Empresa de software negociado por Bolsonaro terá que indenizar WhatsApp por invadir contas ilegalmente

Empresa de software negociado por Bolsonaro terá que indenizar WhatsApp por invadir contas ilegalmente

Justiça dos EUA condena criadora do Pegasus a pagar US$ 167 mi por espionagem contra 1,4 mil usuários. Governo Bolsonaro tentou comprar a tecnologia

A NSO Group, empresa israelense por trás do controverso software espião Pegasus — que teve sua aquisição negociada por procuradores da Operação Lava Jato e pelo governo Jair Bolsonaro (PL) —, foi condenada por um júri dos Estados Unidos a pagar US$ 167 milhões ao WhatsApp por invadir ilegalmente 1,4 mil contas em 2019. A decisão foi divulgada nesta quarta-feira (7) pela BBC, que destaca o caso como a primeira vez em que uma desenvolvedora de spyware é formalmente responsabilizada na Justiça por explorar falhas de segurança em plataformas digitais.

Além da multa principal, a NSO Group deverá pagar outros US$ 444 mil à Meta, dona do WhatsApp, por danos complementares. O Pegasus é um software capaz de infectar remotamente celulares para acessar microfones, câmeras e outras funções, sem o conhecimento do usuário. Segundo a BBC, a empresa israelense vendeu o programa a governos autoritários que o utilizaram para espionar jornalistas, ativistas, líderes políticos e até membros de famílias reais árabes.

No Brasil, o governo Bolsonaro tentou adquirir – incentivado por Carlos Bolsonaro – o Pegasus em meio a uma estratégia mais ampla de monitoramento, o que gerou fortes críticas de entidades civis e organizações de direitos humanos. As tratativas para a compra foram reveladas por reportagens de veículos nacionais e internacionais.

Segundo Jamil Chade, do UOL, em petição enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF) anos atrás, a defesa do presidente Lula (PT) relatou, com base em dados da Operação Spoofing, que a “a Operação Lava Jato teve contato com diversas armas de espionagem cibernética, incluindo o aludido dispositivo Pegasus”. O documento foi assinado pelos advogados Valeska Teixeira Martins e Cristiano Zanin, hoje ministro do STF.

“Primeira vitória contra o uso de spyware ilegal” – A Meta comemorou a decisão. “A decisão do júri de forçar a NSO a pagar indenizações é um alerta crítico para essa indústria maliciosa, diante de seus atos ilegais direcionados a empresas norte-americanas”, afirmou a empresa em nota. Segundo o WhatsApp, trata-se de uma “primeira vitória contra o desenvolvimento e uso de spyware ilegal”.

Já a NSO Group afirmou que vai “examinar cuidadosamente os detalhes do veredicto e buscar os recursos legais apropriados, incluindo a possibilidade de apelação”. A companhia sustenta que o Pegasus é destinado apenas para uso por autoridades autorizadas na investigação de crimes graves e terrorismo, argumento que tem sido contestado por investigações internacionais.

O escândalo em torno do Pegasus explodiu em 2021, quando uma lista com mais de 50 mil números de telefone possivelmente espionados foi vazada à imprensa global. Entre os alvos estavam presidentes, diplomatas, executivos, ativistas e mais de 180 jornalistas. A investigação do grupo canadense Citizen Lab também revelou indícios de que até funcionários do governo britânico foram hackeados, incluindo integrantes do gabinete do primeiro-ministro e do Ministério das Relações Exteriores.

Entre os nomes mais conhecidos monitorados com o spyware estão o presidente da França, Emmanuel Macron, e pessoas próximas ao jornalista saudita Jamal Khashoggi, assassinado em 2018 no consulado da Arábia Saudita em Istambul.

A decisão desta semana reforça o cerco jurídico e político em torno da NSO Group e abre caminho para que outras gigantes da tecnologia, também alvos do Pegasus, busquem reparação judicial. Via Brasil 247.

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