Para Alysson Mascaro, o verdadeiro eixo ordenador das eleições e da próxima década não reside na retórica punitivista, mas na disputa geopolítica global
A disputa política e eleitoral no Brasil precisa, com urgência, ser resgatada da vala comum do falso moralismo, das guerras de dossiês e do discurso anticorrupção que historicamente serve como biombo para desestabilizar o país e subordiná-lo a interesses forâneos. O diagnóstico foi formulado pelo jurista, filósofo do direito e professor Alysson Mascaro, em entrevista contundente concedida ao jornalista Leonardo Attuch, editor da TV 247.
Ao traçar uma linha direta entre os dez anos da consolidação do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff e a atual conjuntura política, Mascaro alertou que a obsessão por pautas morais e lavajatistas desvia as forças populares da batalha que verdadeiramente decidirá o futuro nacional: a afirmação intransigente da soberania do Brasil em meio à reorganização multipolar do mundo.
O fetiche da corrupção como arma de desestabilização
Na avaliação do jurista, o recurso à pauta anticorrupção e ao moralismo rasteiro não passa de uma tática recorrente das classes dominantes e do capital financeiro para impedir o debate estrutural sobre a exploração econômica e o modelo de desenvolvimento.
“Nós devemos abandonar esta leitura de mundo hipócrita dos falsos moralistas que dizem que corrupto é o outro e ele não é. Temos que superar a disputa mesquinha de quem pauta o dia de acordo com o A batendo no B, a mensagem de WhatsApp vazada de um lado ou de outro. A hora que vencermos esse ciclo, entraremos de fato na grande disputa do nosso tempo”, afirmou Mascaro.
O professor lembrou que foi exatamente sob a égide de um falso moralismo e da canonização de um combate messiânico à corrupção que as instituições da República operaram a ruptura democrática de 2016. Dez anos depois, a engrenagem segue ameaçando pautar os processos eleitorais com os mesmos vícios, substituindo o confronto de projetos estratégicos por escândalos fabricados e vendetas institucionais.
Da tutela jurídica à armadilha da autoajuda
Mascaro observou que o esvaziamento do debate público se dá por duas vias complementares: por cima, pela hipertrofia e tutela permanente do Poder Judiciário sobre o tabuleiro político; por baixo, pela proliferação de discursos de autoajuda e soluções mágicas — representadas por figuras do universo do coaching e da literatura comportamental, como Augusto Cury.
Ao individualizar os problemas coletivos e transformar mazelas sociais decorrentes da crise capitalista em supostas deficiências morais do cidadão, essa ideologia paralisa a capacidade de reação popular.
“Quem resolve a vida é a própria pessoa? Esse moralismo de autoajuda é apenas uma enganação para empurrar o sofrimento adiante e interditar a luta imediata contra a precariedade da vida. Precisamos elevar a consciência da sociedade para além dessas ilusões”, pontuou o jurista.
Soberania nacional ou subordinação ao império em declínio
Para Alysson Mascaro, o verdadeiro eixo ordenador das eleições e da próxima década não reside na retórica punitivista, mas na disputa geopolítica global. Com a perda relativa da hegemonia dos Estados Unidos e a emergência inexorável do Sul Global, o Brasil se encontra em uma encruzilhada histórica.
O jurista enfatizou que, no declínio de seu poder imperial, Washington tende a acentuar a rapina sobre as riquezas naturais, o mercado consumidor e a infraestrutura estratégica da América Latina. Portanto, submeter a eleição a questiúnculas de costumes ou pautas moralistas é fazer o jogo direto da dependência externa.
“O nosso tema nesta eleição, e o nosso tema para os próximos dez anos, é a soberania do Brasil. Ou o país constrói as condições para se libertar das garras do imperialismo e se afirmar soberano e pleno, ou sucumbirá atrelado a esse monstro que sangrou o mundo por décadas.”
O horizonte dos BRICS e o salto histórico
A saída para romper com essa armadilha, segundo Mascaro, está na integração estratégica com o bloco dos BRICS, cuja solidez e capacidade de articulação econômica representam a principal alternativa ao diktat financeiro ocidental.
Ele destacou o simbolismo histórico de ver o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) presidido hoje por Dilma Rousseff — a mesma líder que há exatos dez anos teve o mandato cassado pelo arranjo jurídico-político que prometia “moralizar” o país.
“Temos tudo nas mãos para alçar voo. Se nós não nos perdermos no discurso dos moralistas de ocasião e assumirmos a defesa da nossa soberania e da integração do Sul Global, em dez anos o Brasil poderá se consolidar como uma das grandes potências do planeta. Devemos abandonar a hipocrisia para cultivar a virtude de sermos uma grande nação”, concluiu Mascaro.
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