As novas tarifas dos Estados Unidos não atingem apenas o Brasil. Elas representam uma ofensiva contra o sistema multilateral de comércio e aceleram a construção de uma ordem internacional multipolar
As novas tarifas impostas por Donald Trump não representam uma ofensiva dirigida exclusivamente ao Brasil. Trata-se de uma guerra comercial de alcance global. O Brasil apenas integra uma lista de cerca de 60 países atingidos, entre eles Taiwan, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido, Suíça e toda a União Europeia — justamente alguns dos mais tradicionais aliados dos Estados Unidos.
A medida revela uma mudança profunda na política comercial dos Estados Unidos. O governo Trump rompe com os princípios do sistema multilateral construído após a Segunda Guerra Mundial e substitui a negociação entre Estados pela imposição unilateral da força econômica. As tarifas deixam de ser um instrumento de proteção circunstancial da indústria e passam a funcionar como arma de pressão política e geopolítica.
Além da tarifa de 25%, os Estados Unidos acrescentaram mais 12,5% sobre diversos produtos, elevando a carga para 37,5% em inúmeros casos. Segundo o representante comercial Jamieson Greer, a medida serviria para “corrigir o que é tanto uma violação dos direitos humanos quanto uma prática comercial distorcida, visando melhorar o bem-estar dos trabalhadores em todo o mundo”.
A justificativa, porém, não resiste a uma análise objetiva. Sob um discurso moralizante, procura legitimar uma política protecionista destinada a preservar a competitividade da economia estadunidense diante das transformações da economia mundial.
As novas tarifas passaram a atingir os 60 principais parceiros comerciais dos Estados Unidos, responsáveis por 99,4% de suas importações. A lista inclui aliados históricos, como Japão, Coreia do Sul, Reino Unido, Suíça, Taiwan e a União Europeia. O Brasil, portanto, não é um caso isolado. Está inserido em uma estratégia global que procura redefinir, pela força, as regras do comércio internacional.
No caso brasileiro, o governo anunciou que aplicará a Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, e recorrerá aos mecanismos de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).
A Secretaria de Comunicação da Presidência da República afirmou que, diante do caráter arbitrário e injustificado das medidas anunciadas pelos Estados Unidos, o Brasil utilizará todos os instrumentos jurídicos e diplomáticos previstos na legislação nacional e no direito internacional para defender seus interesses.
Segundo estimativas da Câmara Americana de Comércio (Amcham), aproximadamente 3 mil produtos brasileiros, correspondentes a US$ 12,5 bilhões em exportações anuais, serão atingidos pelas novas tarifas. Para 85,3% dessas vendas — cerca de US$ 10,7 bilhões — as tarifas serão cumulativas, alcançando 37,5%. Entre os setores mais afetados estão máquinas, equipamentos, madeira, móveis e calçados. Ainda assim, aproximadamente 52% das exportações brasileiras permanecerão livres das novas sobretaxas.
É compreensível que parte do setor produtivo defenda prudência. A Abimac recomenda preservar os canais de negociação, enquanto a Confederação Nacional da Indústria alerta para o risco de respostas precipitadas que possam ampliar os prejuízos econômicos.
A ponderação faz sentido, mas esbarra em um fato incontornável: foi o próprio governo dos Estados Unidos que fechou os canais de negociação ao anunciar medidas unilaterais, sem consulta, sem negociação prévia e sem fundamento técnico consistente. Ninguém escolhe o confronto quando existe espaço para o diálogo; mas também não se preserva a soberania aceitando passivamente decisões arbitrárias.
O problema, portanto, vai muito além das tarifas. Estamos diante de uma disputa pela reorganização da economia internacional. A ascensão da China, a expansão do Brics e o fortalecimento das economias emergentes vêm alterando gradualmente a correlação de forças construída após o fim da Segunda Guerra Mundial. A guerra comercial é uma tentativa de retardar essa transição histórica e preservar uma hegemonia que já não encontra o mesmo respaldo econômico de décadas atrás.
O Brics deixou de ser apenas um fórum de concertação política entre grandes países em desenvolvimento. Caminha para constituir um novo polo de poder econômico, financeiro e tecnológico, capaz de ampliar o comércio em moedas nacionais, fortalecer mecanismos próprios de financiamento, reduzir a dependência do dólar e oferecer alternativas às instituições criadas sob a liderança dos Estados Unidos no pós-guerra. É precisamente essa perspectiva que desperta crescente preocupação em Washington.
É oportuno recordar uma das formulações mais importantes da diplomacia brasileira: o pragmatismo responsável, concebido pelo chanceler Azeredo da Silveira durante o governo Geisel. O princípio continua atual: manter relações com todos os países, sem alinhamentos automáticos, tendo como referência permanente os interesses nacionais.
A guerra comercial de Trump não é contra o Brasil. É contra a emergência de um mundo multipolar. Ao atingir cerca de 60 países — responsáveis por praticamente todas as importações dos Estados Unidos —, Washington procura preservar uma hegemonia cada vez mais contestada.
Paradoxalmente, porém, essa estratégia tende a produzir o efeito inverso: acelera a aproximação entre os países emergentes, fortalece o Brics, estimula a diversificação das relações comerciais e financeiras e incentiva a construção de uma nova arquitetura econômica internacional, fundada na cooperação entre Estados soberanos e na pluralidade dos centros de decisão.
Para o Brasil, o desafio consiste em transformar essa crise em oportunidade. A resposta não deve ser o isolamento nem o confronto inconsequente, mas a reafirmação de uma política externa independente, orientada pelo pragmatismo responsável, pela diversificação de parceiros e pela defesa intransigente da soberania nacional. Em um mundo em rápida transformação, o Brasil precisa compreender que seu futuro depende menos das pressões de uma potência em declínio do que da capacidade de participar ativamente da construção da nova ordem internacional que já começa a tomar forma.
Por Paulo Cannabrava Filho
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