Classe social, tudo a ver: sem poder econômico, Tiradentes foi o único condenado à pena de morte

Classe social, tudo a ver: sem poder econômico, Tiradentes foi o único condenado à pena de morte

Todos os outros foram condenados ao exílio. Tiradentes à morte por enforcamento

Tiradentes é conhecido por seu envolvimento na Inconfidência Mineira (Conjuração Mineira), uma conspiração separatista que tinha como objetivo tornar a Capitania de Minas Gerais autônoma em relação ao domínio da Coroa Portuguesa. O movimento era fortemente influenciado pelas ideias do Iluminismo francês e contrário à tributação abusiva do Império, especialmente à cobrança da chamada “derrama” — um sistema de recolhimento forçado de impostos em ouro.

A corda sempre arrebenta do lado mais fraco

Embora outros nomes relevantes também estivessem envolvidos na conspiração — como o tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade e os poetas Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, além de Alvarenga Peixoto e do próprio Tiradentes —, o plano foi descoberto após uma delação feita por portugueses interessados em obter o perdão de suas dívidas com a Coroa.  Apenas Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes),  foi condenado à pena máxima, morte.

Ele foi executado e esquartejado em praça pública em 21 de abril de 1792.  Sua cabeça foi pendurada em um poste em Vila Rica (atual Ouro Preto), e sua casa foi “arrasada e salgada”, conforme ordenava o decreto real que o condenou.

Todos os demais conspiradores receberam apenas penas de degredo — ou seja, foram exilados.

Tiradentes era o único entre os réus a não pertencer à elite econômica ou intelectual da colônia — era um militar de baixa patente e filho de um pequeno agricultor, sem poder político ou econômico enquanto os outros inconfidentes eram nobres, párocos, desembargadores e grandes proprietários. Por isso foi transformado em símbolo de traição à Coroa.

Portanto, o motivo para essa diferença tão marcante entre as sentenças está justamente na posição social de Tiradentes, segundo análise de historiadores.

A falta de um sobrenome influente para protegê-lo fez dele o alvo ideal para que a Coroa enviasse um “recado” à população sem comprar briga com as elites locais.

De conspirador a herói

Quando a República foi proclamada em 1889, os novos governantes precisavam de heróis. Figuras que inspirassem um país recém-nascido, livre da monarquia, e que carregassem os valores de liberdade, igualdade e fraternidade. Como pano de fundo, claro, existia o receio de que o povo se revoltasse contra a mudança de regime.

Foi aí que Tiradentes, filho de um fazendeiro com escravos e aprendiz de dentista deixou de ser “traidor” da Coroa e virou mártir. Seu visual — que mal foi registrado na época — ganhou contornos quase messiânicos: barba longa, olhar sereno, uma espécie de Jesus brasileiro da revolução. Encomendaram imagens do patrono revolucionário, e apesar de Tiradentes durante boa parte da vida não usar barba e para a execução estar careca, até hoje o conhecemos à imagem de Cristo.

A memória dele foi cuidadosamente reconstruída, agora como símbolo de bravura, patriotismo e sacrifício. O rosto do início da República.

Assim, Tiradentes foi escolhido dentre centenas de outros heróis que vieram antes dele.  Promovia-se aí um dos grandes exercícios da ciência histórica: apagava-se pessoas para destacar alguém.

A trajetória simbólica de Tiradentes é uma lição sobre como a história é escrita — e reescrita — por quem está no poder. O mesmo homem que foi esquartejado virou o nome de ruas e praças. A data de sua morte, 21 de abril, se tornou feriado nacional. De bandido a herói em algumas décadas — bastou mudar o regime. Seu nome, inclusive, foi o primeiro a ser inserido no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, já no século XX.

Ele é Patrono Cívico do Brasil por decreto do presidente Eurico Gaspar Dutra, desde 1946. Gaspar Dutra era um militar e foi o  16. º presidente do Brasil entre 1946 e 1951. Ele assinou um Decreto-Lei nº 9208 de 29 de abril, instituindo o dia 21 de abril como o Dia das Polícias Militares e Civis, com Tiradentes como Patrono Cívico da Nação e das Polícias Militares e Civis do Brasil, fazendo com que esta data também sirva como uma forma de reconhecer a importância do profissional de segurança.

Por isso, neste dia 21 de abril, dia da morte de Tiradentes, também se celebra o dia das policias brasileiras e, consequentemente, seus profissionais.

Em 1964, em plena ditadura militar, o Teatro de Arena contava Tiradentes em uma peça que ajudou a reforçar na contemporaneidade a ideia do militar como símbolo revolucionário. Tanto que a data de sua execução se tornou feriado nacional em 1965, durante o governo de Castello Branco, na Ditadura Militar, quando foi sancionada a Lei nº 4.897.

Fontes: Revista Fórum ; Jornal GGN, O São Gonçalo.

 

 

Veja também

O futebol não perdoa a covardia. A política também não

O futebol não perdoa a covardia. A política também não

Lula não teria vencido em 2022 e o PT não existiria hoje se tivessem desistido …