiáticos, agentes, empresários e patrocinadores. No fim das contas, é o capitalismo o verdadeiro dono da bola, é ele quem escala o time, define quem joga e, muitas vezes, quem vence.

Ao meu sentir, não deveria. Entretanto, a realidade aponta em outra direção. Um dos países-sede é, paradoxalmente, protagonista de ações que tensionam a ordem mundial: bombardeia nações, financia intervenções em Estados soberanos e impõe sanções econômicas conforme os próprios interesses. A lógica parece simples e brutal: “dê a Trump o que é de Trump, e às colônias o que restar”. Ainda assim, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, concedeu a Donald Trump o chamado “Prêmio da Paz da Fifa”, sob o lema de que o futebol une o mundo.

Em contraste, a Rússia, corretamente sancionada após a invasão da Ucrânia, permanece banida das competições olímpicas e do futebol internacional. A coerência dessas decisões, no entanto, suscita questionamentos. Quem define os critérios? E a quem eles realmente servem?

Essa promiscuidade entre esporte e poder está longe de ser recente. A série Brasil 70: A Saga do Tri, disponível na Netflix, resgata um episódio emblemático: “nos anos de chumbo”, às vésperas da Copa de 1970, o técnico João Saldanha recusou-se a atender a um pedido do então presidente Emílio Garrastazu Médici para convocar Dadá Maravilha. Sua resposta tornou-se histórica: “Nem eu escalo o ministério, nem o presidente escala o time”. O resultado foi sua demissão. Abalados, mesmo assim os jogadores seguiram em campo, e o Brasil tornou-se tricampeão mundial. “Pra frente Brasil, salve a Seleção”.

Dois anos depois, nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, o mundo assistiu a uma tragédia: um ataque terrorista vitimou atletas israelenses dentro da Vila Olímpica. Após uma breve suspensão e uma cerimônia memorial, os Jogos continuaram. O então presidente do COI, Avery Brundage, sintetizou a decisão com a frase que ecoa até hoje: “Os Jogos devem continuar”.

E continuam. Mas, talvez, não devessem. A lógica que sustenta essa continuidade já não é a celebração do espírito esportivo, mas a preservação de interesses econômicos. A ganância, não por medalhas, mas por lucro, distorce o sentido do esporte.

Em um cenário marcado por impulsos imperialistas e expansionistas, a promessa de que “a América (EUA) será grande novamente” parece justificar práticas que excluem, discriminam e violentam. O governo iraniano, recentemente alvo de ataques, denuncia a negativa de vistos para membros de sua delegação, restrições a torcedores e limitações severas de circulação. O árbitro Omar Artan, eleito o melhor da África em 2025, foi impedido de entrar nos Estados Unidos. A jornalista brasileira Karine Alves relatou abordagem racista ao chegar ao país, sendo submetida a um procedimento humilhante, exigido, segundo ela, apenas de mulheres negras.

Não se trata de uma nova ordem mundial, mas da manutenção de uma lógica antiga: nações que negociam sua soberania em troca de inserção no circuito do capital global. O esporte, nesse contexto, deixa de ser apenas competição e passa a ser instrumento de poder, muitas vezes utilizado para fins que tangenciam, ou mesmo violam, direitos humanos fundamentais.

Diante disso, resta a pergunta incômoda: como o Brasil responde a esse cenário? Permaneceremos espectadores passivos, encantados pelo espetáculo? Ou, no fim, tudo se resume a saber se Neymar vai jogar?

Por Ricardo Nogueira Viana

Veja também

Segurança Pública do Acre passa a integrar Projeto Humanize em parceria com o Tribunal de Justiça

Segurança Pública do Acre passa a integrar Projeto Humanize em parceria com o Tribunal de Justiça

A Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública do Acre (Sejusp) formalizou, nesta sexta-feira, …

Powered by atecplugins.com