Há determinadas situações que, ao que tudo indica, só acontecem no Brasil. Exemplo disso é o autointitulado “patriota” que odeia seu próprio povo e idolatra os Estados Unidos, um de nossos maiores algozes. Pura Síndrome de Estocolmo. Mas tal posicionamento não surgiu só nesses tempos. Na década de 1950, Nelson Rodrigues cunhou o termo “complexo de vira-lata” para ilustrar o sentimento de inferioridade que o brasileiro possui em relação a outros países, principalmente europeus e os anteriormente citados Estados Unidos.
Mesmo antes de Nelson Rodrigues conceituar o complexo de vira-lata, setores de nossa intelligentsia – de Paulo Prado a Monteiro Lobato – já apontavam ser o brasileiro um tipo degradado, formado pela miscigenação de negros, indígenas e portugueses (espécies de “não-europeus” dentro da Europa).
Como as ideias não ficam restritas à “elite pensante”, elas ganham asas e chegam ao chamado senso comum. A “Lei de Gérson” diz que o brasileiro gosta de levar vantagem em tudo. Uma antiga lenda diz que Deus criou uma terra de natureza privilegiada, com o nome Brasil. No entanto, para contrabalançar, nela seria colocado um “povinho indolente”.Na grande mídia, tanto em programas de entretenimento quanto no jornalismo, o complexo de vira-lata também está presente. Bento Carneiro, “o vampiro brasileiro” de Chico Anysio, ao contrário de seus congêneres estrangeiros, é medroso e covarde. Em telejornais, qualquer tipo de tentativa de política externa brasileira autônoma é sumariamente criticada. Devemos continuar sob a esfera de influência e submissos aos Estados Unidos. O recado é claro: o que é bom para Washington é bom para nós.Portanto, qualquer tipo de desenvolvimento brasileiro deve passar, inexoravelmente, pela mudança de mentalidade. Isso significa abandonar o complexo de vira-lata, nosso “Narciso às avessas”, como dizia Nelson Rodrigues. E esse sentimento nefasto não é culpa de nosso povo – supostamente degradado – mas de uma elite que odeia o próprio país, ideologicamente escravocrata, entreguista das riquezas nacionais, que se espelha em europeus e estadunidenses, mas, na realidade, não passa de capacho das nações que, de maneira subserviente, considera “superiores”.
Por Francisco Fernandes Ladeira