Sequestro do presidente Maduro e ataque dos EUA indicam tentativa de recolonizar a América Latina e controlar minerais estratégicos
O jornalista Ben Norton avaliou como “um momento muito perigoso” a ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro, afirmando que a ação sinaliza uma tentativa de Washington de retomar mecanismos de dominação típicos da Guerra Fria e das ditaduras militares latino-americanas.
A declaração foi feita em entrevista concedida à CGTN, na qual o analista alerta que a agressão norte-americana se insere em uma estratégia mais ampla de reconfiguração geopolítica do continente sob comando de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos.
“É um momento muito perigoso. O que estamos vendo é uma espécie de reversão dos movimentos anticoloniais do final do século 20. E isso me lembra os anos 1970, quando os EUA tinham algo conhecido como Operação Condor, na qual os EUA apoiavam uma série de ditaduras militares de direita em toda a América do Sul.”
Segundo Norton, o que se desenha é uma tentativa explícita de impedir que países latino-americanos sejam independentes e soberanos, forçando-os a seguir fielmente as orientações de Washington.
O jornalista afirma que essa política não é episódica nem improvisada, mas integra o que ele chama de “mentalidade de Guerra Fria” que domina o establishment norte-americano. Um dos pontos centrais dessa estratégia, segundo ele, é o controle dos recursos naturais e das cadeias produtivas ligadas a minerais considerados críticos.
Norton cita, como evidência, documentos oficiais da política de segurança dos Estados Unidos que estabelecem como meta a criação de uma nova cadeia de suprimentos para minerais estratégicos — incluindo terras raras — para reduzir dependências externas e preparar o país para futuros conflitos globais.
“A estratégia de segurança nacional diz muito claramente que o governo Trump quer criar uma cadeia de suprimentos inteiramente nova para minerais críticos, incluindo terras raras.”
Ele ressalta que a Venezuela não é apenas um dos países com maiores reservas de petróleo do mundo, mas também possui gás, ouro e minerais estratégicos de grande interesse para a indústria militar e tecnológica.
“Além de ter petróleo, gás e ouro, a Venezuela também tem minerais críticos e terras raras.”
Na análise do jornalista, a agressão contra Caracas estaria inserida em uma visão de mundo que trata toda a região como uma zona de influência exclusiva dos EUA, convertendo o hemisfério ocidental em uma espécie de “Fortaleza América” — expressão usada por setores estratégicos de Washington.
“Isso faz parte de uma mentalidade de guerra nos Estados Unidos, em que eles querem transformar todo o hemisfério ocidental no que chamam de ‘Fortaleza América’ e criar uma nova cadeia de suprimentos, usando os recursos naturais da região para se preparar para futuros conflitos.”
Ao final, Norton afirma temer que a Venezuela seja apenas o primeiro alvo de uma escalada mais ampla. Para ele, o continente pode voltar a viver uma fase de ataques e intervenções diretas norte-americanas em outros países latino-americanos.
“Tenho medo de que veremos mais ataques dos EUA em outros países da América Latina em um futuro próximo.”
A fala reacende o debate sobre a volta de métodos intervencionistas, típicos do século 20, em um novo contexto de disputa global por matérias-primas estratégicas. Para Norton, a América Latina pode estar novamente diante de um ciclo de coerção imperial, agora motivado não apenas por ideologia, mas também pela corrida por recursos fundamentais à economia de guerra e à indústria tecnológica.
Entenda o que foi a Operação Condor
A Operação Condor foi uma articulação repressiva internacional estabelecida na década de 1970 entre ditaduras militares da América do Sul — especialmente as do Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Brasil — com apoio dos Estados Unidos, tendo como objetivo perseguir, sequestrar, torturar e assassinar opositores políticos, inclusive fora das fronteiras nacionais.
O esquema funcionava como uma rede de cooperação entre serviços de inteligência e forças de segurança dos regimes autoritários. Militantes de esquerda, sindicalistas, estudantes, intelectuais e lideranças populares eram identificados como “inimigos internos” e alvo de ações conjuntas. Em muitos casos, pessoas perseguidas em um país eram capturadas em outro e transferidas ilegalmente, sem qualquer processo judicial, em operações clandestinas.
Documentos desclassificados e investigações históricas apontam que os EUA, por meio de agências como a CIA e de sua política externa durante a Guerra Fria, ofereceram apoio logístico, informações e respaldo político às ditaduras envolvidas, dentro da estratégia de combate a movimentos populares e governos considerados “ameaça” ao domínio norte-americano no continente.
A Operação Condor se tornou um dos símbolos mais brutais do terrorismo de Estado na região e deixou como legado milhares de mortos, desaparecidos e vítimas de tortura, além de ter consolidado regimes autoritários alinhados aos interesses geopolíticos de Washington.
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