Coluna da Angélica: qual é o lugar de Marina?

Coluna da Angélica: qual é o lugar de Marina?

A pergunta endereçada a Marcos Rogério (PL), senador ali do vizinho estado de Rondônia, se responde automaticamente, mas a questão é mais ampla: o que o homem branco quis realmente dizer à mulher negra com “coloque-se em seu lugar”? Que o Senado, o ministério, o destaque, não é lugar de mulher negra? Que lugar de mulher e negra é subalterno? Inferior ao lugar do homem branco?

Menos ainda de uma Maria Osmarina,  negra humilde, nascida no Seringal Bagaço, analfabeta até os 15 anos que rompeu com o destino imposto graduando-se na universidade e galgando os degraus políticos que a levaram ao reconhecimento mundial. Foi vereadora por Rio Branco, deputada estadual, senadora e ministra duas vezes, sem nunca ter negado seu passado.

Quando era senadora, conversávamos no aeroporto de Rio Branco enquanto ela esperava o voo para Brasília. De repente me disse: “conheço aquele menino. Cuidei dele quando era pequeno. Eu trabalhava de doméstica na casa dele”, disse com a voz trêmula enquanto me arrastava pelo saguão lotado em busca da família. Ao encontrá-los, se apresentou aos incrédulos ex-patrões. Não era mais a Maria Osmarina que mandavam fazer o serviço. Não usava mais vestidinho de chita. Era a senadora Marina Silva feliz e emocionada por reencontrar o passado.

E é esta pessoa que o senador Plínio Valério (PSDB), do também vizinho estado do Amazonas queria enforcar. Durante uma audiência da CPI das ONGs, Plínio Valério disse: “imagine o que é tolerar a Marina 6 horas e 10 minutos sem enforcá-la?”

Nem vamos confrontar a história de Marina com as dos senadores brancos que a desrespeitaram. Marcos Rogério, evangélico de Ji-Paraná, filho de agricultores que ao que tudo indica migraram do sul do país para Rondônia e Plínio Valério que conquistou a simpatia dos amazonenses lendo salmos e mensagens bíblicas na rádio enquanto Marina participava das lutas dos trabalhadores, da fundação da CUT no Acre e se acompanhava de Chico Mendes.

É inegável que ela tem posições radicais em relação à questão ambiental que nem todos concordam. Mas é possível discordar e debater com educação e respeito, embora a política brasileira tenha descido ao subsolo do abismo. Já que não dá para cobrar que antes de assumir o mandato os parlamentares sejam obrigados a fazer um cursinho intensivo de política talvez fosse interessante o Senado distribuir o Manual Prático de Boas Maneiras do Congressista, para ensinar o básico. A civilidade.

Maria Osmarina saiu lagarta das barrancas do Rio Acre para ganhar o mundo com asas de borboleta Marina, enquanto no lamaçal da ignorância e truculência, os sapos coaxam com inveja. Mas a sociedade brasileira não pode tolerar a violência política de gênero e contra isso não bastam meras manifestações como esta. Porque o lugar de Marina, goste ou não vossa excelência senador vizinho, é o que ela alcançou e tem a palavra Respeito, em letras garrafais.

Eu sou a favor da exploração do petróleo na Margem Equatorial e discordo de muitos posicionamentos de Marina. Não tenho nada em comum com a história ou com a genética dela.  Sequer sou acreana, mas entendo que me posicionar contra os toscos que habitam o Congresso Nacional  é uma questão de justiça. Lembrar as eleitoras de Rondônia e Amazonas,  que homens que desrespeitam uma mulher, que além de negra é  idosa, mostra que não são capazes de respeitar as mulheres, também.

Que o episódio seja educativo, afinal temos uma eleição no ano que vem e com ela a possibilidade de elevar o nível para atores que defendam os interesses do povo. Já deu né?

 

Coluna de opinião

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