Atitudes do ex-presidente só levantam questionamentos cujas respostas são contra ele
Nas escadarias do Salão Verde, ostentando seu mais novo adereço – uma tornozeleira eletrônica auditável -, o ex-presidente inelegível, único chefe do Executivo não reeleito desde o fim da ditadura militar, fez um discursinho sob medida para cortes nas redes sociais de seus cúmplices. O pronunciamento, recheado de mentiras, seria apenas risível, não fosse criminoso: “Não roubei os cofres públicos, não desviei recurso público, não matei ninguém”, blá, blá, blá.
E a morte de mais de 700 mil brasileiros e brasileiras durante a pandemia de COVID-19, – muitas das quais poderiam ter sido evitadas caso as vacinas tivessem chegado antes, caso não tivesse faltado oxigênio em Manaus, caso o então presidente da República não tivesse feito campanha contra a vacinação e incentivado aglomerações -, pode ou não ser entendida como contribuição direta ou indireta para a ocorrência de crimes contra a vida?
De fato, Bolsonaro não está “tornozelado” por esses crimes – ao menos por enquanto. A restrição de liberdade imposta decorre de sua atuação na continuidade da tentativa de golpe contra a democracia brasileira: por ter contribuído direta ou indiretamente, planejando, financiando, se beneficiando ou incentivando um crime de lesa-pátria. A tornozeleira e a restrição de circulação noturna e nos finais de semana foram determinadas porque seu filho, o 03, articula com o governo dos Estados Unidos sanções contra o Brasil com tarifas que já afetam setores da economia nacional e ameaçam milhares de empregos, além de retaliações contra autoridades brasileiras, como a suspensão do visto do Procurador-Geral da República e de ministros do STF.
As medidas determinadas pelo STF, por solicitação da PGR atendendo a pedido da Polícia Federal, visam dar um basta ao escárnio que a família Bolsonaro tem praticado contra o país. Em uma explícita continuidade do ataque ao Estado Democrático de Direito, numa tentativa desesperada de salvar o patriarca de uma condenação iminente. O teatro encenado nesta segunda-feira na Câmara buscou mais uma vez pressionar as instituições. Mas, ao que tudo indica, será mais um tiro saindo pela culatra, piorando ainda mais a situação do mitômano.
Por Oliveiros Marques. Sociólogo
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