O cinismo da apropriação indébita por Carlos Bolsonaro

O cinismo da apropriação indébita por Carlos Bolsonaro

Há versos que pertencem ao patrimônio moral de um povo. Não porque sejam propriedade de alguém, mas porque exprimem aquilo que há de mais nobre na experiência humana. Walter Franco – bebendo da filosofia oriental – escreveu, em Coração Tranquilo, um desses raros manifestos em forma de canção: “manter a mente aberta, a espinha ereta e o coração tranquilo”. Três frases simples. Três exigências imensas.

Assistir a Carlos Bolsonaro recorrer justamente a esses versos para enaltecer o candidato representante da extrema-direita brasileira me indigna. Não se trata de discutir o direito de citar Walter Franco. A poesia é livre. O que causa espanto é a tentativa de vestir um ideário com roupas que jamais lhe serviram.

Os versos de Walter Franco não são um adereço para campanhas eleitorais. São um compromisso com valores. Manter a mente aberta significa cultivar a dúvida, respeitar o conhecimento, reconhecer que a ciência amplia horizontes e que a diversidade humana não é uma ameaça, mas uma riqueza. No entanto, o bolsonarismo construiu boa parte de sua identidade política em permanente confronto com universidades, pesquisadores, artistas e intelectuais, transformando diferenças de pensamento e de orientação sexual em combustível para guerras culturais. Uma mente aberta floresce na curiosidade. O extremismo prospera na ignorância absoluta.

Manter a espinha ereta significa preservar a dignidade e a autonomia. É permanecer de pé quando a conveniência aconselha a curvatura. Na minha avaliação, a família Bolsonaro faz exatamente o contrário ao longo de sua trajetória, adotando, por exemplo, um alinhamento quase automático aos interesses políticos da direita norte-americana, mesmo quando isso coloca em segundo plano a soberania brasileira e os interesses dos trabalhadores e empresários brasileiros. Quem mantém a espinha ereta não dobra os joelhos por devoção ideológica nem confunde alinhamento com submissão.

E, por fim, manter o coração tranquilo.

Talvez este seja o verso mais incompatível com a trajetória do bolsonarismo. A pandemia deixou mais de 700 mil brasileiros mortos e uma ferida que ainda atravessa milhões de famílias. Para mim, a condução daquele período representa um peso moral impossível de apagar da memória nacional. Independentemente das disputas jurídicas e políticas, há responsabilidades históricas que cada cidadão julga à sua maneira. Por isso, é difícil imaginar serenidade em quem defendeu escolhas que fizeram milhões de brasileiros vítimas diretas ou indiretas daquela tragédia.

Walter Franco escreveu sobre liberdade interior. Sobre coragem. Sobre humanidade. Seus versos não cabem na lógica da intolerância, da hostilidade permanente e da política transformada em guerra que busca a eliminação do outro.

Existe uma diferença entre citar um poeta e compreendê-lo. A primeira depende apenas de memória. A segunda exige coerência e inteligência.

É justamente essa coerência que falta quando os versos de Walter Franco são apropriados para ornamentar um projeto político que, na minha visão, sempre caminhou na direção oposta da abertura, da independência e da serenidade.

A poesia pode ser emprestada. Os valores que ela celebra, não. Eles precisam ser vividos. E é exatamente por isso que certas citações soam como uma tentativa de ocupar um lugar moral que nunca lhes pertenceu.

Por Oliveiros Marques

 

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