Mais sujo que pau de galinheiro
O juiz Wilson Espada determinou a prisão preventiva por 180 dias do consultor político e articulador da extrema-direita Fernando Cerimedo no presídio de máxima segurança de Palmasola, na cidade de Santa Cruz, Bolívia, acusado de ser o mandante e autor intelectual da tentativa de feminicídio contra sua ex-companheira, a advogada Nadia Beller, informa o jornal Página 12.
A decisão sobre a custódia foi proferida ao final da tarde de sexta-feira (21), em um cerco que contou com a chegada de efetivos policiais portando armas longas. No decorrer do dia, a Promotoria apresentou novas provas obtidas a partir da perícia no telefone celular de Cerimedo, revelando mensagens trocadas no exato momento em que os atiradores executavam o ataque. Em uma das conversas, um contato identificado como ECG pergunta ao consultor: “digo a eles para procurá-la aí?” e, em seguida, reporta: “irmão, neste momento atiraram nela, está ferida”.
Conforme declarações de Nadia Beller e do ex-presidente boliviano Evo Morales, o contato registrado sob as iniciais ECG trata-se de Erik Correa González, chefe de Inteligência do governo do presidente Rodrigo Paz.
Paralelamente às investigações telefônicas, a polícia boliviana deteve três pessoas — dois homens e uma mulher, esta apontada como companheira de um dos executores do atentado —, embora no encerramento do dia apenas um suspeito permanecesse sob custódia.
O material periciado revelou fotos do hotel e da motocicleta utilizada pelos pistoleiros para o ataque, acompanhadas de reportagens com títulos distorcidos que visavam desviar o foco da investigação policial. O relatório pericial apontou ainda que 34 registros de chamadas e mensagens foram apagados do aparelho do acusado.
Diante dos achados, os investigadores trabalham com duas hipóteses centrais: que o ex-assessor utilizou o aparelho de inteligência estatal para acompanhar o atentado ou que monitorava Beller porque ela organizava uma reunião com a família de uma adolescente de 13 anos para denunciar abusos atribuídos a Evo Morales.
Os advogados de defesa de Cerimedo, Ernesto Giraldes e Margarita Arce, requereram ao juiz Wilson Espada a anulação do processo. A banca alegou que o telefone foi periciado sem o acompanhamento da defesa, que a detenção foi irregular, que o prazo de apresentação ao magistrado foi estourado e que o período de prisão preventiva fixado é excessivo. Todos os pedidos foram rejeitados pelo juiz, que convalidou os dados telefônicos como prova válida.
Além dos registros digitais do dia do crime, a Promotoria baseia a acusação nas evidências de violência de gênero recorrente, citando episódios prévios de agressão física nos meses de junho e julho. Constam nos autos registros nos quais o consultor pressionava Beller — que está gestante — para que não o denunciasse publicamente, sob a alegação de que a exposição arruinaria a vida do casal e dos filhos. Sobre os antecedentes, o jornalista de entretenimento Rodrigo Lussich revelou em Buenos Aires que sua família sofreu uma fraude praticada por Cerimedo em 2012 e resgatou que, naquele período, a ex-esposa do investigado também registrou denúncia por violência doméstica antes de se mudar para a Itália.
No âmbito político e econômico, o réu buscou se distanciar da gestão de Rodrigo Paz por meio de uma carta manuscrita enviada aos advogados, negando ter integrado reuniões de gabinete ou intermediado pagamentos a ministros. Contudo, registros fotográficos e relatos da política local o posicionavam como figura de forte influência sobre as decisões do governo, além de operar negócios nos setores de mineração de ouro e combustíveis.
Tais atividades deram origem a um processo paralelo por enriquecimento ilícito que tramita na capital, La Paz. Durante as investigações financeiras, autoridades policiais realizaram cinco mandados de busca e apreensão. Em um dos endereços do réu foram apreendidos 4 mil dólares; em um imóvel localizado em um condomínio fechado, recolheram 500 mil bolivianos (cerca de 50 mil dólares); e em duas casas de câmbio, apuram o fluxo de transferências que incluem a remessa de 400 mil dólares ao exterior e a fuga de um suspeito carregando montantes não confirmados. Uma quinta busca foi efetuada em um escritório alugado pelo consultor que se encontrava desocupado. O fiscal Luis Torrez reúne a documentação para requerer uma nova ordem de prisão preventiva junto ao tribunal de La Paz.
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