Não aceitamos devolução: paraguaios querem impedir migração de bolsonaristas e cobram muro entre os países

Não aceitamos devolução: paraguaios querem impedir migração de bolsonaristas e cobram muro entre os países

Fluxo de bolsonaristas para o Paraguai cresce impulsionado por promessas de menos tributos e menor intervenção estatal, mas gera reações locais e levanta debate sobre serviços públicos e infraestrutura

O Paraguai virou um dos destinos preferidos de bolsonaristas que buscam menos impostos, menor regulação econômica e um ambiente mais favorável aos negócios. Nos últimos anos, produtores rurais, empresários, investidores e profissionais liberais atravessaram a fronteira atraídos pela promessa de um Estado mais enxuto e uma carga tributária menor.

Mas o aumento dessa imigração já começa a gerar reações dentro do próprio Paraguai.

Nas redes sociais e em setores da imprensa local, paraguaios passaram a demonstrar preocupação com o crescimento da presença brasileira em determinadas regiões do país. Alguns chegaram a defender medidas mais rígidas de controle migratório e até a construção de barreiras na fronteira, alegando receios sobre pressão imobiliária, ocupação de terras e impactos nos serviços públicos, informa o ParaWebNews.

A situação revela uma contradição curiosa. Muitos dos brasileiros que escolhem o Paraguai afirmam que o principal motivo da mudança é fugir dos impostos e do tamanho do Estado brasileiro. No entanto, quando enfrentam problemas de saúde mais complexos, é comum recorrerem à estrutura pública disponível nas cidades brasileiras da fronteira, especialmente em municípios como Foz do Iguaçu.

Isso levanta uma discussão pouco abordada pelos defensores da migração baseada exclusivamente em vantagens tributárias. Impostos não financiam apenas a máquina pública; também sustentam hospitais, escolas, estradas, saneamento, segurança e diversos serviços que a população utiliza diariamente.

O Paraguai possui méritos importantes, como ambiente favorável para determinados negócios e uma economia relativamente estável. Porém, também enfrenta desafios históricos em áreas como saúde pública, infraestrutura e fiscalização estatal. Não por acaso, muitos brasileiros que se mudam para o país mantêm vínculos com serviços oferecidos do lado brasileiro da fronteira.

Outro aspecto que chama atenção é que a obsessão pelo pagamento de menos impostos costuma fazer mais sentido para grandes empresários, investidores e proprietários de grandes patrimônios. Para a maioria da população, composta por trabalhadores assalariados e classe média, fatores como qualidade dos serviços públicos, mobilidade urbana, educação e saúde frequentemente têm impacto muito maior no cotidiano do que pequenas diferenças tributárias.

O debate que surge no Paraguai mostra que nenhum país consegue prosperar apenas reduzindo impostos. Da mesma forma, também não prospera apenas aumentando a arrecadação. O desafio está no equilíbrio entre competitividade econômica e capacidade do Estado de oferecer serviços de qualidade para a população.

Enquanto isso, cresce entre paraguaios a percepção de que o país não pode ser visto apenas como um refúgio tributário para estrangeiros.  E a reação da população local mostra que imigração, desenvolvimento e soberania continuam sendo temas sensíveis em qualquer lugar do mundo.

Em 2025, o Paraguai bateu recorde ao conceder 40,6 mil autorizações de residência a estrangeiros. Mais da metade (23,5 mil) eram brasileiros, muito mais do que os segundos colocados, os argentinos (4,3 mil).

Para 2026, a expectativa é que o número seja ainda maior. Só nos três primeiros meses do ano, foram emitidas 9,2 mil autorizações para brasileiros.

Fuga de bolsonaristas

“Nós, da direita, nos sentimos as pessoas mais oprimidas. A gente não tem liberdade”, justificou a aposentada à BBC News Brasil sobre sua empreitada. “É um governo que só está nos fazendo mal” , disse Roberta Viegas à BBC.

Em comum, a visão de que a vida no Paraguai hoje corresponde melhor às suas posições ideológicas.

O atual presidente paraguaio, Santiago Peña,  é o nono governante de direita entre os dez que comandaram o país desde a redemocratização, após o fim da ditadura do general Alfredo Stroessner, em 1989.

“99% das pessoas que estão vindo são de direita”, contabiliza a carioca Roberta Viegas, que mora há 1 ano no Paraguai e tem promovido reuniões entre empresários como ela e oferece serviços de assessoria a interessados pela mudança.

No Paraguai, o salário mínimo oficial é maior do que no Brasil (o equivalente a R$ 2.300), mas a taxa de informalidade dos empregos — ou seja, pessoas sem vínculos formais de trabalho — é de 62,5%, índice muito maior que o do Brasil, que está em 37,5%.

Para os brasileiros que estão imigrando, porém, o modelo paraguaio é o que eles defendem como o ideal.

Segundo o Rota Oceânica, atualmente, mais de 263 mil brasileiros vivem em território paraguaio.

 

 

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