Contradições da direita no Acre: uma chapa competente apesar de serem mulheres

Contradições da direita no Acre: uma chapa competente apesar de serem mulheres

A política, por vezes, revela a sua verdadeira essência no contraste entre o silêncio da reflexão cotidiana e o ruído das incoerências públicas. Enquanto o cenário eleitoral do Acre ensaia seus movimentos estratégicos para os próximos pleitos, a narrativa oficial do empoderamento feminino colide frontalmente com a crudeza de atos e alianças que nenhuma propaganda bem-editada consegue ocultar. O ecossistema de comunicação política no Estado assiste a uma dinamarquesa metamorfose.

Mesmo sob o fantasma ostensivo da judicialização e do temor de retaliações — expediente recorrente para constranger a crítica —, a sátira política encontra canais subterrâneos de difusão. O desmantelamento da página Arenga do Acre não silenciou seus idealizadores; ao contrário, pulverizou sua produção, que agora encontra abrigo e repercussão em veículos independentes como o canal Espinhoso.

Trata-se de um sintoma claro: quanto mais a política formal tenta blindar suas contradições por meio do rigor jurídico ou do marketing pasteurizado, mais a acidez do humor anônimo ganha tração junto ao eleitorado crítico.

O foco mais recente dessa produção crítica debruça-se sobre a construção da candidatura da governadora Mailza Assis. De um lado, a propaganda oficial promove eventos efusivos voltados ao público feminino, empunhando a pauta de gênero como trunfo eleitoral. Do outro, a práxis administrativa desmente o entusiasmo dos discursos.

A nomeação do próprio cônjuge — que responde a graves acusações de violência doméstica cujo processo ainda se arrasta sem desfecho na Justiça — para o primeiro escalão do executivo estadual, no cargo de secretário, expõe uma incoerência ética incontornável. A vítima, enquanto isso, permanece subjugada não apenas pelo trauma, mas pelo peso simbólico do aparato estatal conferido ao seu suposto agressor.

“Não há discurso de exaltação à mulher que resista à contradição de erguer bandeiras festivas enquanto se concede foro e prestígio político a quem responde por agredi-las.”

Como se o paradoxo administrativo não fosse suficiente para comprometer a narrativa de renovação, o apoio ostentado pela própria base governista explicita o tom condescendente do machismo estrutural que ainda domina os bastidores partidários. Ao tentar defender a chapa, lideranças aliadas incorrem na infeliz retórica de afirmar que a governadora demonstra competência “apesar de ser mulher”.

A política, por vezes, revela a sua verdadeira essência no contraste entre o silêncio da reflexão cotidiana

A formulação, longe de ser um mero deslize oratório, revela como o estamento político local enxerga a presença feminina: não como um direito pleno e indiscutível assentado em méritos próprios, mas como uma exceção tolerada que exige atestado de capacidade contínuo.

Sintetizar o quadro político do Acre neste momento dispensa grandes malabarismos analíticos, pois os fatos falam por si:

  • Na base de sustentação: a presença de quadros sob a sombra de denúncias de agressão contra mulheres;
  • Na linha de defesa discursiva: aliados que vociferam elogios eivados de preconceito sutil e patronal;
  • Na vitrine institucional: o uso instrumental da pauta de gênero para fins estritamente eleitoreiros.

Diante de uma cena em que a maquiagem do marketing político descola com tanta facilidade da realidade dos fatos, resta ao eleitor observar os bastidores com acuidade. Afinal, a maturidade de uma democracia mede-se não pelo que os líderes dizem em festejos partidários, mas pelas escolhas éticas que sustentam no exercício diário do poder.

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