Coluna da Angélica- O Brasil e o direito ao azar

Coluna da Angélica- O Brasil e o direito ao azar

1- Nada confortável

A situação do prefeito Tião Bocalom (PL), não está boa e tende a ficar pior na medida em que a campanha avança. Seus críticos já prepararam a pipoca para quando bater o desespero. Que segundo eles, virá. Porque é típico de Bocalom, garantem. Ele se desespera e desanda a fazer e dizer bobagens. Ex-apoiadores do prefeito citam como exemplo a reação de Tião Bocalom na campanha de 2020: “quando viu que as pesquisas não se mostravam favoráveis, Bocalom queria colocar uma caixa nas ruas de Rio Branco para a população votar. Queria fazer sua própria pesquisa”. Sem instituto. Sem método. Do mesmo jeito que leva sua administração.

2-Reflexo

Funcionários da prefeitura contam sob a garantia do anonimato que na sede da administração municipal os direitos trabalhistas caíram por terra e as questões pessoais dão um tom maior que os políticos e de trabalho. Reuniões são feitas para gritar com os comandados.  Recentemente uma briga entre cunhados teria resultado em pedido de divórcio e de lotação em outra secretaria municipal. O que teria sido revertido ao colocar a ex-esposa no comando do setor. Proposta condicionada à retomada do casamento. Ela aceitou. O cunhado, não. E diz que não retornará ao trabalho sob o comando da cunhada. Neste clima se desenrola a coordenação de campanha de Boca. Com lentes cor-de-rosa o prefeito apaixonado não enxerga nada. Mas o pau canta.

3-Dificuldades

Para completar o enredo, o PSDB, partido da base aliada do governador decidiu não apoiar a chapa Tião Bocalom/ Alysson Bestene (PP). De acordo com a nota da presidência municipal, o PSDB  vai abrir diálogo com outros pré-candidatos. O que significa que o PSDB pode apoiar a candidatura de Marcus Alexandre (MDB), principal adversário de Bocalom. Olhos atentos observam que os tucanos não tomariam uma decisão destas sem o aval do governador Gladson Cameli (PP). Indícios fortes que nesta eleição na capital Gladson acende uma vela para cada santo. Menos para Emerson Jarude (Novo). Este santo não merece vela. A história está ficando interessante. Aguardemos os próximos capítulos.

4-Irritado

O pastor líder da igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, Silas Malafaia está irritado com o senador Márcio Bittar (União). Malafaia, o atual guru de Bolsonaro diz que Bittar prometeu votar contra o projeto que legaliza os cassinos e demais jogos de azar e não cumpriu. O próprio ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), segundo Malafaia, ligou para Bittar e este respondeu  “voto em quem o senhor quiser”. Mas não apareceu para votar contra o projeto. Três senadores, dentre os quais Márcio Bittar que anunciaram o voto contra, não apareceram para votar. A matéria foi aprovada na CCJ do Senado por apenas dois votos de diferença.  Bittar falhou com Malafaia. E com Bolsonaro. E despertou a ira do pastor que não tem papas na língua e já está fazendo lives dirigidas ao povo do Acre contra Márcio Bittar. Tudo o que Bittar não precisava nesta sua difícil empreitada para 2026.

5-Cobras

Malafaia viu seus esforços irem por água abaixo. Ele fez campanha nas redes sociais contra a aprovação do projeto que legaliza cassinos, bingos, jogo do bicho e corrida de cavalos. Conversou com senadores. Apelou para Jair Bolsonaro. Articulou texto. Telefonou. E deu errado. Segundo o pastor, o crime vai dominar os jogos. Errou o tempo do verbo. O crime não vai dominar os jogos de azar. O crime domina os jogos. Mas não creio que tenha sido esta a motivação de Malafaia. Neurocientistas dizem que a dopamina liberada pelo jogo é o neurotransmissor chamado de hormônio da fé. Vale ressaltar que fé é a crença em algo que não pode ser comprovado objetivamente. A dopamina age da mesma maneira no cérebro do jogador/apostador quanto do religioso. Tanto causa a dependência do jogo quanto as sensações das experiências religiosas. A dependência da liberação de dopamina pelo cérebro é o que leva a casos de hiper-religiosidade ou fanatismo, que é considerado transtorno neuropsiquiátrico. Para os neurocientistas a liberação de serotonina e dopamina, estão relacionadas à sensação de conexão espiritual e às experiências de transcendência. A fé e a espiritualidade podem ativar o sistema de recompensa do cérebro, liberando dopamina. Deixemos a ciência em seu patamar e desçamos ao rés-do-chão onde a compreensão é mais fácil: jogo é um forte adversário para mercadores da fé. Ponto. Se as ovelhas buscarem no jogo sua liberação de dopamina diminuirão os dízimos e ofertas ao pastor. Grandes perdas financeiras. Inclusive na disputa pela rentável lavagem de dinheiro do crime por parte de algumas igrejas. Crime X crime.

6-…e outros bichos

O Jogo do Bicho surgiu no Brasil em 1892 e sofreu a primeira tentativa de criminalização 7 anos depois, em 1899. Em 1932, passou a ser considerado contravenção penal. 92 anos depois o Jogo do Bicho continua firme e forte em todo o Brasil. Da mesma forma que outras coisas como drogas e aborto. É proibido, mas ninguém deixa de fazer ou usar por causa da proibição. O Estado não conseguiu coibir a contravenção. Pelo contrário. Foi durante a ditadura militar que se observou o maior crescimento do Jogo Bicho. A cooptação de membros das forças armadas agregou disciplina, hierarquia, organização administrativa e financeira, divisão do trabalho e espionagem às operações da contravenção. Exemplo disso é o bicheiro Capitão Guimarães que era oficial da ativa do exército quando entrou no jogo do bicho. Veja na Jusbrasil. O SNI sabia que o Jogo do Bicho tinha expandido sua atuação para o contrabando, tráfico de drogas, estelionato e lavagem de dinheiro. E também que financiava atividades culturais como escolas de samba, times de futebol, empresas especializadas em contrabando internacional e formação de milícias privadas. O filho do ditador militar João Batista Figueiredo era genro do sócio do bicheiro Castor de Andrade  em um empreendimento metalúrgico que forneceu produtos como cama, fogões e marmitas ao exército brasileiro. Quando abriu falência a empresa foi salva por uma compra feita pela empresa Coroa – Brastel, arquitetada pelo próprio SNI. O que mostra que desde o primeiro sorteio em 1892 que deu o prêmio aos que apostaram na avestruz, o Jogo do Bicho em 132 anos de atuação no Brasil se modernizou e capilarizou. Com a bênção da elite e auxílio ou omissão do Estado.

7-Riqueza & Relações

Os grandes bicheiros do Rio de Janeiro davam festas frequentadas pela alta sociedade. Em 1993, uma investigação do Ministério Público identificou que os banqueiros do Jogo do Bicho pagavam propina a policiais, artistas e autoridades do judiciário. 14 anos depois, em 2007, a Operação Hurricane da Polícia Federal levou à condenação de dois desembargadores do TRF, de um juiz do Tribunal Regional do Trabalho, de um Procurador da República e de um irmão de um ministro do STJ por envolvimento com o Jogo do Bicho.  Olhos atentos observam que o crime só se estabelece se contar com o apoio direto ou indireto de autoridades. Ao morrer, Castor de Andrade provocou uma guerra pela herança. A disputa resultou em 50 mortes. Com a liberação dos jogos de azar os comandantes do jogo no Brasil tendem a ser engolidos pelos novos senhores do jogo. Provavelmente estrangeiros. É o Brasil importando mafiosos. Como se não bastassem os nacionais.

8-Injustiça

Cometi uma injustiça contra a secretária da Mulher, Mardhia El-Shawwa ao jogá-la na vala dos omissos em relação ao PL do Estuprador. Ela alertou para a necessidade de proteger as mulheres e para o fato do projeto colocar em risco de vulnerabilidade, principalmente as crianças e adolescentes. Mardhia se manifestou no início da polêmica ao contrário dos deputados federais Antônia Lúcia (Republicanos) e Eduardo Veloso (União), que só o fizeram quando o fogo estava alto. E mesmo assim sem adotar um posicionamento. Para os dois deputados a questão tem que ser melhor discutida. Como se o corpo e a vida das mulheres e meninas do Brasil pertencesse ao Congresso. As Excelências têm todo o direito de querer discutir essas questões entre os muros de suas residências quando um caso desses atingir suas famílias e não avocar para si o direito de decidir por milhões de pessoas. Em tempo, evangélicos engrossaram a manifestação deste domingo em Copacabana contra o PL do Estuprador e pedindo Fora Lira. Portanto, é necessário não confundir religiosos com fanáticos fundamentalistas. Ou com aproveitadores da fé.  Estes últimos existem e tentam dominar a cena, mas encontram resistência inclusive dentro das igrejas.

9-Para refletir

No momento em que a Câmara dos Deputados discute a PEC do Trabalho Infantil para legalizar o trabalho a partir dos 14 anos de idade e o  deputado federal Gilson Marques (Novo SC), defende  que adolescente pobre não deve estudar, mas trabalhar, o Pastor André Valadão da Igreja Batista da Lagoinha, a mesma de Nikolas Ferreira (PL), prega que os crentes não mandem seus filhos para a universidade. Segundo o pastor milionário estudar afasta as pessoas de Deus. “Melhor vender picolé”.  O projeto é claro: dominar as pessoas apostando na ignorância profunda. Em tempo, Valadão criou uma área VIP na igreja dele só para ricos e importantes onde poderão exibir suas joias e chacoalhar seus rolex, distantes do cheiro da pobreza. Olhos atentos, atentai.

Bonjour, ex-prefeito de Cruzeiro do Sul, Iderlei Cordeiro.  Comment se porte votre Excellence à Paris? Enquanto desfruta a vida na Cidade Luz, o TCE vai puxando o que tem debaixo do tapete: déficit de mais de 1 milhão e meio de reais na execução orçamentária de sua gestão e outras coisas mais. Sous le pavés, Cruzeiro do Sul. Se fosse um filme poderia chamar-se “Prendeu a irmã e foi para Paris”? São tantas perguntas sem resposta né?

Coluna de opinião e reflexão

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Imagem- Revista Galileu

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