Veja quem é Cezinha de Madureira, aliado de Mendonça e alvo de operação da PF

Veja quem é Cezinha de Madureira, aliado de Mendonça e alvo de operação da PF

A Polícia Federal deflagrou nesta segunda-feira (14) a terceira fase da Operação Transparência, que investiga suspeitas de tráfico de influência junto a tribunais superiores. Um dos principais alvos é o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP), aliado do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), e personagem central na articulação de um encontro reservado entre o magistrado e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Segundo a PF, a operação também apura possíveis crimes de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A decisão que autorizou as medidas é do ministro Flávio Dino, do STF.

Mensagens e áudios extraídos do celular de Vorcaro revelaram que o deputado, ao lado do advogado baiano Ciro Rocha Soares, passou semanas articulando a aproximação entre o banqueiro e Mendonça. A reunião ocorreu em 14 de março de 2025, no Instituto Iter, em São Paulo, entidade fundada pelo próprio ministro, durou cerca de duas horas e não constava da agenda pública de Mendonça.

A atuação de Cezinha não se limitou à logística do encontro. Segundo os diálogos, Ciro Soares afirmou que o deputado já havia conversado com Mendonça sobre os problemas enfrentados pelo Banco Master junto ao Banco Central. Em um áudio, o advogado diz a Vorcaro que “o ministro já está te esperando” e afirma que “o Cezinha já tinha falado com ele” sobre o assunto.

Na véspera da reunião, Cezinha marcou com Mendonça o encontro para as 17h do dia seguinte, no instituto do ministro. A articulação havia começado semanas antes. Em mensagens de fevereiro, Ciro Soares dizia estar “trabalhando” para Vorcaro e relatava ter conseguido uma aproximação com Mendonça. O advogado chegou a enviar ao banqueiro uma fotografia ao lado do ministro em uma alfaiataria em São Paulo.

Mendonça confirmou parcialmente o episódio. Segundo sua versão, recebeu Vorcaro uma única vez, por iniciativa do próprio banqueiro, limitou-se a ouvi-lo e tratou exclusivamente da Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, relacionada a precatórios. O ministro também afirma que registrou por escrito a conversa e que, posteriormente, seu voto no caso Master foi contrário aos interesses de Vorcaro.

A STP 976 havia sido encaminhada ao STF pela Advocacia-Geral da União (AGU) para suspender decisões envolvendo o pagamento de precatórios adquiridos pelo Banco Master. Mendonça assumiu a relatoria do processo em fevereiro de 2026, quase um ano depois do encontro com Vorcaro.

De radialista a articulador no Congresso

Cezinha de Madureira, cujo nome é Antonio Cezar Correia Freire, nasceu em 12 de dezembro de 1973, em Ipiaú, na Bahia. Começou a trabalhar no rádio ainda adolescente e, aos 18 anos, mudou-se para São Paulo, onde construiu carreira como radialista e apresentador de programas religiosos.

Ligado à Assembleia de Deus – Ministério Madureira, apresentou programas como “Plantão da Vida”, na Band e na RedeTV!, e “Palavra de Vida”, na Rádio Musical FM, ao lado do pastor Samuel Ferreira, hoje bispo e presidente-executivo da Convenção Nacional das Assembleias de Deus – Ministério de Madureira.

Em 2012, foi ordenado pastor. A ligação com a família Ferreira seria determinante para sua entrada na política.

Cezinha foi eleito deputado estadual em São Paulo em 2014, pelo então Democratas, ainda utilizando o nome “Pastor Cezinha”. O complemento “de Madureira” posteriormente se consolidou como sua principal marca política, associando diretamente seu nome à força eleitoral da denominação.

Em 2018 e 2022, foi eleito e reeleito deputado federal por São Paulo. Durante o governo Jair Bolsonaro, ocupou o posto de vice-líder do governo na Câmara. Em 2026, filiou-se ao PL para disputar novamente uma vaga na Câmara.

A ascensão política de Cezinha esteve diretamente relacionada à sua proximidade com o bispo Samuel Ferreira. Foi o escolhido de Ferreira para ampliar a influência política da igreja no Legislativo. O deputado chegou a definir o chefe como seu “pai adotivo” e afirmou: “Estou aqui porque a igreja me colocou, foi a igreja que me elegeu. Respondo ao meu povo através do meu líder.”

A relação ajudou a transformar Cezinha em um dos principais representantes políticos do Ministério Madureira em Brasília.

Veja quem é Cezinha de Madureira, aliado de Mendonça e alvo de operação da PF
Cezinha, Mendonça e Bolsonaro

Ponte entre Mendonça e a Assembleia de Deus

A proximidade entre Cezinha e André Mendonça também é anterior ao encontro com Vorcaro.

Quando Mendonça foi indicado por Bolsonaro para o STF, o deputado levou o então candidato a ministro a um evento da Assembleia de Deus Madureira, no Rio de Janeiro, para apresentá-lo às principais lideranças da denominação e buscar apoio à indicação.

O movimento foi bem-sucedido. Lideranças do Ministério Madureira estiveram ao lado de Mendonça durante sua sabatina no Senado e atuaram pela aprovação de seu nome. A votação ocorreu em dezembro de 2021, quando Cezinha presidia a Frente Parlamentar Evangélica.

Essa relação ajuda a explicar por que o deputado aparece novamente como intermediário entre Mendonça e um personagem sob forte escrutínio das autoridades: Daniel Vorcaro.

A capacidade de Cezinha de circular por diferentes campos políticos não se restringe à direita.

Em outubro de 2025, o deputado, então filiado ao PSD, participou da articulação de um encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os bispos Manoel Ferreira e Samuel Ferreira, da Assembleia de Deus Madureira.

A reunião ocorreu no Palácio do Planalto e contou também com o advogado-geral da União, Jorge Messias, e a então ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann.

Cezinha apresentou a visita como institucional, e não política, e afirmou que o grupo havia orado com Lula “diante do momento conturbado do país”. Os bispos entregaram ao presidente uma edição especial da “Bíblia do Culto do Ministro” e um exemplar comemorativo do centenário da igreja.

O episódio resume uma das principais características da trajetória política do deputado: transitar entre grupos que normalmente ocupam campos opostos.

De Bolsonaro a Lula, do Congresso ao STF

Em 2021, apareceu na garupa da motocicleta do então presidente durante uma motociata.

No Congresso, sua trajetória foi marcada ainda pela disputa pelo comando da Frente Parlamentar Evangélica. Cezinha presidiu a FPE em 2021, em meio a uma disputa com Sóstenes Cavalcante pelo controle político da bancada.

O conflito opôs dois dos principais polos do pentecostalismo político brasileiro: o Ministério Madureira, ligado à família Ferreira e representado por Cezinha, e o grupo associado a Silas Malafaia e Sóstenes Cavalcante. A disputa terminou com a redução do mandato da presidência da FPE de dois para um ano.

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Cezinha na garupa de Bolsonaro

Cezinha e o Instituto Iter

A reunião com Vorcaro ocorreu no Instituto Iter, entidade da qual Mendonça era sócio. A instituição acumulou ao menos R$ 10,8 milhões em contratos com órgãos públicos desde novembro de 2023, segundo levantamento citado no material. Desse total, 54 contratos, equivalentes a 98,2%, teriam sido firmados sem licitação prévia, em sua maioria por inexigibilidade.

Depois da repercussão dos contratos, Mendonça anunciou sua saída da sociedade. Segundo o Iter, ele e sua esposa, que detinham 77,5% da participação, cederiam suas cotas sem contrapartida financeira, enquanto o ministro permaneceria ligado à entidade apenas como professor.

Foi justamente nesse endereço que ocorreu o encontro reservado com Vorcaro. A rede de contatos mobilizada em torno do banqueiro também alcançou outro integrante da cúpula do sistema de Justiça.

No dia seguinte à reunião entre Vorcaro e Mendonça, Ciro Soares enviou ao banqueiro uma fotografia ao lado do procurador-geral da República, Paulo Gonet, acompanhada da mensagem: “Liga aqui… Ele quer falar com você”. Na sequência, houve quatro ligações entre os dois em poucos minutos.

O episódio indica que a rede acionada por Cezinha e Ciro Soares pode ter alcançado outras instâncias, além do Judiciário.

Cezinha de Madureira construiu sua carreira a partir da Assembleia de Deus, tornou-se uma liderança da bancada evangélica, aproximou-se de Bolsonaro, participou da articulação que ajudou a levar Mendonça ao STF e, anos depois, apareceu como um dos responsáveis por aproximar o ministro de Daniel Vorcaro.

Ao mesmo tempo, atuou como ponte entre lideranças evangélicas e o governo Lula, mostrando capacidade de transitar por diferentes grupos políticos.

Essa característica já havia sido sintetizada pelo próprio histórico do deputado: de radialista religioso a parlamentar, de liderança evangélica a articulador entre o Congresso, o Executivo e o Judiciário.

Agora, essa rede de relações está sob investigação da Polícia Federal. A Operação Transparência apura justamente se houve tráfico de influência, exploração de prestígio, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A investigação deverá esclarecer se a capacidade de Cezinha de abrir portas para personagens em diferentes esferas de poder se limitava à articulação política ou se envolvia práticas criminosas.

Por Davi Nogueira

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