Não por acaso o Ministério do Comércio da China acusou Washington de “transferir a culpa” pela crise do fentanil
O Fentanil é um anestésico 50 vezes mais viciante que a heroína e 100 vezes mais forte do que a morfina. De acordo com o Hospital Santa Mônica que trata dependentes da droga, esse poderoso opioide sintético transforma as pessoas em zumbis que vagam sem rumo pelas ruas e apresentam episódios de overdose nas calçadas.
Quando prescrito por um médico, o fentanil pode ser administrado como uma injeção, um adesivo que é colocado na pele de uma pessoa ou como pílulas, forma mais usada.
Quando vendido ilegalmente, vem como um pó, jogado em papel mata-borrão, colocado em conta-gotas e sprays nasais ou transformado em pílulas que se parecem com outros opioides prescritos.
Traficantes misturam fentanil com outras drogas, como heroína, cocaína, metanfetamina e MDMA. Isso ocorre porque é preciso muito pouco para produzir um barato com fentanil, tornando-o uma opção mais barata. Isso é especialmente arriscado quando as pessoas que tomam drogas não percebem que podem conter fentanil como um aditivo barato, mas perigoso. Eles podem estar tomando opioides mais fortes do que seus corpos estão acostumados e podem ter maior probabilidade de overdose. Além disso, depois de tomar opioides muitas vezes, o cérebro se adapta à droga, diminuindo sua sensibilidade, dificultando sentir prazer com qualquer coisa que não seja a droga. Quando as pessoas se tornam viciadas, a busca e o uso de drogas assumem o controle de suas vidas.
Crise dos opioides nos EUA
O livro O império da Dor, de Patrick Radden Keefe afirma que os opioides nos EUA matam mais que acidentes de trânsito e até mais do que ferimentos à bala. A chamada crise dos opioides iniciou com o uso do analgésico opioide OxyContin, em 1996, produzido pela Purdue Pharma, empresa farmacêutica de propriedade da família Sackler, uma das dinastias mais ricas dos Estados Unidos.
A produção do OxyContin pela Purdue Pharma veio na esteira da pressão para reconhecer e tratar a dor, campanha no fim dos anos 1980 e início dos 90, nos EUA. No final da década de 1990, a Veterans Health Administration, que administra assistência médica para veteranos militares, pressionou para que a dor fosse reconhecida como o ‘quinto sinal vital’. A mesma campanha vem sendo desenvolvida agora no Brasil pela deputada Bia Kicis (PL), assunto do qual trataremos abaixo.
A campanha contra a dor, caiu como uma luva nos Estados Unidos, país que é o maior consumidor de analgésicos do mundo e também um dos dois países do mundo que permitem anúncios de medicamentos prescritos na TV, o outro é a Nova Zelândia. Não por acaso, 80% dos analgésicos opioides produzidos no mundo são consumidos nos Estados Unidos, de acordo com a Sociedade Americana de Médicos Intervencionistas da Dor. Ironicamente o país que liberava opiáceos proibiu Tylenol e Ibuprofeno. Na série Dr House, o protagonista, um brilhante médico, após um infarto muscular na perna passou a viver com dor crônica e desenvolveu o vício em Vicodin, um narcótico a base de ópio.
Pois bem, a Purdue Pharma utilizou estratégias agressivas de marketing usadas para promover o OxyContin e fez um intenso lobby para que mais atenção fosse dada ao tratamento da dor. Primeiro, espalharam que a dor estava sendo subtratada, seguida da mensagem de que os opioides são um tratamento eficaz para todos os tipos de dor. As empresas farmacêuticas dos EUA gastaram mais de US$ 6 bilhões (R$ 32 bilhões) por ano, promovendo seus produtos para atingir o mercado de 50 milhões de estadunidenses que sofriam de algum tipo de dor crônica.
Cooptando médicos que também ganhavam com a venda do opiáceo, a Purdue conseguiu que mais de 650 mil receitas de analgésicos opioides fossem emitidas por dia, durante o ano de 2017, segundo o Departamento de Saúde dos Estados Unidos. Foi uma PPP perfeita: os médicos receitavam e o Departamento de Saúde comprava para a distribuição gratuita. O Oxydin era um dos poucos medicamentos cobertos integralmente pelo seguro de saúde. Em outras palavras, a estrutura do sistema de saúde dos EUA alimentou o uso de analgésicos opioides porque lá não existe um sistema de saúde universal e as pessoas devem comprar seu próprio seguro. A médica Judith Feinberg, especialista em crise de opioides, professora da West Virginia University School of Medicine, explicou que a maioria dos seguros, especialmente para pessoas pobres, só paga por pílulas. Bingo! Os opiáceos fabricados pela indústria farmacêutica é em forma de pílulas na maioria das vezes.
Centenas de milhares de estadunidenses foram viciados em OxyContin e outros analgésicos opiáceos, como Vicodin e Percocet. Vicodin, cloridrato de oxidona, é um opioide sintético usado contra as dores do câncer. O fentanil também é conhecido por nomes como Actiq®, Duragesic® e Sublimaze®.
Segunda crise dos opiáceos
A partir das milhares de mortes por overdose e denúncias de familiares a justiça dos Estados Unidos passou a investigar a produção dos analgésicos a base de opiáceos. Médicos foram presos por receitar esses medicamentos sem controle. Isso causou uma queda no uso legal dos opiáceos. Centenas de milhares de pessoas incapacitadas para o trabalho e viciadas no uso, passaram a recorrer a outro opioide, desta vez ilegal: a heroína. Toda a história está atestada no documentário O império da dor, disponível na Netflix.
Terceira onda
Muitos viciados mudaram para opioides sintéticos, em particular o fentanil. A terceira onda que ainda está acontecendo, mata cerca de 136 pessoas por dia, de acordo com o Centro para o Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). Nas primeiras décadas do século 21, cerca de 500 mil (meio milhão) de estadunidenses morreram por conta de overdose relacionada a algum opioide, seja de uso ilegal ou receitado por um médico, segundo o CDC.
EUA uma nação viciada em analgésicos
Benjamin Y. Fong, explica no livro Soluções Rápidas: Drogas na América, da Proibição ao Binge do Século XXI, que o fato dos estadunidenses, em comparação com os habitantes de outras nações industrializadas, estarem mais sujeitos às formas predatórias do capitalismo, os leva a buscar uma combinação de estimulantes para animar durante o dia, o que ajuda no desempenho do trabalho e depois encontrar uma variedade diferente de drogas para relaxar em preparação para o próximo dia. “Seja para ser mais criativo em sessões de brainstorming no trabalho ou para “brilhar” em festas de escritório miseráveis”. Vale destacar que a Lei Seca que proibia a fabricação e o consumo de bebidas alcoólicas nos EUA e que durou de 1920 a 1933, foi decretada porque achavam que o álcool era um obstáculo real para criar uma força de trabalho eficiente.
O autor ressalta que anúncios de medicamentos na TV dos EUA, uma sociedade estressante, são exibidos há muito tempo. Segundo ele, alguns anúncios farmacêuticos dos anos 1960 e 1970 são bastante chocantes. “As mensagens são algo como: Preocupado com Cuba e Tchecoslováquia? Tome Librium! Sobrecarregado em uma cela doméstica isolada? Tome Serax!
Alinhada com a indústria farmacêutica Bia Kicis tenta facilitar o uso de opiáceos no Brasil
Em setembro de 2024, a deputada federal bolsonarista Bia Kicis (PL), apresentou um projeto de lei para facilitar o uso de opiáceos no Brasil. Antes disso, no governo Jair Bolsonaro (PL), mais precisamente, em julho de 2022, 4 meses antes da eleição presidencial , o genérico do opiáceo Vicodin, cloridrato de oxidona, foi aprovado pela Anvisa.
O Projeto de Lei 336/2024, de Bia Kicis propõe a institucionalização de cursos sobre dor nas faculdades de medicina, criar o dia nacional de conscientização e enfrentamento da dor crônica e dar atendimento integral no Sistema Único de Saúde a pessoas com dor crônica. Bem semelhante à campanha desenvolvida nos Estados Unidos que antecedeu a crise dos opiáceos. Segundo a coluna de Guilherme Amado, o projeto foi apresentado a Kicis pelo médico Carlos Marcelo de Barros, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos da Dor, entidade que recebeu US$ 39 mil dólares, cerca de R$ 200 mil, da Mundipharma, distribuidora da Purdue, empresa apontada como responsável pela crise de opiáceos nos EUA.
Fontes: Revistas, The New Yorker, Fórum, Outras Palavras, Hospital Santa Mônica
Imagem- Veja
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