Na contramão da política econômica do Brasil que tem a 3ª maior inflação, Bolívia é o país com a menor inflação das Américas

Na contramão da política econômica do Brasil que tem a 3ª maior inflação do mundo, Bolívia é o país com a menor inflação das Américas

 

o Brasil possui a terceira maior taxa de inflação, perdendo apenas para Turquia e Argentina

A Bolívia vive uma situação econômica estável apesar da economia internacional enfrentar uma onda de inflação global, quando as curvas de inflação  de países vizinhos e de boa parte do mundo dispararam, a Bolívia  chegou a registrar deflação de 0,1% em março deste ano. Ao mesmo tempo, a inflação nas cinco maiores economias latino-americanas atingiu o nível mais alto em 15 anos.

Ao contrário das moedas dos países vizinhos, por vezes sujeitas a fortes variações cambiais, a moeda nacional da Bolívia tem uma taxa de câmbio fixa em relação ao dólar norte-americano, fixada pelo então governo socialista de Evo Morales há mais de dez anos (1 dólar = 6,96 Bolivianos).

Na contramão da política econômica do Brasil que tem a 3ª maior inflação, Bolívia é o país com a menor inflação das Américas
Na contramão da política econômica do Brasil que tem a 3ª maior inflação, Bolívia é o país com a menor inflação das Américas

Por isso enquanto outros países da região tiveram que implementar mecanismos de controle cambial para sustentar sua moeda e há grandes diferenças entre a taxa de câmbio oficial e o preço real da moeda americana na rua, na Bolívia você pode comprar e vender dólares livremente, e a taxa de câmbio é mantida graças ao fato de o governo sustentá-la injetando dólares de suas reservas no mercado.

Na América Latina, o impacto é especialmente doloroso.

De acordo com um relatório recente do FMI (Fundo Monetário Internacional), “para uma região com níveis historicamente altos de desigualdade, a erosão da renda real devido ao aumento dos custos de alimentos e energia aumentará a pressão econômica que as famílias vulneráveis ​​já enfrentam”.

Outras medidas como a nacionalização de hidrocarbonetos pelo ex-presidente Morales permitiram seguir uma política de valorização do boliviano que ao contrário da política econômica privatista do presidente Bolsonaro tem contribuído para a baixa inflação.

O governo do atual presidente Luis Arce manteve a política de Morales de paridade cambial. A força relativa da moeda, em comparação com vizinhos como a Argentina, reduz o custo para a Bolívia de importar mercadorias.

No atual contexto de alta dos preços dos alimentos e do petróleo nos mercados internacionais, uma moeda forte é particularmente vantajosa.

Além disso, como diz José Luis Hevia, pesquisador da Fundação Milenio, “expectativas bem ancoradas em relação à taxa de câmbio fizeram com que as pessoas confiassem na moeda nacional”, outro fator que favorece a estabilidade de preços.

 O Brasil, ao contrário, desde 1999,  adota o modelo de câmbio flutuante, em que a cotação da moeda varia de acordo com a oferta e a demanda do mercado, sem intervenção direta do Banco Central. A desvantagem desse modelo é que a desvalorização excessiva da moeda pode gerar inflação.

A política econômica da Bolívia faz com que enquanto produtores e consumidores em todo o mundo estão sendo atingidos pelo aumento dos preços dos combustíveis e dos alimentos, os bolivianos não tenham sentido esse golpe.

Na Bolívia, o preço da gasolina permanece estável em torno de US$ 0,50 por litro e os itens da cesta básica também não sofreram grandes aumentos.

Apesar de os custos do petróleo continuarem a disparar nos mercados internacionais, o monopólio estatal que distribui gasolina na Bolívia absorveu totalmente esse impacto ao não alterar seu preço subsidiado. Consequentemente, os produtores agrícolas não foram pressionados a repassar aos consumidores finais o aumento de seus custos de produção decorrente do aumento dos preços dos combustíveis, como ocorreu em outros países.

O país também conta com mecanismos que ajudam a conter a inflação no setor de alimentos, como a Empresa de Apoio à Produção de Alimentos (Emapa), estatal que presta apoio financeiro aos produtores agrícolas, e o Fundo Rotativo de Segurança Alimentar, que importa alimentos usando para isso recursos públicos e distribui no mercado para manter os preços baixos.

Em uma de suas ações recentes, o Fundo injetou 10 mil toneladas de farinha de trigo no mercado para evitar o aumento do preço do pão.

Outro freio ao aumento de preços implementado pelo governo são os certificados de exportação que são exigidos para todos os produtos vendidos no exterior. Quando o abastecimento na Bolívia a um preço que as autoridades consideram justo não é garantido, eles podem negar o certificado de exportação, forçando assim um aumento de oferta no mercado interno que também alivia as pressões inflacionárias, ao contrário do Brasil onde as exportações liberadas provocam o desabastecimento interno.

Além disso o Brasil, desde 2016, adota o chamado preço de paridade internacional (PPI), com os combustíveis variando de acordo com a variação do barril de petróleo no mercado internacional e do câmbio, o que deixa o país sujeito às flutuações internacionais.

O país também abandonou nos últimos anos desde 2016 , governo Michel Temer,  sua política de estoques de alimentos pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), um instrumento que ajudava o controle de preços no mercado interno.

O ex-ministro de Evo Morales, Hugo Siles prevê que o governo Arce não vai eliminar subsídios ou alterar o câmbio porque isso significaria transferir o ônus para a grande maioria da população e nem vê motivos para preocupação. Segundo ele, a  Bolívia vende gás, eletricidade e matérias-primas como soja ou minerais, cujo preço no mercado internacional também está subindo, o que trará mais recursos.

Fotos- BBC

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