Argentina registrou 17.339 mortes a mais entre pessoas com 75 anos ou mais em 2024 na comparação com 2023, enquanto aposentados relatam cortes de medicamentos, dificuldade para comprar comida e falta de atendimento médico
Na Argentina de Javier Milei, as estatísticas oficiais conhecidas mostram que o aumento das mortes entre os idosos é de 5% (65 a 74 anos), 8% (75 a 84) e 10% (+85), enquanto a motosserra é aplicada à saúde pública e medicamentos e benefícios são eliminados. O tema ressurgiu nesta quarta-feira na nova marcha dos aposentados.
Desta vez, eles conseguiram ir do Congresso até o Ministério da Saúde. A resposta do governo diante das reivindicações foi a habitual: polícia de choque. O que se viu e se disse, entre tortas fritas, cartazes e até poemas.
Miriam Cejas se afasta da fila com uma torta frita e um mate cocido servido em um copo de isopor. Ela tem 67 anos, é de Villa Lugano e isso seria como sua sobremesa: há pouco tempo conseguiu comer um ensopado de lentilhas graças à estrutura que o sindicato dos Caminhoneiros mantém há mais de um mês nas quartas-feiras dos aposentados no Congresso.
– Pronto, com isso já não como até amanhã.
Ela justifica isso com as pedras que tem na vesícula e que tiram seu apetite, embora seja difícil para ela se tratar – diz –, porque não consegue consultas no PAMI, a instituição dedicada a oferecer assistência integral aos idosos.
Nas últimas horas, clínicas e sanatórios privados de quatro províncias – Río Negro, Neuquén, Chubut e La Pampa – anunciaram a suspensão total do atendimento a 300 mil afiliados no dia 24 de agosto, por 24 horas, uma situação que não ocorreu nem em 2001, segundo alertavam.
No Congresso, Miriam conta que, “por sorte”, conseguiu se aposentar há dois anos, quando ainda existia a moratória para regularizar suas contribuições, hoje interrompida pela motosserra libertária. Isso lhe permite receber uma aposentadoria mínima: 419.775 pesos, mais o bônus de 70 mil. “Isso não significa que seja suficiente para alguma coisa, porque tudo aumentou”, esclarece, e conta que mora com a irmã, com quem divide as despesas.
Por isso, tenta ir à distribuição de comida ou ao centro comunitário do bairro, ou ver se o verdureiro lhe deixa alguma maçã em troca de varrer a calçada dele (“agora há pouco meu estômago estava me pedindo alguma coisa, então comi meia laranja”), ou conseguir aquela promoção em Flores da bandeja de ovos por 3.500 pesos.
– E, se não, o que vamos fazer: mate.
Mate como alimento, mate para aguentar.
– Temos que aguentar. Se não, não chegamos.
Chegar aonde, por que vir, são as perguntas tolas antes de começar a marcha.
– Não é apenas por mim, é também pelos outros aposentados que têm filhos, que têm netos, que pagam aluguel. Eu gostaria que tudo mudasse. Eu ouvia Norma Pla quando ela defendia os aposentados: morreu sem resposta. Mas, se o ser humano não fizer isso, o que vai esperar? O descanso é decidido por Deus. Enquanto isso, nós temos que nos movimentar e buscar o dia a dia.
Suas companheiras a chamam. Miriam abraça a bandeira do Movimento Teresa Rodríguez (MTR) 12 de Abril e entra na marcha.
Nesta quarta-feira, a mobilização começou com um aviso: seria feita a habitual volta, mas depois caminhariam até o Ministério da Saúde, na avenida 9 de Julio com a rua Moreno. A faixa da frente parte com uma mensagem sem metáforas: “Estão nos matando”.
A pauta de reivindicações inclui desde o corte de medicamentos (o governo eliminou pelo menos 44 remédios que tinham 100% de cobertura) até os benefícios que não são suficientes para cobrir a cesta básica do idoso (1.800.000 pesos, segundo a Defensoria da Terceira Idade).
Eles também exigem o fim da intervenção no PAMI e a renúncia do ministro Mario Lugones, a quem chamam de “corrupto” e “assassino”, assim como ao presidente Javier Milei.
Pela lateral passam algumas pessoas vestidas de preto e com máscaras que se assemelham a um bufão triste. Elas carregam cartazes:
- “A mortalidade de pessoas de 74 a 85 anos cresceu 7,8% em 2024, durante o primeiro ano do governo mileísta”.
- “O Estado é responsável por cuidar da nossa vida”.
- “Comprar comida ou remédio, uma escolha mortal”.
- “Basta de genocídio silencioso”.
Alguns dados: a quantidade de mortes em 2024, segundo a Direção de Estatísticas e Informação em Saúde (DEIS), entre aqueles que tinham mais de 85 anos aumentou 10%. Entre aqueles que tinham entre 75 e 84 anos, o aumento foi de 8%.
Morreram 17.339 pessoas a mais a partir dos 74 anos do que no ano anterior. Causas: pneumonia e influenza (16%), septicemias (12%), doenças do coração (9%), doenças cerebrovasculares (5%) e tumores malignos (2%), tudo no ritmo da motosserra aplicada à saúde pública e ao atendimento aos aposentados.
A palavra genocídio aparece em vários cartazes.
Um aposentado do grupo 12 Apóstolos grita para os carros que passam: “Temos que nos unir contra este governo. Juntem-se a nós, porra!”. Tanto na marcha quanto em frente ao Ministério, soma-se à reivindicação pela libertação de Milton Tolomeo e Eneas Gallo, que continuam presos desde fevereiro na prisão de Marcos Paz, quando foram detidos durante o protesto contra a reforma trabalhista. “Não estamos todos, faltam os presos”, cantam os aposentados.
Tudo acontecerá em frente ao Ministério e diante de um cordão simbólico de agentes da Polícia Federal, que tentam impedir que a marcha avance para a rua. Os aposentados dão um jeito de bloquear a rua Moreno e fazer com que o ônibus turístico da Cidade de Buenos Aires, que iria virar, mude de direção. Em cima, uma senhora de ascendência asiática agita os braços e saúda o que é cantado abaixo:
“Milei, Lugones, corruptos e ladrões”.
Outro que marchou com cartazes é Ricardo, aposentado da área de telefonia: não diz a idade exata, apenas que já passou do “meio século” e tem “outros tantos anos de experiência”. Sobre seus escritos, avisa: “Um é meio grosseiro e o outro, filosófico”. Quem estiver lendo dirá qual é qual:
- “Onde termina a mentira começa a revolução”.
- “Este Governo é uma merda, é preciso dar a descarga”.
Conta que é ferreiro, morador de Quilmes – sul da região metropolitana de Buenos Aires – e que hoje trouxe um poema caso justamente lhe fizessem uma entrevista. Dizemos a ele que é seu dia de sorte. Ele o tinha dobrado ao meio no bolso, escrito à mão. Trechos:
As balas das quartas-feiras
estão livres de culpa
abençoadas pelo capelão cego.Essas balas
pagas pelo povo
apontam para um fotógrafo agachado
para um velhinho com andador
para um veterano em cadeira de rodas
para uma empregada doméstica que já não tem
impressões digitais de tanto limpar a merda alheia
para um catador das imundícies dos ricos.As balas das quartas-feiras
têm fome de carne patriótica
fazem buracos por onde se derrama o sangue nobre dos meus irmãos.Tomara que algum dia as balas da infâmia
tenham o tiro saído pela culatra
então será justiça.
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