Há versos que pertencem ao patrimônio moral de um povo. Não porque sejam propriedade de alguém, mas porque exprimem aquilo que há de mais nobre na experiência humana. Walter Franco – bebendo da filosofia oriental – escreveu, em Coração Tranquilo, um desses raros manifestos em forma de canção: “manter a mente aberta, a espinha ereta e o coração tranquilo”. Três frases simples. Três exigências imensas.
Assistir a Carlos Bolsonaro recorrer justamente a esses versos para enaltecer o candidato representante da extrema-direita brasileira me indigna. Não se trata de discutir o direito de citar Walter Franco. A poesia é livre. O que causa espanto é a tentativa de vestir um ideário com roupas que jamais lhe serviram.
Os versos de Walter Franco não são um adereço para campanhas eleitorais. São um compromisso com valores. Manter a mente aberta significa cultivar a dúvida, respeitar o conhecimento, reconhecer que a ciência amplia horizontes e que a diversidade humana não é uma ameaça, mas uma riqueza. No entanto, o bolsonarismo construiu boa parte de sua identidade política em permanente confronto com universidades, pesquisadores, artistas e intelectuais, transformando diferenças de pensamento e de orientação sexual em combustível para guerras culturais. Uma mente aberta floresce na curiosidade. O extremismo prospera na ignorância absoluta.
Por Oliveiros Marques
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