Janja foi só o pretexto: objetivo é evitar a regulação das big techs no Brasil

Janja foi só o pretexto: objetivo é evitar a regulação das big techs no Brasil

O Vale do Silício e a guerra informacional

O que está em jogo é a ideologia tecnolibertária que domina o Vale do Silício e influência diretamente o debate sobre regulação no Brasil. Essa visão prega que qualquer tentativa de limitar o poder das plataformas é censura, quando, na verdade, busca manter intacto o domínio das big techs sobre os fluxos de informação. É uma ideologia funcional ao projeto político da extrema-direita, que usa essas mesmas plataformas para espalhar desinformação, promover o ódio e sabotar instituições democráticas.

No Brasil, esse modelo foi importado sem mediação. As big techs atuam livremente, sem responsabilidade legal proporcional ao seu impacto. Qualquer tentativa de regulação vira alvo de pânico moral e campanhas articuladas que misturam paranoia anticomunista e defesa abstrata da liberdade de expressão.

O inimigo não é a regulação, é a dominação

O debate público no Brasil não pode ser sequestrado por interesses que não querem discutir regulação, mas sim impedir qualquer tentativa de enfrentamento à lógica predatória das plataformas digitais. Quando uma mulher denuncia os efeitos do TikTok sobre crianças, o que deveria ser uma pauta humanitária e de saúde pública se transforma, por obra da mídia e da extrema-direita, em uma alegada ameaça comunista. Essa inversão não é um erro. É uma estratégia.

Regular as redes sociais não é copiar o modelo chinês. É recusar o modelo da submissão. É afirmar que o Brasil tem o direito e o dever de construir suas próprias regras, com base em seus valores democráticos e em sua Constituição. Quem diz que isso é censura está defendendo o monopólio de empresas privadas sobre a esfera pública. Está defendendo que decisões fundamentais sobre o que vemos, sentimos e pensamos continuem sendo tomadas por algoritmos opacos e conselhos de administração nos Estados Unidos.

O que o episódio deixou evidente é que o problema não está na fala de Janja, mas no fato de que, pela primeira vez em muito tempo, o poder das plataformas começou a ser desafiado no campo diplomático. E isso assusta. Porque onde há soberania, há risco para quem lucra com a dominação. O verdadeiro inimigo da liberdade não é a regulação. É a omissão. É a captura da democracia por interesses que não têm rosto, mas têm servidores, acionistas e planos de longo prazo. Enquanto isso, o Brasil segue precisando proteger seus filhos. Inclusive dos que gritam liberdade enquanto vendem desinformação.

A análise é do jornalista Reynaldo Aragon Gonçalves, pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC) e do INCT em Disputas e Soberania Informacional, em artigo disponível Aqui

Segundo ele, o episódio de Janja se encaixa nesse roteiro. O escândalo não foi espontâneo. Foi fabricado para proteger um modelo de impunidade informacional que beneficia justamente aqueles que lucram com o caos.

 

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