Esse tipo de violência envolve execuções sumárias e ocultação de cadáveres
O boletim anual sobre desaparecimentos forçados da organização Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJRacial) identificou a existência de 116 cemitérios clandestinos na Baixada Fluminense, um aumento de 26% em relação ao ano anterior. O município de Nova Iguaçu registrou o maior número de locais de desova. Somado a Duque de Caxias e Belford Roxo, as cidades concentram 55% dos casos.
A prática de fazer desaparecer (desaparecimento forçado), envolve execuções sumárias, ocultação de cadáver e cemitérios clandestinos. As vítimas desse tipo de crime são, em geral, sequestradas, torturadas e mortas. Seus corpos são destruídos ou escondidos em locais que podem ser terrenos baldios, lixões, e até mesmo rios.
Um dos exemplos mais emblemáticos desse tipo de violência envolvendo o banditismo chamado de desaparecimentos forçados é do que ficou conhecido como o Caso dos Meninos de Belford Roxo, que envolve o assassinato de Lucas Matheus, de 8 anos, Alexandre da Silva, de 10, e Fernando Henrique, de 11 que segundo apuração da Polícia Civil, foram autorizados pelo tráfico na região, mas os corpos nunca apareceram. Eles foram vistos pela última vez no dia 27 de dezembro de 2020.
A mistura letal das milícias e do tráfico de drogas faz com que a população das comunidades convivam com o desaparecimento de seus familiares. Alheios ao problema, senadores e deputados federais gastam tempo e recursos públicos em debates de interesses próprios como anistia para Jair Bolsonaro (PL) e impedimentos para que o STF os investigue enquanto mofa nas gavetas do Senado um projeto de lei que tipifica o crime de desaparecimento forçado. O projeto de Lei nº 245 de autoria do senador Vital do Rêgo (MDB), foi apresentado em 2011. Está há 14 anos no Senado sem ser discutido.
Segundo o IDMJRacial, os territórios com mais cemitérios clandestinos são controlados por grupos de extermínio, e facções do tráfico e milícias que se utilizam desses locais para descartar corpos após assassinatos
Normalmente as milícias e os grupos de extermínio são integrados ou comandados por policiais. Exemplo disso é o caso do Comando C4, desmontado pela Polícia Federal em maio de 2025, na 7ª Fase da Operação Sisamnes. O Comando de Caça a Comunistas, Corruptos e Criminosos (Comando C4), era um grupo de extermínio formado por civis, militares da ativa e da reserva.
A atuação do Comando C4 envolvia negociações de venda de sentenças judiciais com menções a juízes de diferentes tribunais do país, incluindo gabinetes de ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Expansão das milícias
Nos últimos anos, houve uma expansão dos territórios sob o controle das milícias em todo o estado do Rio, especialmente na Baixada. Segundo o mapeamento, dos 17 cemitérios clandestinos de Belford Roxo, apenas cinco ficam em áreas de domínios do varejo de drogas; enquanto 12 estão localizados dentro de áreas dominados por milícias.
Segundo a pesquisa, 13 pontos dos rios Sarapuí, Guandu e Botas são utilizados como área de desova na Baixada Fluminense, além de 16 pontos da linha férrea. Embora esse tipo de violência seja de amplo conhecimento, ainda não é possível sistematizar o número de cadáveres e ossadas encontrado nesses locais.
Um dos entraves é justamente a falta de tipificação na legislação brasileira, algo recomendado por organismos internacionais há anos. “Os casos que deveriam ser tipificados como desaparecimento forçados são alocados de forma decadente e leviana na categoria de pessoas desaparecidas”, problematiza o texto.
A publicação do IDMJRacial ainda relaciona a especulação imobiliária em áreas dominadas por milícias com a prática de desaparecimento forçado.
Jair Bolsonaro defensor de milícias e grupos de extermínio
Por sugestão do pai, Jair Bolsonaro, Flávio entregou inúmeras medalhas a policiais, mesmo àqueles flagrados em ações suspeitas. Durante seus quatro mandatos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Flávio Bolsonaro aprovou 495 moções e concedeu 32 medalhas a policiais militares, policiais civis, bombeiros, guardas municipais e membros do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. As homenagens, que naqueles anos não passavam de agrado à sua base eleitoral, acabaram deixando um rastro das afinidades da família Bolsonaro com os milicianos mais perigosos do Rio. A insistência em condecorar os maiores vilões da corporação deixou cristalizada a ideologia de guerra que Jair Bolsonaro sempre sustentou.
As primeiras homenagens ocorreram ainda no primeiro ano do mandato de Flávio Bolsonaro, no dia 27 de outubro de 2003. O sargento Fabrício Queiroz estava entre os laureados e recebeu uma moção de louvor e congratulações concedida pelo Parlamento. A estrela principal, contudo, foi Adriano Magalhães da Nóbrega, o tenente que carregava na bagagem a marca da caveira do Bope e a parceria com Queiroz nas vielas da Cidade de Deus. Na homenagem, havia ainda sete integrantes do Grupo de Ações Táticas do 16º Batalhão de Olaria, onde Adriano passara a trabalhar poucos meses antes. [Posteriormente Adriano foi acusado de chefiar o grupo criminoso conhecido como Escritório do Crime, que teria envolvimento com a morte de Marielle Franco. Ele foi morto pela polícia baiana em fevereiro de 2020.
Entre homenageados acusados de crimes diversos, estava o capitão Ronald que havia sido acusado de participar da chacina de quatro jovens —entre eles um garoto de treze anos— na casa de espetáculos Via Show, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Os PMs espancaram os garotos e os levaram para uma fazenda distante, onde foram torturados e depois assassinados com tiros de fuzil. Os corpos foram encontrados três dias depois num cemitério clandestino.
No caso de Adriano e de seus colegas do Grupo de Ações Táticas do 16º Batalhão, a homenagem ocorreu um mês antes de uma situação suspeita e escandalosa, que estouraria em seguida. Depois da homenagem de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio, Adriano e os policiais laureados foram presos, acusados de sequestro, tortura e extorsão de três jovens em Parada de Lucas, comunidade da zona norte da cidade. Segundo testemunhos, os policiais aplicavam a velha prática da mineração [tentativa de cobrar dinheiro de pessoas ligadas ao tráfico] e do arrego. Contudo, um homicídio em especial desafiou a Secretaria de Segurança, comandada na época por Anthony Garotinho, que assumira o posto na gestão de sua esposa e sucessora no governo do Rio, Rosinha Garotinho.
A vítima de Adriano e sua tropa foi o guardador de carros Leandro dos Santos Silva, de 24 anos, morto com três tiros. Antes de ser assassinado, Leandro esteve na Inspetoria de Polícia, órgão criado por Garotinho com a finalidade de apurar desvios de policiais, para fazer uma denúncia. Contou que, na semana anterior, tinha sido espancado por policiais do 16º Batalhão e foi obrigado a pagar mil reais a eles. De acordo com o depoimento de Leandro, os policiais usaram sacos plásticos para asfixiá-lo e exigiram outros mil reais para deixá-lo em paz. Leandro foi levado à delegacia para confirmar as denúncias e depois encaminhado ao Instituto Médico Legal para o exame de corpo de delito. O subsecretário de Segurança, Marcelo Itagiba, e o inspetor combinaram com Leandro um flagrante, para prenderem o grupo no ato do pagamento do arrego. Não deu tempo. Ele foi assassinado às 6h30 na porta de casa.
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