Vizinhança perigosa: cartéis mexicanos poderiam retaliar EUA com mais força que Al-Qaeda e Estado Islâmico

Vizinhança perigosa: cartéis mexicanos poderiam retaliar EUA com mais força que Al-Qaeda e Estado Islâmico

Cartéis mexicanos não são bandidos pé de chinelo. São estruturas poderosíssimas com armamento comparável aos de exércitos

Traficantes de drogas e pistoleiros de cartéis não empunham mais apenas pistolas ou rifles automáticos, dizem autoridades e especialistas, mas também minas terrestres Claymore, drones carregados com produtos químicos tóxicos e bombas, granadas propelidas por foguete, morteiros construídos com tubos de tanques de gás e caminhões blindados equipados com metralhadoras pesadas, além de lançadores de granadas capazes de derrubar aeronaves, fuzis de assalto AK47 e metralhadoras como a Browning M2 calibre .50, uma das mais poderosas utilizadas pela infantaria dos EUA. Eles também estão fabricando seus próprios veículos blindados, inclusive submarinos e suas próprias minas terrestre.

Analistas de segurança dizem que os cartéis começaram a se militarizar em meados dos anos 2000, quando Los Zetas, um grupo formado por ex-membros do exército, trouxe disciplina no campo de batalha, comunicações criptografadas e armamento pesado ao crime organizado. Segundo eles a maioria das armas de nível militar adquiridas por grupos poderosos teve origem nos Estados Unidos. Estima-se que  500 mil armas de fogo são contrabandeadas para dos EUA para o México por ano, inclusive fuzis característicos de exércitos em guerra, metralhadoras e armamentos antitanques. As autoridades afirmam que criminosos também realizam engenharia reversa de armas, às vezes imprimindo peças em 3D para construí-las.

Segundo os  especialistas essa evolução e militarização das armas do crime organizado no México conta com o emprego de ex-soldados profissionais e o crescimento da corrupção em todos os setores de todos os países.

Durante seu governo ex-presidente López Obrador entrou com um processo contra um grupo estadunidense de empresas fabricantes de armas.  “Elas fabricam armas que são vendidas para os clientes do México que se dedicam à delinquência organizada”, disse ele à época.

Mas nem só do tráfico de armas dos Estados Unidos sobrevivem os cartéis mexicanos, Os cartéis também obtém armas de policiais, militares e funcionários corruptos do governo. Quando as autoridades apreendem armas de grau militar dos cartéis, elas nem sempre são destruídas e podem voltar para eles mediante um pagamento.

A militarização dos cartéis mexicanos é um problema para o México. A partir do momento em que o primeiro deles,  Los Zetas adquiriram um arsenal militar mais robusto, seus rivais também o fizeram. Essas organizações criminosas lutam entre si e disseminam o terror e mortes entre a população que não pertence aos cartéis mas fica refém da violência.  As forças de segurança mexicanas também responderam com equipamentos e táticas cada vez mais sofisticados. O que amplia as consequências para a população civil. O México tem sete grandes cartéis em ação.

Para piorar nos últimos anos, os cartéis vêm aumentando seus conhecimentos e capacidade para fabricar suas próprias armas, como  minas terrestres e drones armados. O melhor exemplo de fabricação caseira são aqueles conhecidos como “monstros” ou “narcotanques”.

“Esses veículos blindados evoluíram – de ter apenas portas de armas, nas quais enfiavam canos de armas, a estruturas fixas de armas (para metralhadoras e rifles Barret calibre .50) e torres blindadas giratórias que contém essas armas”, afirma Bunker.

Para Robert J. Bunker e John P. Sullivan, autores de dois livros sobre os avanços e as táticas dos cartéis mexicanos nos últimos anos reflete “um aumento da violência potencialmente indiscriminada”. “Às vezes, isso se aprende na prisão”.

Ameaça de Trump

Analistas internacionais não acreditam na possibilidade de Trump lançar uma ação militar unilateral contra os cartéis em território mexicano e estimam que o governo dos Estados Unidos agirá dentro dos arranjos militares pré-existentes.

A ameaça de uma operação militar estadunidense em território mexicano tem o propósito de forçar o governo do México a ampliar sua cooperação com os EUA, analisam, em função do risco de levar os ataques dos cartéis mexicanos para dentro do território dos Estados Unidos.

James Bosworth, fundador da empresa de análise de risco político Hxagon, em um recente boletim disse que  os cartéis mexicanos poderiam causar grandes prejuízos às forças militares dos EUA, caso estas optem por realizar operações no México. E adverte que os cartéis “têm capacidade, armamento e pessoal para levar essa luta até o território dos Estados Unidos de uma forma que Al-Qaeda e o Estado Islâmico só podem sonhar.”

Militarizar guerra às drogas: mais danos

Dan DePetris, analista de segurança da organização Defense Priorities, indicou que uma incursão militar dos EUA poderia não surtir efeito. “Bombardear laboratórios é algo atrativo porque dá aos Estados Unidos a ilusão de progresso, sem de fato resolver nada. Uma hipotética ação militar no México poderia destruir alguns desses laboratórios e matar membros de cartéis, mas os incentivos financeiros e os lucros são tão altos que o negócio provavelmente continuaria apesar de tudo”, afirmou em entrevista ao La Jornada. “Vimos como isso evoluiu na Colômbia nos anos 1990, onde a queda do cartel de Medellín simplesmente abriu espaço para o fortalecimento do cartel do Golfo. O ambiente no México hoje é ainda mais complexo.”

A doutora Aileen Teague, professora assistente na Escola Bush da Universidade Texas A&M, afirma que os formuladores de políticas seguem sem aprender as lições do passado. “Os Estados Unidos pressionam seus parceiros mexicanos a usar força militar, e isso tem consequências não intencionais que aumentam a violência e a instabilidade no México — e, em alguns casos, contribuíram para o fortalecimento de algumas dessas organizações do narcotráfico”, apontou.

“Acho que se pode argumentar que militarizar a guerra contra as drogas a torna ainda pior e, de fato, alimenta a economia ilícita — é isso que argumento no meu livro”, segue a especialista sobre sua obra, que acaba de concluir e será lançada em breve, Os Estados Unidos, o México e as origens da moderna guerra às drogas, 1969–2000,  que detalha a história da cooperação bilateral entre Estados Unidos e México na questão das drogas.

A especialista conclui: “Esse é um problema com raízes mais profundas. A força militar não é uma ferramenta eficaz contra os cartéis”, acrescenta Teague, que é veterana dos Fuzileiros Navais dos EUA. “Melhorar a segurança pública é importante, mas isso precisa estar acompanhado de uma abordagem voltada para o desenvolvimento”, sublinhou.

 

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