O governo Donald Trump ressuscitou nesta terça-feira (11) a Doutrina Monroe e proclamou que a “dominância americana” sobre o Hemisfério Ocidental “nunca mais será questionada”. A ameaça imperialista de Washington ocorre apenas um dia depois de a China pedir formalmente para participar das consultas abertas pelo Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra as tarifas adicionais de até 37,5% impostas pelos Estados Unidos.
Não dá ainda para cravar que a declaração estadunidense tenha sido uma resposta direta ao movimento chinês na OMC. Mas a sequência dos acontecimentos é politicamente reveladora. Brasil e China aparecem juntos na defesa das regras multilaterais contra medidas unilaterais de Washington justamente quando o governo Trump decide recuperar uma doutrina historicamente associada à hegemonia dos Estados Unidos sobre a América Latina e à tentativa de impedir que outras potências ampliem sua influência no continente.
A Doutrina Monroe foi formulada em 1823 sob o argumento de impedir novas intervenções europeias nas Américas, mas se transformou, ao longo da história, em justificativa ideológica para a construção da esfera de influência dos Estados Unidos na região. Intervenções militares, golpes, pressões econômicas e operações políticas mostraram durante décadas o significado concreto dessa concepção: Washington reivindicava para si uma posição privilegiada na definição dos rumos do continente.
Dois séculos depois, o governo Trump tenta recuperar essa doutrina em um mundo muito diferente. A principal potência externa que disputa influência econômica com os Estados Unidos na América Latina já não está na Europa, mas na Ásia. A China tornou-se a maior parceira comercial do Brasil, aprofundou relações com diversos países latino-americanos e passou a ocupar espaços econômicos, financeiros e tecnológicos antes amplamente dominados pelos norte-americanos.
É nesse contexto que ganha importância o pedido chinês para participar da disputa aberta pelo Brasil na OMC. Pequim alegou possuir “interesse comercial substancial” nas consultas e afirmou que as medidas de Washington também prejudicam seus produtos no mercado norte-americano.
O contraste com a mensagem divulgada no dia seguinte por Washington dificilmente poderia ser maior. Enquanto Brasília e Pequim procuram a OMC, o Departamento de Estado fala em “dominância americana” e recupera uma doutrina baseada na ideia de que o Hemisfério Ocidental constitui uma área estratégica especial dos Estados Unidos. O governo Trump reivindica uma supremacia regional que, segundo suas próprias palavras, não deverá ser questionada. Mas não apenas está sendo questionada, como suplantada.
Porque é justamente a possibilidade de maior autonomia dos países latino-americanos que torna anacrônica a recuperação da Doutrina Monroe. O Brasil não precisa escolher entre ser subordinado aos Estados Unidos ou à China. Uma política externa soberana pressupõe manter relações com diferentes polos de poder, ampliar mercados e alianças e preservar a capacidade de tomar decisões segundo os próprios interesses. Multipolaridade significa precisamente reduzir a dependência em relação a qualquer potência hegemônica.
A sequência das últimas 24 horas resume, portanto, uma disputa muito maior do que o tarifaço. De um lado, Brasil e China recorrem à OMC contra medidas unilaterais dos Estados Unidos. Do outro, Washington responde ao novo equilíbrio mundial ressuscitando uma doutrina do século 19 e proclamando que sua “dominância” sobre as Américas não poderá ser questionada. A América Latina, porém, não é propriedade de nenhuma potência. E o fato de o governo Trump sentir necessidade de reafirmar sua supremacia sobre o continente talvez seja justamente o maior sinal de que essa supremacia já não pode mais ser tratada como incontestável.
Por Aquiles Lins
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