A “lava jato” se foi, mas o lavajatismo ficou. O “combate à corrupção” industrializou-se — da mesma forma que se faz com a desinformação, com os identitarismos, com o discurso ambiental e a imagem intergalática exagerada de grupos criminosos. Se a corrupção já foi ou é um bom negócio, vender a imagem de paladinos da justiça pode ser mais lucrativo ainda.
O dólar pode cair ou não. No mercado do oportunismo, entretanto, a demanda e a oferta de demagogia estão sempre em alta. Os negociantes do ramo seguem a mesma cartilha:
1) Aproveitam-se de um problema real, como a corrupção, a destruição da natureza ou o crime organizado;
2) Superfaturam o tamanho do problema;
3) Industrializam falsas soluções, como se fez na “lava jato”;
4) Procuram quem quer comprar suas campanhas, como a que se move contra o Supremo Tribunal Federal.
Clientela não falta. Os produtores rurais da Europa, em busca de pretexto para bloquear as vendas brasileiras; os grandes contribuintes, que, no Brasil, em matéria tributária, perdem sistematicamente para o Fisco; ou um Donald Trump, em busca de pretexto para desequilibrar a balança comercial, a seu favor — e por aí vai.
O magnata
Um dos magnatas desse negócio é o empreendedor e sacerdote de Vesta Joaquim Falcão. Sua especialidade é criar fundações altamente lucrativas que vendem em suas gôndolas filantropia, idealismo e conversa mole.
No célebre esquema “lava jato”, Falcão associou-se a Sergio Moro e procuradores da República. Com a fama de resolvedor, ele passou a vender alforria a envolvidos nas investigações — colocando ou tirando nomes do rol de alvos da autoapelidada “força-tarefa”.
Esse tipo de tramoia, narram advogados criminais que atuaram na defesa de réus de Curitiba, germinou e floresceu em célebres delações premiadas. Os produtos comercializados em questão eram também a inclusão ou exclusão de nomes. Nesse sistema de corretagem, houve também balcões de venda de felicidade — vendedores de serviços jurídicos que garantiam absolvição caso assumissem a causa.
Joaquim Falcão, em busca de novas oportunidades, está lançando o livro A Oligarquia dos Poderes e a Crise da Democracia. Ele investe furiosamente contra os Poderes Judiciário, Executivo e Legislativo. Com o mesmo vigor que as hordas golpistas usaram para invadir e depredar os principais edifícios da Praça dos Três Poderes.
Mestre do emparedamento
O autor, como descrevia o então presidente do Uruguai, Julio María Sanguinetti, é dessas pessoas que tiveram toda a paciência do mundo com a ditadura, mas nenhuma com a democracia. Falcão tornou-se conhecido como um dos pioneiros do movimento para emparedar o Supremo Tribunal Federal — que, com uma mão, tentou subordinar o tribunal a Curitiba e, com outra, eleger Jair Bolsonaro.
Assim como a “lava jato” legitimou a mentira como instrumento jurídico, o autor do livro a usa como argumento sociológico. Ele apresenta como prova de sua teoria — de que os poderes se acumpliciaram para destruir a democracia — um fato inexistente. Diz ele que, no Brasil, ministros do STF apresentam projetos de lei ao Congresso. Poderia dar um único exemplo do que diz. Quem sabe em próximo livro.
Outra afirmação estonteante é a que ele apresentou como prova do conluio entre os Poderes no país: o caso do deputado Chiquinho Brazão. Condenado como mandante do homicídio da vereadora Marielle Franco, ele só perdeu o mandato por “excesso de faltas”, e não por quebra de decoro. Um silogismo que Aristóteles jamais imaginou.
Nada de mais para quem inventou a tese de que mais de 80% das decisões do STF são monocráticas. Uma aritmética em que até pedido de pizza pelo iFood é computado como “decisão” para os gênios do Direito que se dedicam o ano todo a produzir intrigas, mas que jamais produziram qualquer raciocínio no mundo da doutrina ou dos paradigmas jurídicos.
Extorsão disfarçada
O esquema “lava jato” fez com que a prática de extorsão e chantagem de agentes privados por agentes públicos parecesse o inverso. Não houve uma única condenação por extorsão. Moro converteu tudo em “corrupção”. Ou seja: como se os empresários tivessem obrigado os agentes públicos a aceitar subornos.
No pau de arara, empresários foram forçados a dizer exatamente o que os procuradores queriam. As falsas confissões induzidas pelos tarefeiros levaram a nada. Por fim, desmobilizado o parque nacional de infraestrutura — para gáudio da concorrência —, o verdadeiro combate à corrupção não avançou um centímetro.
Na versão fantasiosa de Joaquim Falcão, foi porque os ministros do STF são aliados do crime e livraram seus asseclas. Os diálogos entre os integrantes da organização criminosa de Curitiba mostram o que de fato aconteceu. Qualquer pesquisa que associe a expressão “spoofing” (apelido ridículo para as transcrições das conversas entre eles) a nomes como “Joaquim Falcão” esclarece os fatos.
Pode-se saber, por exemplo, que o objetivo do autor do livro, junto com Bruno Brandão, chefe de uma das sucursais da CIA no Brasil, a “transparência internacional”, era criar uma fundação gerida por eles, com dinheiro da J&F Investimentos.
O livro em que o autor ensina como fazer sucesso, imputando a outrem crimes praticados por ele, mostra o quanto a desinformação e a ignorância são terrenos férteis para enganar incautos.
Por Marcio Chaer
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