Eleição do líder do Partido Republicano marca retorno da extrema-direita ao poder após 35 anos e expõe histórico ideológico e propostas controversas
A eleição de José Antonio Kast para a Presidência do Chile representa uma inflexão profunda no cenário político do país e reacende debates sobre o retorno do pinochetismo ao centro do poder. Aos 59 anos, o líder do Partido Republicano venceu o segundo turno com 58,17% dos votos válidos, superando o candidato de centro-esquerda identificado com a continuidade do governo de Gabriel Boric e assegurando um mandato de quatro anos a partir de março de 2026.A vitória, conforme análise publicada pela Telesur, ocorre em um contexto de desgaste do governo Boric, marcado por uma condução considerada tímida, ausência de um projeto nacional claro e manutenção de políticas neoliberais de controle social. Esse cenário abriu espaço para a ascensão de uma candidatura de extrema-direita, permitindo o retorno explícito do pinochetismo ao Palácio de La Moneda, 35 anos após o fim da ditadura militar.
Kast obteve 7.252.831 votos entre os mais de 13,4 milhões de eleitores e venceu em todas as 16 regiões chilenas, incluindo tradicionais redutos progressistas como Valparaíso e a Região Metropolitana de Santiago. O resultado também se impôs em áreas de mineração no norte e regiões agrícolas do sul do país, consolidando uma vitória ampla e nacional.
O perfil do novo presidente eleito desperta fortes controvérsias. Filho de Michael Kast, ex-integrante do partido nazista alemão, José Antonio Kast é reconhecido como admirador declarado do ditador Augusto Pinochet e defensor de uma agenda de ultradireita.
Ele se posiciona contra o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, além de ter estruturado sua campanha a partir do discurso do medo, com foco na imigração e na segurança pública.
O discurso e as propostas guardam semelhança direta com a agenda do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, citado como principal inspiração política de Kast. Organizações de migrantes e defensores de direitos humanos alertam para o aumento do medo, da discriminação e da fragmentação social, especialmente pelo fato de o próprio presidente eleito ser filho de imigrantes.
A trajetória parlamentar de Kast também é marcada pela rejeição sistemática a avanços sociais. Durante 16 anos como deputado, votou contra a lei do divórcio, contra a regulação do lucro na educação, contra a pílula do dia seguinte e contra a chamada Lei Cholito, de proteção animal. Publicamente, manteve lealdade a agentes condenados por crimes de lesa-humanidade durante a ditadura chilena, chegando a visitá-los na prisão e adotando uma postura negacionista em relação às violações cometidas pelo regime.
Seu vínculo com o pinochetismo é direto e declarado. Kast apoiou a continuidade de Augusto Pinochet no plebiscito de 1988 e torna-se, assim, o primeiro defensor assumido do ditador a chegar à Presidência em tempos democráticos. Seu irmão, Miguel Kast, presidiu o Banco Central durante a ditadura, e o próprio José Antonio afirmou que, se Pinochet estivesse vivo, teria votado nele. “Teríamos tomado chá juntos”, disse, em referência ao ex-ditador cujo regime deixou mais de 40.175 vítimas entre mortos, torturados, presos e desaparecidos.Além de Donald Trump, Kast também declarou admiração pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele. Em um debate, afirmou que “todos os chilenos que votassem hoje, se Bukele estivesse na cédula, escolheriam Bukele”, elogiando a política de encarceramento em massa adotada no país centro-americano.Para o cientista político Juan Carlos Gómez Leyton, em entrevista à Telesur, o resultado eleitoral confirma uma permanência subterrânea do pinochetismo na política chilena. Segundo ele, “essa vitória confirma que o pinochetismo sempre esteve latente em muitos grupos políticos chilenos ao longo desses 35 anos; simplesmente nunca chegou ao poder”. O analista também avalia que a derrota da esquerda evidencia que a ausência de liderança e coesão abre caminho para que a direita capitalize a fragmentação e a desconfiança social.
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